sexta-feira, 15 de junho de 2018

Mais uma colher de lascívia , por favor

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS 


Acho que desde sempre tive este gosto estranho pelos abismos. Gosto de flertar com eles. Olhar de esguelha. Sorrisinho de canto de boca. Estou passando por aqui, por acaso , digo para mim mesma , cortando em dois ou em três uma possível culpa. 

Ando de um lado para o outro. Espero alguém? Procuro algo? Revisito as milhares de gavetas e prateleiras caóticas da memória antes de dar mais uma piscadinha para o tal abismo.

Acho que desde sempre tive este faro para as pequenas mentiras cotidianas. Sinto cheiro de qualquer uma delas como quem inala o odor de um bolo quente , recém-saído do forno. 

A massa fumegante e fofinha se desmancha pela boca , mas o sorrisinho torto continua ali. 

Existe algo de intrigante em qualquer nota destoante.

Acho que desde sempre tive esta sintonia com o caos , com o acaso, com o estar no local errado , justamente na pior hora possível.

Acho que desde sempre quis estar no local errado, perder o último trem que vai para casa , vagar pelos perigos da cidade , esta cidade cheia de monstros imaginários iluminados por neon roxo, que vagam por aí me convidando para apenas mais uma desviada de rota , para apenas mais uma mentirinha sem importância. 

Mais do que o abismo e a mentira , sinto-me seduzida pela transgressão, por fazer as coisas viradas , do jeito contraindicado no manual de instruções. Não há nada mais chato do que manuais e livros de receita. Jogo os temperos na panela a meu bel prazer. Nunca há o suficiente daquilo que nos dá prazer. Ok.Ok.Ok. Vai ser a última colher de lascívia. Prometo para mim mesma, mas sou uma falsária como todo poeta.  












































































































Sílvia Marques é doutora em Comunicação e Semiótica , escritora, atriz e psicanalista lacaniana. Escreve na Obvious e Fãs da Psicanálise, idealizadora da pós em Cinema do Complexo FMU. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

www.psicanalistasilviamarques.com

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Um brinde à insensatez

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Gosto quando beija as minhas loucuras. Deixo de sentir vergonha de ser eu mesma. Gosto quando olha para mim e bebe da minha insensatez como o mais doce dos vinhos , como o mais idílico dos momentos.

Gente metida a intelectual como nós curte racionalizar , pôr tudo bonitinho num esquema filosófico falsamente caótico. Mas no fundo, na hora do vamos ver, quando as emoções e ressentimentos saem em disparada pelos corredores da memória , não esperamos pela sensatez de quem amamos. Esperamos uma adesão total , insana , ardente. 

"Calma , amor. Acabou. Era apenas um sonho mau". E ainda com lágrimas deslizando pela pele da alma, a gente se deixa ficar nos braços de quem se encanta por tudo aquilo que existe de mais feio em nós. 

No minuto seguinte , volto a ser feliz. Coloco meu decote mais descuidado para que me olhe sem pudor. E saio pelo mundo sem medo de nada, com o gosto do teu olhar tatuado nos meus gestos mais banais.







































































































Sílvia Marques é professora doutora , escritora, atriz e psicanalista lacaniana. Escreve na Obvious e Fãs da Psicanálise, idealizadora da pós em Cinema do Complexo FMU. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

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sexta-feira, 16 de março de 2018

Quando eu descobri que era gato e não cachorro

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Não. Não foi num dia específico que descobri que era gato e não cachorro. Foi numa fase. Algo difuso como as mamas vistas por meio de um ultrassom. 

Não foi de repente , estilo um susto que a gente leva , um insight , um salto no escuro, um sexo brutal com as saias levantadas e as calcinhas abaixadas: "Nossa! Já acabou?" pronunciado no meio de um sorriso de canto de boca , meio sarcástico, meio perverso. Meio querendo algo inteiro.

Não. Foi estilo aquela carícia morna e boba descendo do pescoço até o cóccix. Estilo aquela risada que vai se intensificando quando nos embriagamos com poesia e desatino. Sim, sou um gato. Aos poucos , fui percebendo que tinha unhas afiadas e um jeito manhoso de amar. Posso querer você e te repelir em doses quase idênticas. Gosto da tranquilidade dos dias iguais. Prezo rotinas. Prezo que me prenda com mãos brandas. Mas preciso das laterais para caminhar sozinha , no meu ritmo. Tenho uma canção francesa e melancólica tocando em meu coração.

Se te unho de leve quando tenta reter-me em seus braços , não é por falta de amor. Lá no fundo , tenho muito medo de qualquer coisa. De prender a respiração, de perder aquilo que acho mais caro em mim.  Talvez , das cócegas nos bares escuros da cidade, talvez das lembranças ternas entre os lençóis amarfanhados. 

Sim, sou gato quando me afasto para não te morder e apenas te firo com meu tédio lânguido. Quando amo a mim como amo a você. 



































































































Sílvia Marques é professora doutora , escritora, atriz e psicanalista lacaniana. Escreve na Obvious e Fãs da Psicanálise, idealizadora da pós em Cinema do Complexo FMU. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

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terça-feira, 13 de março de 2018

Carta de despedida à minha analista

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A gente percebe que a psicanálise chegou num ponto bem elevado quando precisamos mais de uma sessão de cinema do que deitar no divã. Quando o bocejo do analista deixa de nos ferir, pois a gente se toca de que as nossas dores são como tapioca recheada com Nutella. Saborosas, mais banais. 

A gente percebe que a psicanálise chegou num ponto bem elevado quando tomar uma cerveja com os amigos deixa de ser evento marcado com um mês de antecedência e passa a ser rotina. Quando podemos ficar lado a lado sem dizer nada. Quando respeitamos o afastamento do outro ou quando somos nós a nos afastar. Algumas coisas devem ser deixadas de lado mesmo, colocadas na sacola de roupas usadas para doar. 

