segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Sobre abajures e arandelas: a vida à meia luz

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Virou moda no Brasil esta coisa de embutir lâmpadas super fortes no teto. Às vezes sinto que elas farão uma espécie de raio-X das minhas entranhas.

Gosto de iluminações aconchegantes, à base de abajures e arandelas. Tudo à meia luz, tudo iluminado por uma luz gentil e favorável, que não fira os sentimentos, que não rasgue a pele da alma de forma equivocada.

Gosto de olhar os rostos emoldurados pela sutileza das luzes brandas, para que as luzes da alma possam brilhar por meio de um sorriso sincero ou um olhar mais denso.

Gosto da patética e comovente lanterna de papel de Blanche Dubois: a desafortunada heroína de Um bonde chamado desejo.

Gosto das luzes suaves que abraçam a alma e me chamam para dançar. Gosto de ver seu rosto emergir da penumbra rumo a mim: dois estranhos tentando sobreviver a este mundo nu e cru, cheio de luzes estridentes de banco a gritar verdades que não queremos ouvir.

Tapo meus ouvidos e cerro meus olhos até ser conduzida por sua mão para um lugar seguro. Um lugar onde reine a poesia e possa ouvir a  melodia da alma. Um lugar onde as luzes me embalem num sono profundo e lento.

Um lugar onde possa ver o seu rosto sem disfarces, sem máscaras ou meias palavras. Um lugar em que não precise me defender de você com uma ironia barata.

Um lugar onde possamos fechar as janelas deste mundo real horrendo e ser apenas João e Maria da música de Chico Buarque.



 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

sábado, 26 de dezembro de 2015

Sobre amores e convenções

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Esta época do ano é muita propícia para se pensar em convenções. O Natal, festa tipicamente cristã, é a que gera mais lucros para o comércio. Em segundo lugar vem o dia das mães.

No lugar da missa, das orações e da comemoração modesta ( cristãos, principalmente católicos valorizam a modestidade, o prazer servido em fatias finíssimas, saboreado com parcimônia e prudência) alojaram-se a orgia alimentar, o excessivo gasto com presentes, luzes piscando para todos os lados como uma espécie de ícone estridente de uma vida exuberante e frenética.

Admiro os cristãos convictos que celebram a data com modestidade da mesma forma que admiro os não cristãos que não o comemoram por não dizer respeito às suas vidas. 

O cristão convicto que passa duas horas em pé em uma igreja assistindo à missa, sem saber, tem uma forte conexão com aquele não cristão que passa o Natal comendo sushi e vendo Netflix.  Ambos vivem suas crenças de forma honesta.  Ambos são o que são. Não se rendem às tradições. Não fazem ou deixam de fazer porque todos fazem. Suas ações não são vazias. São transbordantes de significado.

Viver à parte das convenções e dos clichês é para poucos.  A sociedade nos empurra constantemente para a modorra do não ser.  Quase tudo que fazemos é desprovido de autenticidade e energia. Fazemos porque é preciso ser feito. Deixamos de fazer porque nos disseram que não pode ser feito.

São raros os momentos em que nos conectamos com a gente mesmo.  Por isso mesmo tais momentos são tão preciosos.

Não existe nada mais profundo do que fazer o que se quer e mergulhar sem pudores no nosso mais autêntico eu. Às vezes, precisamos da ajuda do outro para encontrarmos a nós mesmos. Às vezes, precisamos do outro para confessar o inconfessável,  para enxergar e entender o óbvio, aceitar o inevitável, nos render a nós mesmos e a tudo aquilo de mais subjacente e intolerável.

O amor é o avesso de todas as convenções pois ele tem regras próprias e não se submete a nada que seja externo.  O amor é incoerente, espontâneo, histérico e esquizofrênico. Porque ele quer e não quer ao mesmo tempo. Porque ele acaricia e se declara batendo. Porque ele se manifesta cheio de fúria e desespero.  Sim, este amor menor e vital, que nos arrasta para tudo aquilo que tememos, talvez, provavelmente seja o nosso maior e mais especial insight.  Talvez tenhamos vindo ao mundo só para vive-lo. Talvez seja a única coisa que justifique esta merda toda sem sentido.


 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.


quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Sobre escolhas e consequências: um ménage à trois com Sartre e Nietzsche

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 

Finalmente de férias. Ontem apliquei a última prova e não precisarei ver atas por um bom tempo.
O clima ontem estava feio, bom para ficar em casa. Uma chuva tremenda. Até parecia uma metáfora do meu cansaço ou do estado de espírito dos alunos que chegaram com os olhos meio estatelados para fazer o exame.
 

No final, tudo se abrandou: tempestade, trovões e o ânimo dos estudantes. Passado o gabarito após a prova, os gritinhos de felicidade e alívio substituíram a trovoada. Abraços, beijos no rosto, olhares emocionados.
 

Sempre sou acometida por uma profunda nostalgia quando se encerra um semestre. Embora saiba que novos rostos virão no próximo ciclo, dizer adeus é sempre complexo.

 
Acho que não sabemos dizer adeus. Dizer adeus é renunciar a algo. Como diria Sartre, ao escolher algo, estamos necessariamente deixando outra coisa para trás. E como crianças mimadas que somos, queremos tudo ao mesmo tempo, aqui agora.

 
Queremos comer coisas deliciosas sem engordar, viver com autenticidade sem arcar com as consequências, desafiar o poder e sair ileso, se apaixonar profundamente e continuar livre, amar com intensidade sem se machucar.
 
Porém, não há nada mais delicioso e libertador quando finalmente conseguimos fazer a nossa escolha e aceitar com o coração leve que o que ficou para trás tem bem menos peso do que aquilo que está em nossas mãos.
 
