quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Caos

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Não me olhe com esta cara de quem sabe toda a verdade. Não tente me engolir com um beijo de amor nem agarrar a minha alma num abraço mundano.

Sinto o calor da sua respiração me comendo com a sua fome de amor e não sei o que dizer. Apenas sorrio. Para mim mesma. De mim mesma. A vida é um jogo de palavras e não sei o que dizer. Sou uma escritora desde sempre e tudo que posso fazer é te olhar e sorrir. Com este mesmo sorrisinho de canto de boca que dou como resposta lacônica e sedutora para o mundo.

Sim, a vida é um jogo de palavras e como gosto de tecer versos esgarçados,  molhados de vinho e lascívia, impregnados pela minha verdade subjetiva, danço ao ritmo do acaso bebendo da minha poesia barata. 

Sim, a vida é um jogo de palavras e o amor , o mais estridente dos estribilhos. Danço cada vez mais rápido, passos novos e desajeitados. Não sou um dos casais robóticos de Último tango em Paris...estou mais para Brando mostrando a bunda para esta gente que acha que sabe tudo com suas caras enfezadas e seu medo de flertar com o próprio desejo. Olho para ele. Olhos nos olhos. Me tira para dançar. Não sei dançar direito. Quem se importa com isso? 













































































Sílvia Marques é escritora, professora doutora ,  escreve na Obvious, idealizadora da pós em Cinema do Complexo FMU, psicanalista. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

domingo, 15 de outubro de 2017

O amor é uma poesia em carne viva

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Sinto saudade da sua bagunça. Sinto saudade de ter você pigarreando pela manhã, passando displicentemente a mão no cabelo farto, tentando domá-lo enquanto aspiro o cheiro de fumo que exala da sua pele trigueira. 

Sinto saudade da sua cueca jogada pelo meio do caminho. Desvio para não pisar na sua roupa íntima com meus tênis grosseiros ou  meus saltos confortáveis, quadrados , perfeitos para quem não dirigiu a libido para o cumprimento dos protocolos ditos femininos.

Sinto-me eu mesma com meu batom vermelho, os braços arrepiados quando lança um sopro quente em meus ouvidos, os mamilos levemente atrevidos , uma vontade de não sei o quê. 

Posso suportar numa boa a saudade que sinto quando está longe de mim, tomando meu vinho branco bem gelado enquanto transformo meu mais banal dia a dia na mais cálida poesia. Quando desafio o tédio com um sorrisinho de canto de boca. 

Insuportável é sentir a sua falta quando se aninha em meus braços , nos mesmos braços arrepiados, nos mesmos braços que não podem te segurar , sentindo o calor da sua respiração colada ao meu decote descuidado. 

Sou uma mulher inadequada. Você sempre soube disso enquanto tragava um pensamento filosófico juntamente com a fumaça do cigarro, um jeito levemente sarcástico, algo entre "Estou extasiado" e "Estou nem aí".

Acho que gosto mais do seu niilismo do que do seu êxtase por mim. Não estou acostumada a ser desejada. Não sei ser desejada. Não sei onde colocar os braços.  Sinto falta de saber andar bem de salto. Mentira...mais um sorrisinho de canto de boca. Mais um verso de poesia tecido com as emoções da vida, com as mesmas emoções diluídas no fundo de uma taça de vinho. 






































































Sílvia Marques é escritora, professora doutora ,  escreve na Obvious, idealizadora da pós em Cinema do Complexo FMU, psicanalista em formação.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

domingo, 8 de outubro de 2017

Por onde anda a garota desbocada?

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Me perguntaram sobre a garota desbocada esta semana e eu senti uma saudade verdadeira daquela sujeitinha irreverente , que se acha atraente com suas calcinhas de renda meio esgarçadas, com seus quilinhos a mais e seus mamilos rosados de mocinha com quase 40 anos. 

Que faz poesia com suas palavras mais gastas do que as rendas das  mesmas calcinhas que ela insiste em usar como quem repete velhas emoções diante de um copo vazio. 

Me sinto literariamente e existencialmente sóbria hoje. Busco o que dizer com a lembrança da pele da alma, com o gosto do vinho que tomei na semana passada. Reinvento o meu torpor porque como todo poeta, sou uma dissimulada que encena o próprio gozo, a própria dor. 

Porque como toda poeta me desnudo de mim mesma para sorver num canudinho imaginário o sangue do meu coração. 

