segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Quem gosta de sentir medo?

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Aos 7 anos de idade, assisti ao filme Não adormeça que foi exibido pela Rede Globo, no  ano de 1985,  no Super Cine. Naquela época, víamos uma propaganda de filme no intervalo da novela e esperávamos a semana inteira para assisti-lo.

Se hoje temos a grande vantagem de fazermos o nosso horário e programação,  podendo assistir a qualquer coisa pela tela do computador, durante a minha infância nos anos 1980,  havia um quê de ritualístico em cada programa que assistíamos. A gente tinha que esperar aquele filme, naquele horário. E as pessoas se reuniam como se fosse um grande evento. E de fato era.

Deixando saudosismos de lado e voltando ao Não adormeça, filme realizado para a televisão no ano de 1982,  não posso deixar de sentir uma emoção profunda e estranha quando penso nesta obra que ainda me assusta,  mesmo depois de ter assistido a tantos filmes de terror sem sentir medo. Acredito que tudo aquilo que nos aterroriza na infância, continua a nos assombrar de alguma forma. Que bom! Uma vida sem um pouco de catarse  me parece monótona. É triste quando não conseguimos rir de mais nada nem sentir medo ou emoção. Embora seja uma defensora dos filmes mais intelectuais que nos conduzam a reflexões mais profundas e menos emocionais, acho que de vez em quando é saudável nos reconectarmos com um lado mais infantil.


Li todo tipo de crítica sobre este filme. A maioria positiva. Há quem o considere um filme tosco. Mas muita gente o defende como uma obra interessante, apesar de alguns deslizes técnicos. Como sou escritora e minha praia é o roteiro, me incomodou ver alguns defeitinhos nesta parte. Mas de qualquer forma e independente de qualquer possível falha de linguagem, existe algo de muito magnético neste filme que virou cult nos anos 1980 e marcou a infância dos trintões.

Duas questões me marcaram especialmente em Não adormeça.

1. Sem efeitos especiais e  cenas grotescas  o filme consegue aterrorizar.  Na cena final, quando uma grande revelação acontece ( não a contarei RS) um simples recurso de iluminação, que vai mostrando aos poucos o rosto da personagem, para mim, assusta muito mais do que cenas explicitamente violentas.

2. Gosto da questão do drama familiar. Embora o roteiro apresente algumas falhas, em minha opinião, a trama é bem interessante porque gira em torno  de problemas cotidianos como o ciúme e inveja entre irmãos, relações conflituosas entre sogra e genro, abuso de bebida justificado como algo opcional  e o principal de tudo:  a paradoxal relação fraternal. Por um lado, Mary ama a sua irmã falecida. Por outro, ela desejava a sua morte. E deste conflito de sentimentos, a inevitável culpa e todas as consequências terríveis provenientes das escolhas equivocadas.
 
O filme pode ser baixado pela net ou encontrado no youtube. Disponibilizei o link no final do post.  Para aqueles que já viram e ficaram com saudades, vale reviver a nostalgia. Para quem nunca assistiu e ficou curioso,  será uma experiência cinematográfica diferente dos filmes de terror atuais que apostam mais nos efeitos especiais e nas cenas explícitas de violência. Só um alerta: durante o filme, não adormeça RS
 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.
 
Abaixo, link para o filme completo. Buuuuuuuuuu
 

 

 

 

5 comentários:

  1. Nunca tinha visto esse filme.Cliquei no link pra assistir. No começo já dar aquela nostalgia em ouvir "Uma produção Herbert Richers" e aquelas vozes conhecidas do melhor estúdio de dublagem da América latina. Dar até uma emoção! RS!:D Mas, no primeiro incidente com a Mary tive que me deparar com um dos meus traumas de infância, bonecas. Sim! Bonecas,palhaços e qualquer espantalho que tenha máscara.Puts! Me deu um frio na espinha quando vi aquelas bonecas se mexendo. Mas, falando do filme ele é muito legal. Confesso que rir horrores de algumas partes inusitadas. Uma delas foi o número da residência "13666". Que eu fiz uma associação bem escrota do número com a política. Temos o "13" do PT e o "666" que é o tal número da besta. Daí você entende a graça. Adorei a interpretação da Mary no momento de medo. Quase desmaiando. E rir muito com o menino e a relação do pai dela com a avó. Esses dramas de família são os melhores. E sem falar das cenas finas que você citou e que eu não vou dar spoliers também. Mas, o legal desses filmes de 80 e 90 é justamente essas trilhas sonoras e esses jogos de luz e da câmera. E algo delicioso de se rever. Adorei! Me deu até vontade de assistir "A Lagoa Azul". Mentira! Kiki ;)

    ResponderExcluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  3. Quando vi este filme pela primeira vez, a cena das bonecas foi a que me traumatizou mais. Por alguns anos, tive bonecas no meu quarto e às vezes eu me lembrava do filme, quando olhava para elas. Depois, ao rever o filme na fase adulta, outras coisas começaram a me assustar mais e as bonecas ficaram em segundo plano. Eu vi este filme 5 ou 6 vezes. Das 5 primeiras vezes, eu me lembro das datas. Agora , a sexta vez , eu não me lembro. Nem tenho certeza mesmo se o vi uma sexta vez. Olha, o que este filme provoca na minha cabeça? RSRSRSRS Hj, para mim, o pior é aquele efeito de iluminação na cena final RS Procuro encontrar este tipo de coisa nos filmes atuais e não encontro. É frustrante. Sobre "A lagoa azul"...eu amava este filme quando criança RS Os anos 1980 mexem muito comigo!

    ResponderExcluir
  4. Sobre outro trauma de filme de infância foi quando fui passar as férias na casa da minha avó materna. A família da minha mãe é daquelas grandes. Minha avó trouxe ao mundo 12 filhos. E juntando com os netos, imagina a cena! E todos se reuniam no final do ano para ir visitar. O filme que me assustou naquela época foi "A Noite do Espantalho". Um filme dos anos 80 que me amedrontou mais talvez pelo cenário que se passava o filme. Justamente parecido com a cidade onde minha avó residia. O cenário é as pessoas pareciam que tinha sido tirados do filme. Isso foi tenso pra mim. Lembro que passei uns dois dias sem dormir direito naquela semana. Mas, acredito que superei. RS! Mas, as bonecas... É tenso!Fixo os olhos nelas e principalmente dessas antigas que eram feitas com cabelos de verdade. Eu não consigo ficar sozinha num lugar com bonecas. Principalmente dessas iguais a do filme. Desse trauma eu ainda não superei.

    ResponderExcluir
  5. Eu também não curto muito estas bonecas antigas não RS Interessante o seu relato. A família da minha mãe também é numerosa. Minha avó teve 9 filhos, mas um morreu ainda bebê. Uma média de 2 netos por filho. Aconteceu um episódio semelhante na minha infância, que eu cheguei a relatar no Garota desbocada. A primeira vez que fui à casa com energias estranhas de uma tia minha , no interior, vimos o filme A mosca. Eu acabei relacionando o filme com a casa. Uma meleca e tanto RS Recentemente, revi A mosca e a má impressão passou. Comecei a ver o lado mais intelectual do filme. A relação com Kafka...

    ResponderExcluir