Citando Sartre , mais uma vez, "viver é se equilibrar entre escolhas e consequências". Escolher é para os fortes. Os covardes se deixam levar.  Embora Sartre considerasse o não escolher uma modalidade de escolha. Sim, concordo. Uma modalidade menor, indigna de um texto. Indigna de um poema.

 
E encerrando o meu post de forma bem nietzschiana, aproveito para citar um artigo publicado na Folha de São Paulo, escrito pela neurocientista Suzana Herculano-Houzel  , sobre o sentido da vida.

 
Como a mãe dela a ensinou ainda na infância, o sentido da vida está nela mesma. Independente de qualquer crença, a beleza está nas experiências que vivemos, nos amores que amamos, na cumplicidade que trocamos.  E é isso que desejo a quem ler este post neste fim de ano: viva.

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Nunca diga eu te amo

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS


Falam que é o amor que torna as pessoas grandes artistas, grandes poetas. Pelo menos foi o que Mozart disse: "Para se fazer uma obra de arte , não basta ter força, não basta ter talento. É preciso antes de tudo se viver um grande amor".

Admito que escrevi coisas muito boas movida pelo amor. Meu mais novo livro O corpo nu é um livro sobre o amor. Sobre as lembranças de um amor que aconteceu em outra Era...e que de certa forma tingiu por muitos anos a minha vida com cores trágicas. 

Mas preciso reconhecer também a força do desamor guiando a mão de uma escritora. Se o amor confere doçura às palavras de uma mulher , a negação deste sentimento pode ser algo vital também para uma obra expressiva.

Foi por meio do desamor daqueles que amei ou imaginei amar que descobri a mim mesma. Se tivesse sido minimamente amada por um dos que imaginei amar, talvez fosse ainda aquela mulher submissa , sempre pronta a servir e a agradar, com lágrimas de emoção nos olhos pelo simples fato de ter sido afagada como um cachorro dócil. 

Hoje prefiro um homem para filosofar comigo, andando despreocupadamente pela rua. Prefiro um homem cinéfilo, que adore um bom filme inteligente e que nunca me obrigue a acompanhá-lo a um cinema de shopping. 

Hoje prefiro tomar uma taça de vinho, regando uma conversa instigante. Prefiro compartilhar um pouco do meu sarcasmo na cama. Prefiro sair pelo mundo com alguém que coloque uma mochila nas costas e entre no meu espírito de aventura. 

Quero alguém que me estimule e que ria comigo e que não doure a pílula e que não ceda a estes porcos jogos sociais de prosperidade e perfeição. Quero alguém imperfeito e que cague para isso. Quero alguém para compartilhar as miseráveis delícias da vida.

Não quero uma casa com cerquinha branca, cão bonito correndo pelo quintal, eu limpando as mãos num avental cheio de corações. Não quero tirar uma torta de banana do forno enquanto o homem que se comprometeu a me amar pensa em outras. Não quero que a minha xoxota vire uma espécie de pinico para um homem realizar suas necessidades fisiológicas em mim por falta de companhia melhor. 

Não quero a felicidade fake do Facebook. Fotos na praia, abraços encenados, declarações de amor piegas e padrão para disfarçar tudo o que não queima nem vibra na intimidade. Não quero ser a mulher que o homem olha cheio de piedosa ternura , dizendo: "Você é muito boa".

Sim, me levem para sair. Me levem para conversar, me levem para rir, para beber, para dançar , para viajar...mas não me peçam meu coração ofertado num espeto de churrasco. 

Não me arrastem para o abismo que é ser aquela mulher mal amada, mal amada por mim mesma.

E não importa o quanto eu ame quem estiver comigo, prefiro me jogar no vão do metrô antes de confessar...antes de me submeter, antes de assinar qualquer contrato. 





Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

É muita bosta para uma vida só!

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS


Cada vez gosto mais de escrever "testículos" no Garota desbocada. Aqui, posso despir-me de qualquer protocolo e academicismo e ser eu mesma. Aqui, não preciso ser a professora doutora, que escreve na primeira pessoa do plural para dar um ar mais light quando quer fazer uma crítica. Aqui, posso vomitar baba ácida. É o meu blog. É o meu espaço. Aqui posso chorar as minhas lágrimas e dar as minhas risadas. Aqui posso blasfemar e me mostrar como sou , em todo meu horror e delicadeza. Aqui, estou em primeira pessoa.

Estar em primeira pessoa é o que mais falta em nossa sociedade. Entre sorrisos protocolares e relações mecanizadas, vamos perdendo o melhor de nós pelas ruas da cidade. Sexta-feira, depois de aplicar uma prova, andando calmamente pela rua, sem pressa, imersa num papo bom, pensei na escassez de momentos autênticos.

Eu até que não posso reclamar...pois tais momentos têm sido abundantes para mim. Menos do que eu gostaria. Mais do que o são para a maioria.

O filme O anjo exterminador de Buñuel mostrava de forma surreal e extremamente simbólica um grupo de amigos da classe alta com suas máscaras sociais. Para Buñuel, o amor-fou era impossível naquele meio social ( a burguesia mexicana) pois todos eram hipócritas demais para vivê-lo.

Quantas vezes não somos acometidos pelo anjo exterminador e sentimos grilhões prendendo os pés e as mãos? Prendendo o pior de tudo: o coração?

Fico imaginando o que teria eu para dizer e ensinar a um filho, caso desejasse que ele se enquadrasse nos padrões da sociedade.

Seja um pequeno hipócrita que dança conforme a música social? Escolha uma carreira rentável, puxe o saco de quem tem poder, transforme o dinheiro em seu deus, faça um casamento conveniente e faça amor com sua esposa sem tesão, pensando em subcelebridades, nas coleguinhas de trabalho sexy ou até mesmo em um amor do passado?

No caso de uma filha, as dicas seriam  bem mais detalhadas e complexas porque para nós mulheres tudo é sempre mil vezes mais complicado. 