Ás vezes, queria ser a garota desbocada mais uma vez. Ela é o tipo de mulher que faz até as mulheres perderem a cabeça. Se a encontrasse no meio da rua , atravessando-a de forma descuidada , a chamaria para um café e um dedo de prosa e juntas faríamos uma poesia de carne e osso.

Mas estou cansada. E me contento em dissimulá-la por meio das minhas palavras que significam nada enquanto escuto "Onde anda você" , com um sorrisinho de canto de boca, ruminando qualquer coisa muito insana.  




































































Sílvia Marques é escritora, professora doutora ,  escreve na Obvious, idealizadora da pós em Cinema do Complexo FMU, psicanalista. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.











terça-feira, 5 de setembro de 2017

A vida cabe numa taça de Margarita

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS



Uma das pequenas delícias do amor é se botar de quatro na cama , esticar o braço para pegar qualquer coisa na mesinha de cabeceira , vestindo apenas calcinhas de rendas. Se elas estiverem levemente esgarçadas , melhor ainda. Dão um certo ar blasé , estilo "estou nem aí para esta coisa de roupas novas , calcinhas impecáveis e mais uma série de itens que fazem a cabeça das mulheres comuns".

Gosto de esticar bem o corpo , empinar bem as nádegas só para merecer um beijinho ou uma mordiscada no bumbum, sem passar horas na academia. 

Gosto de todo o caos mais ou menos organizado que ronda o quarto de um casal. Certas repetições , alguns lugares comuns que fazem parte do mise-mise-en-scène da vida a dois.  Eu finjo estar pegando alguma coisa ( ou estou pegando mesmo) e ele me morde com o vigor de um gesto novo e eu me surpreendo com a risada de sempre. 

Gosto de toda a rotina meio bagunçada que ronda a intimidade de um casal. Certas surpresas , pequenos imprevistos que fazem parte do frenesi do estar junto. A gente muda de planos no minuto final e de repente a vida cabe numa taça de Margarita.  Fica tudo com gosto de tequila queimando a garganta, um salgadinho nos lábios da alma sussurrando "Quero um gole a mais...". Mas precisa ser um daqueles bem longos! 





























































Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.










quinta-feira, 13 de julho de 2017

Declaração de amor niilista!

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

A vida não faz sentido. Mas comer sushi é bom.

A vida não faz sentido. Mas tomo meu vinho gelado com boca boa.

A vida não faz sentido. Mas quero fazer amor.

A vida não faz sentido. Mas estou louca por um crepe vendido em praça de alimentação ou enviado delivery dentro de uma caixinha.

A vida não faz sentido. Mas minha camisola bordô ainda é nova e quero usá-la até a renda se partir como as das minhas calcinhas surradas.

A vida não faz sentido. Mas ainda não aprendi a dançar tango nem Flamenco.

A vida não faz sentido. Mas ainda não li Proust nem Joyce.

A vida não faz sentido. Mas quero ir ao churrasco de domingo.

A vida não faz sentido. Mas quero ainda ouvir a campainha do teatro antes da peça começar. Quero me sentar no balcão do Municipal.

A vida não faz sentido. Mas quero comer um punhado de cerejas frescas no Natal. Levar um figo á boca. Me sujar.

A vida não faz sentido. Mas quero ganhar mais um presente de aniversário, rasgar o papel com mãos ávidas.

A vida não faz sentido. Mas quero chorar ao som de Henry Mancini ou de Michel Legrand ou de Maurice Jarre.

A vida não faz sentido. Mas quero escrever mais uma poesia ao som de Charles Aznavour  e dividir um fondue ouvindo Ne me quitte pas e pensar em tudo escutando Que rest t-il de nos amours.

A vida não faz sentido. Mas quero lembrar da minha infância por meio do cheiro de orégano e manjericão do molho da macarronada.

A vida não faz sentido. Mas quero fazer mais alguns gestos tempestuosos , ver mais filmes de arte , enfiar os pés pelas mãos , ser eu mesma com o meu batom vermelho.

A vida não faz sentido. Mas preciso tomar mais um banho de chuva, ter seus olhos sobre a minha blusa colocada , rir meio bêbada , sem medo de nada.
 
A vida não faz sentido. Mas quero mais uma vez dormir em seus braços.

A vida não faz sentido. Mas gosto de ver o seu sorriso, o seu corpo caminhando na direção do meu, seu colete , seu jeito de menino amadurecido às pressas na plataforma do metrô.



















































 
 















Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.