A gente percebe que a psicanálise chegou num ponto bem elevado quando sentimos que nem tudo o que os outros dizem é para nos ferir.  E mesmo quando é, a tristeza pelas palavras atravessadas se torna página virada em nosso folhetim na esquina seguinte.

A gente percebe que a psicanálise chegou num ponto bem elevado quando desistimos de ensinar para quem não quer aprender. Quando a gente percebe que o outro ainda não está pronto para abrir mão do próprio sofrimento. Que algumas cicatrizes na pele da alma são inevitáveis e incuráveis, mas sem elas não seríamos nós mesmos. Quando a gente pode falar do passado sem mágoas nem medo. 

A gente percebe que a psicanálise chegou num ponto bem elevado quando o sexo não precisa ser tão louco para ser gostoso. Que a gente quer escolher a posição mais confortável e deixar fluir. Que D.R só em último caso e que rir da gente mesmo é bem mais divertido do que zombar dos outros.

A gente percebe que a psicanálise chegou num ponto bem elevado quando paramos de dar corda para a neurose alheia e perdemos a vontade de reclamar de tudo a todo momento. Quando passamos a nos colocar em primeiro lugar , mas entendemos que o mundo não rebola com seus sete véus  ao redor do nosso lindo umbiguinho. 

A gente percebe que a psicanálise chegou num ponto bem elevado quando o sentido das coisas deixa de ser pergunta importante. Quando a gente olha para o caos com olhos de quem vê uma obra de arte.
















































































Sílvia Marques é professora doutora , escritora, atriz e psicanalista lacaniana. Escreve na Obvious e Fãs da Psicanálise, idealizadora da pós em Cinema do Complexo FMU. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Caos

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Passo o lápis preto debaixo dos olhos.  Pinto os lábios com batom vermelho e finalmente me vejo demaquilada , finalmente vejo a mim mesma. Jogo os cabelos para trás para deixar o brinco à mostra. Movimento a cabeça para vê-lo tremendo ...é um gesto infantil e bobo. Me delicio com um sorriso de canto de boca.

Encho uma taça de vinho que me transporta para terras distantes. Sinto o calor de emoções antigas voltar a me aquecer. Me entrego a elas com a lascívia daqueles que nunca temem as consequências trágicas de suas escolhas impensadas. 

Fecho os olhos e vejo tudo que não quero querendo com desesperada calma. Olho para o abismo. Não posso evitar. Meus lábios anseiam por beijar demoradamente o caos.  
















































































Sílvia Marques é professora doutora , escritora, atriz e psicanalista lacaniana. Escreve na Obvious e Fãs da Psicanálise, idealizadora da pós em Cinema do Complexo FMU. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Ode à uma desconhecida

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Como um prato cheio de rosbife e tomo uma cerveja alemã olhando para o mesmo horizonte de um ano antes , quando tudo era diferente e ao mesmo tempo igual. 

Minhas emoções primárias estão intactas enquanto o mundo ao meu redor gira loucamente ao som de uma música insana que não entendo.

A cerveja gelada incendeia as minhas ideias que vagam tão loucamente quanto a música imaginária que me envolve num mundo de possibilidades iguais.  Por trás do rosto ironicamente plácido ,  dorme um sono leve uma mulher nua e passional, capaz de se rasgar  por um último beijo de amor. 

Penso que quando fazemos qualquer coisa só por amor, tudo fica mais forte e frágil. 

Se somente o desejo me liga a você , se somente o desejo me liga a tudo que sinto e toco e faço,  deixar para trás e partir se tornam as tarefas mais simples e complexas da existência.

Dançamos completamente embriagados no palco da vida sob uma chuva de lembranças.  Rimos meio sem saber o porquê enquanto peço que abra outra garrafa de nostalgia para tomar junto com as sobras do café da manhã. 

Ando nua pelo quarto. Seu olhar não me intimida mais. Não me escondo pois sei que há qualquer coisa que nunca poderá tocar em mim. Pois sei que esta mesma coisa que  você não pode pegar e se apoderar também está completamente apartada de mim. 

Sou fascinada por tudo aquilo que desconheço. Quero tocar com os lábios pintados de batom vermelho o que não consigo dizer a mim mesma enquanto digo qualquer coisa a você. 













































































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domingo, 10 de dezembro de 2017

Promessas para 2018

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Em primeiro lugar , opto por não fazer promessas. E esta é a minha única promessa.

Em segundo lugar , não acredito em promessas. Acredito no aqui agora . No presente. No gosto do seu beijo. No teu olhar. Acredito nesta emoção que me corta por dentro. Que me corta em dois. Que me corta em mil. 

Acredito no teu olhar quando olha para mim , pedindo mais uma gota do meu amor. Sou uma fonte inesgotável. Sou o que sou. Desesperada. Me atiro em seus abraços como se não houvesse mais nada. E talvez , realmente , não haja . Não me importa!

Passa a língua em minhas costas e me transporta para o nosso primeiro encontro.Tudo volta ao princípio e fecho os olhos sorrindo. Todos os jogos de amor são meio perversos! Que delícia!

Me encontrou meio perdida na rua e me fez tua. Tomei o espumante com boca boa quando a festa estava para terminar. 

Me despe com um olhar. O mesmo olhar que me afaga , me beija.  




































































Sílvia Marques é professora doutora , escritora, atriz e psicanalista lacaniana. Escreve na Obvious e Fãs da Psicanálise, idealizadora da pós em Cinema do Complexo FMU. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

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