Entre em um curso frequentado por muitos rapazes ( passei a vida estudando com mulheres e gays, o que complicou bem conhecer pessoas para namorar) e jogue um charminho sutil para cima daquele que lhe pareça mais vocacionado para a prosperidade, mesmo que ele não emocione a sua xoxota. Sexo não é tão importante assim para as mulheres...sexo é para homens. Chupe-o, faça-o feliz e pronto. Faça ele te amar mais do que você a ele.

Se case. Antes de ter filhos arrume um emprego light só para não dizerem que o seu diploma não serviu para nada e que você não é uma pessoa antenada. Se o seu marido pagar as contas da casa direitinho, não se importe com a ausência de orgasmos. E se ele se derreter todo diante das suas amigas, relaxe. Faça de conta que ele está sendo apenas simpático. Mulher inteligente se faz de burrinha. E depois? Ele não está pagando as contas? Ele não te leva para passar as férias na Europa? Então, take easy!  Take easy e bote lindas fotos no Facebook revelando toda a sintonia que vocês não tem.  Tirem fotos abraçadinhos, fazendo biquinhos como os de quem vai se beijar e debaixo de cada foto coloque frases do gênero: " O amor é tudo. As coisas simples do amor. Eu e meu S2" etc As "amigas" que corresponderam à simpatia do seu marido vão ficar morrendo de inveja. Captaram a lógica da mulher inteligente que abre mão de um bom livro, mas jamais do botox?

Falando em inteligência, precisaria falar amplamente sobre este tópico com uma possível filha.  Se ela esboçasse , mesmo que em sonho ou durante um delírio provocado por uma febre, interesse em fazer um mestrado, explicaria a completa inutilidade de um curso assim em terras brasileiras, de gente "bonita" que acha a vida "Tudo de bom".  "Quer ficar solteira? Quer ficar solteira? " falaria de forma enfática como toda mãe zelosa deve falar.

Mulheres não precisam ser boas de cama nem cultas nem inteligentes. Não precisam ter opinião própria nem construir uma boa carreira. Mulheres sarcásticas então deveriam ser condenadas à pena de morte. Sarcasmo é como sexo : coisa para homens. Uma mulher precisa ser carinhosa e cuidar de seu homem. 

Tradução da palavra carinhosa no dicionário masculino : mulher imbecil e sem expressividade que faz todas as minhas vontades sem reclamar porque tem tanta carência emocional, tem  tanto medo de ficar sozinha que aceita tudo de mau que eu faço contra ela apenas para dizer que está acompanhada.

Ou ainda posso ensinar tudo aquilo que de fato considero certo e transformar meu filho ou filha em mais um E.T como eu... escolha complexa...

Entre criar um imbecil e um niilista , opto por escrever mais alguns textos, fumando meu cigarro imaginário, bebendo meu vinho e rindo desta cacaiada toda. 


Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Poesia na veia

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Agora que as férias estão chegando( mais dois dias de trabalho e depois mais de um mês de descanso) resolvi botar a filmografia favorita em dia.

Sempre estou à caça de títulos novos. Mas para entrar neste clima preguiçoso de fim de ano e do corpo e mente bastante cansados, prefiro sacudir as lembranças e emoções com obras que são prazer garantido.

Quero rever pela milésima vez ...E o vento levou, Fim de caso , episódios da série Os normais e Two and a half man ( esta já comecei a rever) e a novela Roque Santeiro.

Neste último final de semana , já revi três pérolas: Amantes, A flor do meu segredo e Não se mova.

Lerei Senhor das moscas, presente ultra gentil de um aluno querido e possivelmente relerei algo que gosto bastante. Adoro reler livros queridos. A segunda leitura me cheira a reencontro, menos emocionante do que a primeira vez, mas mais maduro e melancólico.

Gosto de aproveitar as férias para mergulhar em mim mesma, nos meus gostos, nos meus gozos. Nas delícias das artes. No conforto inteligente que encontro nos braços de um bom filme ou de um bom livro. No conforto que encontro diante de um conhecimento novo. Talvez volte a fazer aulas de italiano online...com o vigor melancólico de uma típica Fênix.

Os mais práticos podem estar se perguntando: Italiano para quê? Por prazer , mio carino, mia carina. Por prazer. Há coisa melhor do que estudar um tema que a gente quer estudar ou ler um livro que nos interessa ou conversar com alguém que realmente preencha a nossa alma?

Existe coisa melhor que bebericar um vinho enquanto se assiste a um filme que a gente adora ou a um documentário sobre um assunto que nos instigue? Existe coisa melhor do que estar junto de quem entende as nossas ideias, completa as nossas frases, lê os nossos pensamentos só de olhar para os nossos olhos? 

Enfim, existe coisa melhor do que se fazer o que se tem vontade? É vida em plenitude, jorrando para todos os lados.

Sim, estudarei italiano por prazer. Acho uma língua linda, poesia na veia e estou pouco me fodendo se este idioma não é importante para o mercado de trabalho. Tampouco deixarei de assistir as minhas palestras de filosofia regadas a um bom vinho pois  não está na moda refletir.

Mesmo que necessite falar sobre elas com as paredes do quarto. Um pouco bêbada, um pouco insana, um pouco lúcida, um pouco tudo que sou e me interessa ser. O saber e a arte em contato com a minha alma me tornam uma hipérbole de mim mesma.  E esta é a maior  dignidade.

Sim, escreverei como louca, delineando cada vez mais , com cores bem berrantes, os contornos da minha alma. Farei uma caricatura de mim mesma banhada com luzes de neon roxo. 

Posso andar meio trôpega, com a alma intrépida, o coração trepidante, olhos insanos, sozinha num mundo tirânico. Não me importa.  Apesar de tudo, pertenço a mim mesma : à minha alma de poeta , ao meu corpo febril que só se entrega à paixão,  ao meu ser inegociável que vomita para migalhas e simulacros.