Sou aquilo que dizem que eu não sou

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Sou o que sou: caos e fúria dançando nus por trás de um véu fino e transparente de delicadeza meio afetada. 

Sou a que ri e a que chora depois de esvaziar um copo de vinho gelado ao som de Henry Mancini.

Sou a que entende a tragédia da vida com ares professorais e se chafurda contorcida de dor e desespero por não suportar aquilo que peço aos outros para aceitar. 

Sou a que deseja paz enquanto se envolve em guerras homéricas. Sou a casta que se entrega despudoradamente aos meus mais insanos caprichos.

Sou a que busca pela desordem irreverente enquanto toma uma taça de espumante tranquilamente. A voluptuosa que só quer dormir abraçada. 

Sou a menina que cresceu em escola de freiras vestindo uma camisola de rendas. Sou a menina de rua que quer virar mulher só para ser chamada de senhora. 

Sou aquilo que os outros imaginam que eu não seja. 


























































Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.









quinta-feira, 1 de junho de 2017

Amor , apenas o amor

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

É como se eu tivesse vivido num coma existencial durante milênios, querendo ardentemente o que eu mais repudio, o que eu mais não desejo para mim. 

É como se eu corresse na direção de algo que não quero. Finalmente , me vejo nua e crua na frente do gigantesco espelho da alma. Sou pérfida. Sou suja. Pouco me importa a minha mesquinhez. Sou o que sou. Tenho amor de sobra para dar.  Mas não quero correntes a me aprisionar.

Sou como o vento: leve e fluida. Sou como o metal: pesada e trágica. Não caibo em nenhuma palavra. Estou no campo do real. Estou no campo daquilo que não pode ser dito. Sorrio.  Que delícia!

Quase gozo diante do indescritível.  Bebo mais uma taça de vinho. Morro de amor por você. Morro de amor de mim.  A vida é cinza , mas vejo mil cores dançando à minha frente , retirando os seus véus , me sorrindo cheias de malícia. O vermelho explode. Sou tua. És meu. Nada mais importa. 






















































Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.










domingo, 28 de maio de 2017

A vida é meio escatológica

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Acho que sou a única mulher no planeta Terra que solta pum...ou seria melhor dizer , a única que peida. Sim, eu peido. E tiro aguinha do joelho e cago com gosto. Acho um frisson a saída do cocô. É quase uma massagem relaxante. Não digo que seja de graça pois um bom e macio papel higiênico tem o seu custo.

Quando as mulheres se recusam a falar sobre peidos ou usam termos infantis para se referir aos atos de evacuar , sinto que os odores emitidos pelas mesmas fedem menos.  O poder das palavras. Sim, palavras têm o poder de maquiar realidades duras. Mas por pouco tempo...basta um jato forte de água para borrar o rímel e  transformar a base e o blush numa massaroca. 

Viver e amar não é só declamar versos e aspirar o odor de flores e acariciar as pétalas macias de rosas.  A vida tem a sua porção escatológica e ela é bem grande, gostando ou não, aceitando-a ou não.

Não importa a marca do batom e o quanto é caro o  creminho que passa no rosto antes de dormir para dar um up-grade na pele. Não importa o quanto seus dentinhos sejam bem escovadinhos. Ao amanhecer, podemos sentir em nossa boca e na boca da pessoa amada milhares de pequenos cadáveres dançando.

Não adianta o preço do rímel , os olhos amanhecerão com remelas. Não adianta evitar ao máximo palavras que se refiram a dejetos. Todos nós iremos fazê-los com seus odores típicos.

Não adianta saber combinar uma bolsa com sapatos como ninguém. Ainda exalaremos um cheiro azedo caso fiquemos um dia inteiro sem tomar banho . Principalmente se for um dia quente. E quando o suor secar na roupa , vamos sentir cheiro de qualquer coisa velha , com data vencida. E depois de um dia incrível, pensaremos meio indignados : "Mas este cheiro é meu mesmo? 

Cheiros constrangedores parecem pertencer apenas aos mais pobres e feios. Não, não se iluda. Seu creminho anti-idade não te faz mais jovem nem teus perfumes caros essencialmente cheirosa.

É tudo fantasia , ilusão. E quem tiver senso de humor , saberá rir desta gigantesca piada que é existir. 













































Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.











quinta-feira, 25 de maio de 2017

Poesia na veia

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Gosto do teu cheiro pela casa. O gosto do fumo em sua boca. Respiro lentamente , caindo em queda livre nos abismos caóticos da minha alma de poeta. 

Ando nua e descalça por terras imaginárias, tecendo poesia com minhas memórias vagas. Teu cheiro me leva para o meu paraíso perdido, para a minha terra prometida onde jorrarão vinho e melodia.  Onde me colocarei a dançar loucamente ao som das verdades tecidas por minhas mãos. 

Detesto o moralismo desta gente que não sabe gozar. Detesto o moralismo que ainda reside em mim , segurando o meu braço com violência diplomática , trancando em meu peito, em minha garganta , em minha boca o grito louco que não quer parar. 

Quero correr pela rua sem ter hora para chegar . Quebrar os relógios do mundo. Me atirar em seus ponteiros e simplesmente brincar e brincar e brincar pois tudo não passa de uma grande piada. 

Quero o teu beijo antes de dormir pois é um dos poucos clichês que posso suportar sem cair aos prantos ou na gargalhada. Quero o teu beijo pois ele é a sua parte que pertence a mim. É a parte que posso engolir e deglutir como o mais venenoso dos frutos proibidos. 

Não temo os venenos . Temo as curas. Gosto de me olhar no espelho e me ver assim meio torta , meio irônica , meio doce. Meio sua , meio minha , meio desta humanidade perdida , que crê na Salvação do Deus espinafre e que tece preces aos santos rúcula , acelga e tomate sem azeite. 

Continuo a me envenenar comigo mesma , com minha poesia suja e barata. Com o meu amor que se chafurda em lençóis amarfanhados.  




































Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.












terça-feira, 23 de maio de 2017

Uma ode ao amor louco

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS


Disse à minha analista que era uma vaca. Sim, sou uma vaca. Sou forte , sou fêmea. Não temo o meu desejo e o olho nos olhos , sorvendo teu sangue com boca boa . Com a boca de quem sabe o que quer ou imagina saber.

Sim, sou uma vaca pois não me quebro diante do teu olhar . Pois controlo o fluxo do prazer até render-me a ele. Porque sou o que sou nos teus braços indecentes. Porque sou o que sou na minha ânsia imprudente de ser eu mesma.

Lembro de nós dois caminhando pela rua numa noite de chuva.  Aprisionou-me na tua memória como aquela mulher que te queria sem te querer. Teu desejo me arrasta ao ponto de partida da nossa história. Teu desejo me obriga a ser a fêmea que transforma seu maior medo em sua maior coragem. E continuo a vagar por uma chuva imaginária , bebendo de um futuro que me parece cada vez mais seguramente incerto ou incertamente seguro. 

O caos virou nossa rotina. Roupas pelo chão. A louça por lavar. A garrafa de vinho vazia rindo da nossa cara. Rio também. Você me indaga. Não sei dizer o porquê. 

Sou esta poça de imundície que colore o mundo com cores novas. Sou o odor quente que traz uma lembrança tenra de terras distantes.  Sou o que não posso explicar ou o que não quero entender . 

Seguro tua mão. O calor da tua pele entra em choque com o frio da chuva. Tudo se dilui. 






























Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.














segunda-feira, 22 de maio de 2017

O que transborda...

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS



Têm coisas e pessoas e sentimentos que transbordam. Do resto, pouco ou quase nada entendo. E nem quero entender. Por mais que diga que sim. Sim, tenho o meu lado dissimulado quando finjo para mim mesma que compreendo  o medo alheio ou que me escandalizo com as suas ideias insólitas numa mesa de bar. 

Sempre senti certo respeito desdenhoso por aquilo que não extrapola , por aquilo que não salta aos olhos. Por aquilo que não agarra a jugular querendo beber até a última gota da alma alheia.

Desprezo abraços frouxos , sentimentos incapazes de gritar , de gemer , de gozar . Desprezo as máscaras bem comportadas de quem não consegue se dar.  Muito menos receber. Não há nada mais apequenado do que recusar o gesto louco alheio. Quem não tem senso de humor  para tecer as suas redes, ao menos ria da piada feita. 

Gosto de pessoas que escutam a música e se põem a dançar. Ou que dançam mesmo sem ouvi-la. Este é o maior ato de fé. 

Gosto daqueles que fluem rumo aos outros. Gosto de pessoas despudoradas , que se rasgam em confidências imprudentes, indecentes. Gosto de quem apanha 70 x 7 vezes e ainda mostra o rosto cheio de empáfia. 