Sim, falarei italiano comigo mesma, com uma bela música de fundo e meu cigarro imaginário, enquanto penso em Deleuze ou Sartre. Imaginarei que qualquer um deles me tira para dançar enquanto me sussurra qualquer pensamento poético. E se um dia eu tiver uma overdose , que seja de poesia na veia.




Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

Repulsa ao palavrão: sintoma de uma sociedade hipócrita

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Hoje , me deparei com uma interessante pesquisa realizada em uma universidade dos Estados Unidos: a pesquisa afirma que pessoas que falam palavrões frequentemente têm um vocabulário mais amplo e compreendem melhor o significado das palavras. Puta que pariu. Amei a porra desta pesquisa do caralho RSRS

Piadas à parte, antes de entrar em contato com esta pesquisa, já tinha lido a respeito do poder do palavrão por meio de Millôr Fernandes e já havia experimentado na prática a delícia de encher a boca para falar um bom palavrão.

Sou contra palavrões em contextos de briga. Eles se tornam muito agressivos. Não gosto. Por outro lado, um palavrão em contextos variados pode realmente ser muito expressivo. Creio que já escrevi sobre isso no Garota desbocada.

Respeito quem não gosta de falar palavrões. Mas confesso que me enche o saco quando as pessoas fazem aquelas caras melindradas diante de um caralho. Caralho palavra...vale ressaltar para não criar ambiguidades eróticas. Tem gente que torce o nariz até para merda como se carregasse pétalas de rosas amarelas no intestino.

A represália em relação ao palavrão é só mais um sintoma da hipocrisia social. Do falso puritanismo. Da pseudo boa educação.

Muita gente atrasa mais de meia hora para um compromisso, mas acha um horror falar bosta.

Muita gente não honra suas dívidas, deixa de ir a compromissos sem cancelar, debocha dos outros, mas acha mal educado dizer cu rosa.

Muita gente manipula as pessoas, faz sexo por interesse, para subir na vida ou para passar o tempo, sem se importar com os sentimentos alheios, mas acha horrendo alguém que faz piadas quentes.

Palavrões em determinados contextos são lúdicos e denotam uma mente descontraída, criativa e sem milhares de preconceitos. 

Sim, o horror ao palavrão indica bem os nossos pontos cegos, as nossas zonas nebulosas, o nosso medo de encarar o que existe de mais espontâneo e brutal em nós mesmos.


Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

Escolher a intelectualidade é escolher a solidão

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Hoje, conversei com uma querida ex-aluna, uma daquelas que faz o ofício de professora valer a pena. Contou-me meio triste que havia reprovado na disciplina que ela mais gostava, que ela mais entendia. Porém, naquele afã de investigar causas e efeitos , porquês subjacentes, esqueceu-se de decorar datas e nomes.

Sim, é este tipo de "saber" que está sendo priorizado por nossa educação. Estamos preparando executores de sistemas, reprodutores de informações estanques.

Estamos preparando para o mercado de trabalho, para exercer com maestria o papel de fazer enriquecer uns poucos.

Estamos preparando profissionais mais ou menos, pessoas medianas para não dizer medíocres. Pessoas incapazes de protagonizar sua própria vida.

A intelectualidade, tão rejeitada e desprezada em nossa sociedade, apresenta a mais vital função de todas: formar pessoas pensantes, que interagem e escrevem a sua história. Que atuam na linha de frente da vida, conscientes das suas mazelas e irreverentes diante da mera reprodução alienada de ideias e sistemas. Concordo com Descartes: "Penso, logo existo". Uma mente não pensante transforma a vida humana em uma subvida, em uma vida menor, menos expressiva, desprovida de sentido pois a pessoa simplesmente vive à mercê dos ciclos biológicos, num determinismo típico dos animais irracionais.

Porém, respire fundo antes de entrar pelo caminho da intelectualidade. Como falei à minha ex-aluna, escolher a intelectualidade é escolher a solidão. Você poderá gostar de muitas pessoas, mas vai se sentir realmente á vontade perto de pouquíssimas.

Você pode até nutrir um carinho forte pelos amigos de infância, mas dificilmente fará parte da vida deles. Você pode até conversar com muitas pessoas, mas vai se comunicar realmente com quase ninguém.

O mundo vai ficar colorido, mas ao mesmo tempo, você não terá companhia para apreciar e usufruir das belezas que você está descobrindo. Seus livros e filmes se tornarão suas melhores companhias. Você falará sozinho e quando tiver a chance de conversar com uma pessoa que faça sua mente saltitar e seus olhos brilharem, se sentirá como alguém que toma um copo de água fresca depois de ter atravessado um deserto.


Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

Expectativas para 2016

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Estou apaixonada pela página Coruja depressão. No meu tempo politicamente correto não a curtia, da mesma forma que adorava Pondé com ressalvas sérias, não curtia Contardo Calligaris e achava Tati Bernardi muito estranha e caótica.

Expandi meu horizonte de autores e gostos e hoje consigo apreciar o que para mim era niilismo na veia. Eu considerava estes autores pessimistas, amargos demais. Era uma daquelas que acreditava num mundo melhor...sorrio para mim mesma.

Hoje vejo que eles são apenas realistas, não douram a pílula, não tapam o sol com a peneira, não usam eufemismos nem meias palavras. Falam o que pensam. Mostram a vida sem filtros ou falsos ângulos favoráveis. Não há foto shop moral em seus textos.  E não importa o quão jovem , atraente e ´"próspero" você seja. A vida é merda.

Sim, a vida é merda, perda. É um projeto trabalhado nos mínimos detalhes para dar errado, é um barco com o casco furado.  Mesmo quando ganhamos algo muito especial, ainda assim, de alguma forma perdemos algo.  Nem que seja o nosso gosto mórbido pela tristeza. Ser triste é que nem cachaça. Vicia. Não é à toa que vemos tanta gente se estapeando e fazendo homéricos sacrifícios para beijar a infelicidade.