Desprezo os que usam as porradas anteriores para justificar a própria covardia , a incapacidade de dançar nu na chuva ao som de uma canção imaginária.  Levar na cara e chorar e sorrir ao mesmo tempo , engolindo o sangue juntamente com a esperança de qualquer coisa abstrata é para os fortes.  

Não, não entendo as armaduras. Dizer que entendo faz parte do meu teatro barato.  Mas diante das minhas paredes internas revestidas por espelhos, onde me ponho nua e desbocada , rio estridentemente , viro quase um demônio,  sem nenhuma compaixão por estes zumbis que empacam as ruas da alma, cortando o fluxo dos rios da criatividade.  Cortando o fluxo de tudo aquilo que existe de mais genuíno, intenso e medonho.  



















































Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.













quinta-feira, 11 de maio de 2017

Escultura viva

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Sinto-me cansada. Profundamente cansada. Um cansaço de alma. Minha boca cansou de pregar no deserto, de dizer o que a poucos ou a quase ninguém interessa ouvir.

Queria dormir . Um sono longo. Durante milênios. Acordar numa nova Era. Na Era do caos poético , onde pudesse comprar um sanduíche fazendo uma rima e cada frase simples soaria como uma declaração de amor  sussurrada ao pé do ouvido em uma noite fria , a fumaça do cigarro dançando diante dos meus olhos , me envolvendo em seus braços , me levando para terras distantes.

Queria viajar para fora da mesmice, do lugar comum, do pensamento positivo, do nota sete está bom. Queria viajar para fora do banal e sentir gosto de festa a cada olhar.

Queria ser surrada por palavras inesperadas, por sonhos que extrapolassem o desejo de comprar uma casa. Queria brincar de faz de conta , ser mil personagens e fazer uma caricatura de mim mesma ou daquilo que imagino que eu seja.

Queria viver de amor e poesia e prosa no portão, num fim de tarde mágico, onde as cores do céu formassem um quadro abstrato e me sugassem e te levassem comigo para um plano de ousadia.

Queria criar asas na alma , sair voando de olhos fechados , deixando para trás tudo aquilo que não me pertence e que insiste em me agarrar nesta terra pobre, sem imaginação, de olhos parvos e opacos. 

Queria me fazer arte , uma nota solitária de uma melodia , o verso final de uma poesia , a pincelada transgressora numa tela nua, um movimento de câmera estranho que me partisse em duas...

Estou cansada...profundamente cansada. 






































Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.












terça-feira, 9 de maio de 2017

Sobre mortes naturais e suicídios simbólicos

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Ando pensando se me descobri ou se me reinventei. Caso tenha me descoberto, sofri uma morte natural. Caso tenha me reinventado, cometi um suicídio simbólico. 

Penso também se me importa saber o que realmente aconteceu. Se deixei para trás sonhos com data de validade vencida ou se simplesmente me toquei que tais sonhos não eram meus. De uma forma ou de outra , o passado é passado  e o que eu não vivi está definitivamente perdido, para o meu bem ou para o meu mal. 

Talvez o que realmente importe seja este gosto de vinho branco dançando na minha alma e este frenesi de beijo romântico tatuado na pele da minha mais intensa intimidade. 

Fecho os olhos e gemo baixinho, com um sorriso meio sarcástico, imaginando que nada realmente importa. Ir para a direita ou para a esquerda. Subir o morro ou me estirar na praia. Pouco importa me atirar de penhascos interiores ou me deixar boiar em águas tranquilas. 

Sinto que deságua em mim com a simplicidade daquilo que não precisava acontecer. O acaso é o maior destino. Você não necessitava nem devia acontecer , mas mesmo assim aconteceu e eu me deixo levar por esta casualidade com gosto de sushi compartilhado num final de domingo banal. 

Quase sempre pegamos a direção errada na estação do metrô. O amor é o mais lúdico e trágico dos acidentes. 

Gosto do seu jeito blasé. Fone de ouvidos. Mochila jogada nos ombros. Barba por fazer. Misto de preguiça com vontade de crescer. Gosto do meu jeito blasé. Sempre atenta. Bolsa nas mãos. Um sorriso de canto de boca. Misto de desilusão com vontade de ser o que não sou ou ser aquilo que finjo não ser. 

Sou mais pura do que os jovens pensam que sou e mais obscena do que os mais velhos avaliam. Sou tudo o que está entre a imaginação de todos. Sou nada. Vácuo. Poesia recitada por uma voz embriagada numa cidade dizimada. 

Sou o que não pode ser dito. O que dorme calmamente no vazio. Sou o olhar cansado e perdido quando as palavras me fogem, quando saco a última frase de efeito. 

Sou aquela que quer e não quer partir no último beijo dado no metrô. Sou aquela que se mantém nos braços das suas lembranças e sou também a outra que sai apressada pela plataforma. Amar extenua...

Sinto saudade mesmo quando estou em seus braços.  Talvez , sinta saudade do minuto passado, daquilo que nunca mais poderemos sentir nem viver. Talvez, sinta saudade daquilo que só imaginei ou daquilo que poderia ter sido saboreado com molho de pimenta. Sinto saudade daquilo que estou vivendo pois sei que qualquer parte do sentido , pois sinto que qualquer parte sua me escapa pelas brechas dos meus abismos. Tento te reter em uma palavra de amor...inútil! O amor não cabe em nenhuma palavra. O amor é perplexidade e certeza lançadas no caos. 

Me embriago com minha bagunça interior. Deito sobre lençóis amarfanhados e sorvo uma gota de café já frio antes de adormecer feliz. 





































Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.











terça-feira, 2 de maio de 2017

Uma diva francesa

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS



Em alguns dias , me sinto meio Coco Chanel, meio Gabrielle Collete. Enfim, qualquer mito da cultura francesa que veio ao mundo para ser mais do que uma silhueta e um biquinho sexy.

Em alguns dias, me sinto totalmente confortável com a versão que arrumei de mim mesma. Tão confortável quantos pés cansados que calçaram pantufas ou um corpo um pouco acima do peso que se esconde numa camisola larga. 

Em alguns dias , tomo o meu café compulsivamente sem pensar nos malefícios do excesso de cafeína ( quase sempre faço isso!) e me sinto perfeitamente bem eu ser eu mesma ou o que eu imagino ser ou ainda o que eu finjo ser. Ás vezes, a gente mente tão bem que até mesmo nós acreditamos em nossa anedota e a levamos a sério e acreditamos não precisar mais de terapia pois já nos encontramos , pois já dominamos a arte de ser quem somos ou quem deveríamos ser.

Em alguns dias, bebo meu vinho branco tranquilamente , com pensamentos brandos , de uma filosofia leve e flutuante que mais me traz certezas do que perguntas. 

Em alguns dias, posso ler um livro como O amante de Marguerite Duras em poucas horas, com o descuido de quem tem todo o tempo do mundo para fazer o que bem entender.

Gosto de sair no meio da tarde , dia de semana ou passar a noite fora de casa, bater papo até a madrugada , pensando em todos que já estão dormindo pois precisam levantar às seis da manhã. 

Gosto de me sentir uma artista do cotidiano , pintando com cores estridentes a minha vidinha cinza. Gosto de espalhar as tintas com as mãos espalmadas , um riso frouxo e um olhar zombeteiro, típico daqueles que transformam a própria existência numa poesia concreta. 

Gosto de apostar em mim mesma e viver meus ideais , todos bem gelados numa taça de champanhe que bebo cheia de passionalidade.

Creio no que sinto. No pulsar da jugular. Adoro cismar que algo é bobo e depois comprovar que realmente o é. Não há nada mais sublime do que desenhar as próprias verdades e caminhar por uma trilha nunca antes pisada por pés banais. Detesto a banalidade. Banalidade como falta de criatividade , como produto de uma mente mecânica. Gosto da banalidade como pleonasmo do amor. Como a repetição infantil dos pequenos grandes gestos de amor.

Caminho o meu caminho. Um caminho que é só meu e entre livros de sebo, copos vazios , filmes dançando em minha memória, me abandono a mim mesma : ao que sei , ao que gostaria de saber , ao que deveria saber , ao que nunca saberei um dia. Me abandono à minha arte , à minha poesia , ao meu conhecimento, à minha ignorância , à minha sabedoria que é saber que sou ignorante , louca e arrogante. 

Sinto seu cheiro de cigarro em minha mente e desejo um beijo. Um beijo sobre lençóis amarfanhados , a pia da cozinha por arrumar. 

Sento-me diante da tela em branco do computador. Sinto saudade do calo que tinha no dedo de tanto escrever quando era apenas uma menina de cem anos de idade. Olho para trás e aspiro apenas os pensamentos gentis. Estranhamente , me sinto em medidas iguais , perdida e feliz. 





































Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.