A felicidade é como uma moça bonitinha, rasa, que sorri com aquela cara mais ou menos. A tristeza te olha na alma e você não resiste a ela. Ao seu perfume adocicado, seu batom vermelho, seu olhar desolado.

Pela primeira vez não faço listinha mental de metas para realizar em 2016 nem enviarei mensagens motivadoras aos meus amigos.

Não acenderei vela, não usarei calcinha nova, não farei o balanço do ano nem direi para mim mesma que 2016 será melhor. Apenas viverei cada dia como tenho vivido nos últimos meses: usufruindo do meu quinhão de alegrias e chorando as minhas lágrimas internas quando a dor aperta. Me agarrando à verdade de que tudo é provisório e de que lá no fundo nada muda. 
 
 
 
 
 
 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

domingo, 20 de dezembro de 2015

É por meio de personagens desafortunadas que atrizes fazem grandes performances

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Dois filmes italianos que amo muito , mexem muito comigo no que diz respeito ás atrizes. Um deles é a coprodução ítalo-francesa Paixão de amor, dirigida por Ettore Scola. Na verdade, o nome do filme deveria ser amor apaixonado.

O outro se chama Não se mova e é uma coprodução ítalo-espanhola, dirigida e protagonizada por Sérgio Castellitto, marido da autora do livro que deu origem ao filme, Margaret Mazzantini.

No primeiro filme quem dá um show de interpretação é Valeria D'Obici . No segundo, a bola vez é a ultra sexy Penélope Cruz.

Duas desgraçadas. A primeira é uma mulher extremamente feia e doente. Creio que fosse histérica. Não sei...começa a gritar e a se debater do nada. O coração era fraco. O rosto horrendo. A mente refinada e culta e extremamente consciente do seu infortúnio.

A segunda era um daqueles tipos meio vulgares que mal reage a um estupro pois acredita que nasceu para isso mesmo, para ser a cloaca do mundo.

Duas mulheres que conhecem com maestria seus lugares no mundo. Ou melhor dizendo, a falta de lugar.

Valeria D'Obici recebeu um prêmio como melhor atriz italiana e Penélope Cruz me deixou de queixo caído.

Mulheres sofredoras demais são pratos cheios para as atrizes sensíveis e talentosas.  A desgraça, o infortúnio das personagens são o grande lance de sorte das boas atrizes.

Uma das n frustrações da minha vida foi não ter interpretado a Martírio da peça A casa de Bernarda Alba, de García Lorca. Como diretora da montagem, precisei me sacrificar e abrir mão deste papel que tanto desejava em prol do trabalho como um todo.

Assumi Bernarda e depois de quebra, para compensar, Josefina, a insana e jovial mãe da déspota matriarca. Mas até hoje sinto vontade de pronunciar as frases de Martírio. Duas principalmente me acariciam o céu da boca até hoje.


                    Não estou lindinha como Bernarda Alba?????

Como Josefa, mãe de Bernarda.

Minha adaptação foi bem semiótica. Os personagens não foram caracterizados de acordo com o padrão da época. Eles eram caracterizados com a aparência de seus interiores. A mãe de Bernarda parece bem mais jovem do que ela. Angústia foi interpretada por um homem, Martírio usa uma roupa transparente porque é uma falsa moralista e Adela veste um traje de dançarina flamenca pois ela é sex appeal na veia.

Adoro quando Martírio diz à irmã caçula que ela ( Martírio) tem uma força muito má dentro dela, capaz de destruir tudo. Tão espanhol... Outro momento especial e caro para mim é quando ela afirma sempre ter sentido medo dos homens, mas que por sorte, Deus a fez feia , apartando-os definitivamente dela. 

Como diretora , pedi à atriz para falar tais palavras com uma firmeza triste enquanto as desmentia com  a postura. Que mulher hetero quer viver apartada dos homens? Estas criaturas vis e imundas que nos fazem chafurdar no mais abominável gozo?


Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

Sim, sou uma intelectual. Que vomitem na minha cara.


Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Lendo um post de uma colega professora, também formada em cinema como eu, senti uma grande nostalgia. O post se refere ao fechamento das diversas lojas da vídeo locadora 2001. Esta rede que é referência de filmes cult e de arte. Que tristeza...que melancolia...que vontade de tomar uma garrafa de vinho no gargalo.

Por muitos anos, ir à vídeo locadora, para mim, era onírico. Passar os olhos pelas prateleiras em busca de títulos instigantes era idílico, era meu lugar confortável no mundo.

Amo ir à locadoras desde meus 13 anos de idade. Tudo bem. Netflix é bem mais prático. Concordo. Mas existia uma magia profunda e deliciosa em passear pela locadora, desatenta ao mundo físico, vagando por um mundo de ideias, meu habitat natural. Sim, sou uma intelectual. Sei que para a maioria das pessoas esta frase soará nojenta pois para a maioria o importante é combinar bolsa com sapato, fazer drenagem linfática no traseiro e encher o rabo de dinheiro. Com uma bunda lisa e uma cara de nada e uma mente vazia  tudo se resolve. Vomito para este mundo nude.

Meu mundo é o das ideias. Tenho sempre a sensação de ter aberto a porta errada. Acho as pessoas, de um modo geral, profundamente enfadonhas com seu excesso de senso prático.  Odeio o mundo da burocracia, dos formulários, dos prazos, do preencha aqui com letra de forma e sem rasuras.

Odeio quando as coisas caem no sistema e principalmente quando levamos para a intimidade estes mesmos esquemas fechados.

Um dos motivos que meu ex noivo alegou quando terminou a relação foi a minha intelectualidade. Falou que duas pessoas intelectuais juntas complicava demais a vida. Não concordo. A coisa era complicada entre a gente porque eu era a única intelectual de fato. Ele decorava dados apenas. Eu o irritava com meu inglês raso e minhas ideias que perfuravam tudo. Um dia ele me defendeu à inutilidade da Filosofia. Oh my God! Como pude ficar com alguém que disse tamanho fiasco e ainda se achava intelectual?

Na minha próxima relação, não abro mão de alguém que ame Filosofia e faça um estupendo sexo oral. É o mínimo. É o básico. Menos do que isso é falta de amor próprio. É indignidade. Ah! E que não queira andar de mão dada comigo no shopping. Me faz lembrar do meu primeiro namoro horrendo.

Sim, sou um poço de traumas e más recordações. A vida dançou sim com a bunda na minha cara muitas vezes.

Mas voltando às locadoras...sim, elas eram para mim o ícone de uma vida inteligente , estimulante , que me pegava pela mão e me levava para galáxias distantes, em que tudo era feito de inteligência e amor...erotismo delicado e tenro, olho no olho, descoberta....


 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

O que desaprendi com a terapia


Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Há cerca de 8 meses, cheguei a um consultório psiquiátrico, dopada de Frontal, lágrimas embaçando a vista e ideias engessadas embaçando a alma. Embaçando a mulher que sou.

Nunca entrei em um consultório tão a mercê e suplicante dos cuidados de um médico.

Só pensava em morrer pois viver havia se tornado intolerável. Posso dizer hoje sem nenhum tipo de receio que nunca fui feliz. De verdade, pra valer , nunca. Ao olhar para trás, tudo me parece meio cinzento e esgarçado.

Depois de mais ou menos 8 meses de terapia, a felicidade já não me parece assunto tão importante.  Com um sorriso de canto de boca, assimétrico e pouco confiável, passei a entender que a felicidade como eu concebia é tão realista quanto papai Noel e coelhinho da Páscoa. Ou os ridículos filmes hollywoodianos que falam de felicidade como se esta coubesse numa caixinha cor-de-rosa, que vem de brinde em uma Mc oferta qualquer.

Não, não creio mais em felicidade. Não creio mais em futuro. Não creio em par perfeito, alma gêmea. Não acredito mais nas instituições. Não acredito mais em monogamia afetiva. Sim, posso ser fiel a vida toda por uma questão ética. Não por vontade. Não por desejo. A monogamia por tempo indeterminado não é orgânica.

Era uma grande defensora do casamento e apesar de respeitar muito quem opta por ele ( valorizo muito a alteridade). Para quem não sabe, alteridade é saber se colocar no lugar do outro. É respeitar o jeito de ser e viver das pessoas independente do nosso gosto pessoal.

É respeitar as variadas crenças, orientações sexuais e estilos de vida. É olhar para as pessoas e ver seres humanos e não rótulos: o crente, o ateu, o gay, o tatuado, o intelectual etc...cada ser humano é um universo único e complexo por mais rasa que a pessoa seja. Como disse a filósofa Márcia Tiburi no Café Filosófico O mito do sexo: não é possível definir um número fechado de orientações sexuais pois cada indivíduo vive e expressa a sua sexualidade de forma única.

Mas voltando ao meu olhar atual sobre o casamento, concordo com o professor e historiador Leandro Karnal. Para mim, hoje, vejo o casamento como a mortalha do sexo. Vou além. Eu o vejo como a mortalha de qualquer gesto espontâneo, belo e vital. Até namoros certinhos demais começaram a me dar coceira.  Fidelidade sexual sim. Mas esta coisa de andar de mão dada em shopping center sábado à tarde é muito brega. Me parece mais uma encenação do amor do que o amor propriamente dito. Me parece mais uma justificativa para a sociedade. Uma maneira imbecil de gritar: "Olhe sociedade! Olhe! Estou namorando e estou feliz! Chupem esta manga! Chupem alguma coisa já que não estou chupando nada!"

Maledicências à parte, acho que quem vive namoro ostentação é o que menos está em namoro, que significa estar em amor.

O amor com a minúsculo, menor e vital,  não acontece nas praças de alimentação super lotadas , nem nos beijos dados em locais públicos. Não está nas melosas palavras de afeto nem nos almoços familiares de domingo quando o namorado não sabe o que dizer para agradar os pais da namorada e a namorada finge ser uma boa moça no sentido chato da palavra para não escandalizar os pais do namorado.

O amor com a minúsculo anda por aí, pelos becos e inferninhos da cidade, meio embriagado e trôpego. Trocando as pernas de vez em quando, tropeçando nos próprios pés, rindo de suas próprias ideias.

O amor com a minúsculo  se encontra na surdina, em hotéis baratos ao som do bolero mais trágico. O amor com a minúsculo divide o cigarro, o vinho ordinário, as mais loucas obsessões. O amor com a minúsculo é underground.

O amor com a minúsculo não comemora dia dos namorados nem troca aliança de compromisso. Ele se desenrola no escárnio da vida, à meia luz dos barzinhos boêmios da cidade. Na troca cúmplice do olhar. No reconhecimento dos vícios em comum, do niilismo que come as carnes, na poesia vagabunda sussurrada como a mais suja blasfêmia.

Ok.Ok.Ok. Esta é a minha verdade do momento. Se quiserem me julgar, que julguem. Desaprendi a agradar gente que não faz nada por mim. Desaprendi a rastejar por migalhas de amor. Desaprendi a ser boazinha full time. Tentar agradar o tempo todo é o caminho mais curto para não ser amada.

Me sinto tão pouco amada atualmente  como me senti a minha vida toda, porém, com uma grande diferença: pelo menos hoje eu gosto de mim. E se gostar não é um pequeno detalhe. Hasta la vista, baby!


 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Não ousem limpar as botas em mim!



Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS



Hoje, tirei o dia para mergulhar na cultura espanhola. Esta cultura que explode em minhas veias e salta em meu rosto. Ok.Ok.Ok. Tenho bem mais sangue italiano do que espanhol e sou bem italianada também. 

Amo macarrão, acho um sacrilégio deixar a pasta cozinhar demais até virar um quase purê, ao cozinhar, coloco molho de tomate e orégano em praticamente tudo, adoro o idioma ( o mais intuitivo em minha opinião), amo os filmes italianos, falo com as mãos, falo alto, falo cantado, adoro um drama e quanto aos homens italianos e descendentes...prefiro não comentar como diria Copélia...

Mas hoje quero falar do lado espanhol. Este lado que custei a reconhecer em mim e talvez por isso mesmo, entre outros motivos, acabou me fascinando tanto.

Desde criança me via como italiana, mas foi apenas por volta dos 20 , um pouco antes, acredito, vendo filmes espanhóis , me reconheci naquelas mulheres explosivas. Naquelas mulheres passionais , extremas, que transformam suas fraquezas em força. 

Aquelas mulheres absurdas, com veias pulsando no pescoço, fogo nos olhos e na alma, alma rasgada, veneno nos lábios, língua afiada, os seios arfando descontrolados.

Hoje revi Amantes de Vicente Aranda e A flor do meu segredo , de Pedro Almodóvar. O primeiro, no início da minha juventude,  me fez cair a ficha da minha hispanidade quando a personagem protagonista se refere à noiva do seu amante como a outra. Para a mulher espanhola,  a rival é sempre a outra, mesmo que seja a titular RS

Este filme foi baseado em fatos reais e eu recomendo àqueles que gostam de hispanidade na veia e romances sem meios termos. Agora, se você está na fase de segurar o pênis com um lencinho para não sujar a mão, não recomendo. No caso dos rapazes, se forem aqueles cheios de "nojinha" recomendo menos ainda.

A flor do meu segredo não está entre meus favoritos do Almodóvar nem entre os que menos gosto. Está no meião. É um filme interessante. Quis vê-lo principalmente porque a protagonista é uma escritora em crise. Não digo que estou em crise, mas estou num momento especial, de profunda auto análise e busca de mim mesma, esta mulher irônica que ficou por aí perdida, sentada num canto qualquer, em uma festa que ela não foi convidada.

Ver filmes espanhóis me reconecta com meu lado mais colérico, mais primitivo, que quer degustar a vida com dentadas, que quer tudo aquilo que neguei em mim mesma para mim mesma. 

Meu lado menos servil, menos hipócrita. Meu lado que não espera, que quer amar com igualdade, que quer dar e receber amor num movimento de mão dupla. Cansei de dar meu coração em troca de alguns feijões mágicos.

Meu lado que não aceita mais ser capacho. Que limpem as botas em outro lugar. Se tentar limpá-las em mim, eu mordo como um cão raivoso.  Se baterem em minha face , não esperem que eu dê o outro lado. Preparem-se para ofensas e cusparadas.

Não temo mais descer ao nível dos meus algozes porque hoje me vejo de forma demasiadamente humana. Sim, sou mulher  feita de barro e coragem. Beije minha mão que eu lhe lanço minha alma despetalada. Morda a minha mão e ganhará meu escárnio e meu escarro.



Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

Sobre amores e ódios

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Sou da mesma opinião do meu querido Buñuel. Ele achava que Sade era um amoroso, porque para Buñuel só podia amar quem fosse capaz de odiar.

Quem não odeia , provavelmente não ama também. Gosta apenas. Fica numa confortável e cor-de-rosa zona das emoções mortas.

O ódio é o avesso do amor contrariado, ferido. Como uma imagem refletida num espelho. Amor e ódio são idênticos, porém invertidos.

Existem ainda aqueles que amam e odeiam uma mesma ideia, um mesmo ideal, uma mesma pessoa. E batem e acariciam com a mesma mão. E agridem na intimidade e defendem publicamente. E ofendem com os olhos brilhantes, a boca prestes a beijar, num jogo esquizofrênico em que todos saem mutilados e extasiados.

É muito complexo odiar quem se ama. Entre o gozo de aniquilar a pessoa e o gozo de toma-la para si , a dúvida é grande e feroz e voraz e come as carnes por dentro.

Uma única certeza: a derrota é garantida. Se o ódio vencer, a pessoa perderá o ente amado para sempre no momento da conclusão da vingança. Como diria Confúcio antes de Cristo: "Quando você decidir se vingar, abra duas covas".

Se a pessoa optar pelo amor, mas sem perdoar de verdade o outro, o gozo que sentirá na cama sempre terá um gostinho de lágrimas e humilhação.

Sim, neste caso específico, só o perdão cristão poderia resolver a pendenga.



 
 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Se houver vida após a morte

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS


Se houver vida após a morte e ela for mais democrática e aprazível do que esta nossa existência bem mais ou menos, mais para menos, tenho uma lista longa de pedidos a fazer.

1. Para começar , quero comer ovos fritos com gema mole todos os dias sem medo de contrair salmonella e aumentar o colesterol. Dois ovos com a clara bem branquinha e as gemas moles acompanhados por um pãozinho francês e uma boa xícara de café nem muito doce nem muito amargo para começar bem o dia.

2. Quero dias nublados, frescos , com uma chuva fininha e poética. Quero olhar pela porta balcão da minha suíte e sentir toda a languidez mágica dos dias invernais.

3. Quero me jogar num divã macio e gigante e sempre ter um bom livro para me empolgar. Um livro que abrace sensualmente e suavemente o meu mundo das ideias , calando beijos cálidos na minha alma.

4. Neste  mesmo divã macio e gigante quero receber relaxantes massagens que façam as pálpebras caírem lentamente.

5. Quero sessões regulares de cinema. Quero assistir bons filmes com os dedos entrelaçados aos de um homem que seja digno do meu respeito. Um homem capaz de gozar intelectualmente com uma mulher. Um homem capaz de amar uma mulher e não simplesmente ejacular dentro dela.

6. Quero comer chocolates todos os dias sem engordar e sem prejudicar o fígado.

7. Quero conviver com personalidades interessantes, fumar cigarros com piteiras, tomar muito champanhe, falar sobre o âmago de tudo ao som de um jazz e olho no olho.

8.  Quero conviver com gente que transpira inteligência e savoir faire , gente estimulante , que sabe piadas ferinas e tem um coração agridoce.

9. Quero gente que traz a alma nos olhos. A alma rasgada e esfolada.

10. Quero me apresentar regularmente num palco com luzes tépidas sobre meu rosto de quem já tudo viu, mas que custa a acreditar na infinidade da maldade humana.

11. Quero aplausos, beijos no rosto, abraços apertados, confidências ao pé do ouvido, amor sincero, juras verdadeiras.

12. Quero me embriagar com os escritores da geração perdida e ter um longo papo com as irmãs Brontë.

13. Quero tomar chá com Jane Austen e abraçar David Lean, dizendo o quanto o filme A filha de Ryan foi cruelmente injustiçado. Quero dizer:" David, este é o meu filme favorito. Não apenas o seu. O meu favorito de todos. Sou Rose Ryan: a mais tonta de todas as anti heroínas. Insisto em crer que posso ser amada".

14. Quero beber, prosear, fumar e rir com Buñuel e dizer o quanto fico enciumada quando descubro uma nova pesquisa sobre seus filmes. Queria lhe dizer que sinto que tenho o direito exclusivo de falar sobre seus filmes. Pediria para ele me preparar um Buñelito enquanto conversamos febrilmente  sobre a patética moral burguesa e a magia do anarquismo.

15. Quero  trocar um olhar denso e profundo com Graham Greene . Não precisaríamos falar sobre nada. Queria que ele me enxergasse , nem que fosse por uns 20 segundos, como a sua Sarah.

16. Quero sentar junto com minha xará Sylvia Plath e com Florbela Spanca para falar sobre os horrores poéticos do amor e a beleza terrível da poesia.

17. Quero assistir aulas regulares de Artes e Filosofia com gente que não boceja diante do conhecimento.

18. Quero beber cerveja com meus amigos mais queridos sem precisar controlar o relógio o tempo todo.

19. Quero adormecer ao lado de um homem que possa amar somente a mim e eu a ele, sem mas nem poréns ou entretantos.

Se for para ir para um céu padronizado, com um jardim florido, passarinhos cantando , sol brilhando  e gente melosa falando banalidades, dispenso!


 
 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

O amor: uma mentira contada mil vezes que " virou" verdade

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Faço parte de uma geração e de um meio social que via a vida de forma muito tradicional. Quando era adolescente, beijar um garoto no cinema era o máximo da ousadia.

Eu beijei pela primeira vez aos vinte anos. Recusei na adolescência ser beijada por rapazes mais velhos e atraentes pois esperava o tal do amor.  O primeiro beijo tinha que ser mágico...e foi. Entre suspiros, gemidos lânguidos e eu amo você sussurrado. 

Não critico a atitude mais reservada da minha geração. Não acho que sair por aí beijando e transando com todo mundo, principalmente quando se é adolescente seja o melhor a se fazer.

Mas, por outro lado, algo na juventude atual me desperta inveja. Me faz sentir vontade de ter nascido uns 15 anos depois.  O adolescente de hoje tem um senso de realidade que eu não tinha. Mais do que isso. Tem uma ironia e um niilismo que eu não tinha. O jovem de hoje tem mais couraças.

Cresci num meio tradicional, católico, classe média alta , em que a vida da gente precisava seguir uma linha reta, mesmo que ninguém falasse isso com todas as letras. A gente tinha que entrar na faculdade depois de terminar a escola, depois arrumar um trabalho tradicional, um marido tradicional,  ter filhos e aparentar prosperidade.  Nunca falar dos problemas. Nunca rir demais. Como afirma o ditado: "Muito riso, pouco siso".

Lá no fundo eu sentia que a vida podia ser mais do que isso...mas como se diz "uma mentira contada mil vezes vira verdade" e eu acabei acreditando na tal da linha reta e perdendo a mim mesma.

Agora aos 37 anos estou namorando a mim mesma, me descobrindo, me desnudando , me permitindo existir num sentido mais amplo, em ziguezague, sem certezas absolutas, vivendo o momento, experimentando este veneno que muitos jovens já conhecem desde a tenra idade. Experimentando este senso de realidade,  esta dureza da vida. Este desencantamento. Este cinismo.

Sim, dói ser cínico por perceber que não existe nenhum pote de ouro no fim do arco-íris. Por perceber que o amor é a mais cruel das ilusões, a mentira mais bem contada que inventaram.  Ela foi contada tantas e tantas vezes que realmente acreditamos nela, negando o inegável: tudo se resume a sexo, mentira e conveniência social. 

O amor para se desenvolver, precisaria estar no vácuo, em condições ideais. A sociedade mata qualquer possibilidade de um sentimento verdadeiro.  A sociedade nos convida ao cinismo bem educado das relações convenientes.

Por outro lado ter este desencantamento é preciso. Este desencantamento me machuca e me fascina em medidas iguais.

E talvez ter nascido em outros tempos não seja uma grande desvantagem. Se eu tivesse sido desencantada desde sempre , não poderia experimentar este gozo que me esfola as intimidades. Não poderia provar esta sensação de descoberta perplexa. Talvez não me sentisse tão viva e tão morta ao mesmo tempo.

 
 
 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas

Café da manhã na lua com estupradores simbólicos

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Parafraseando o filme Café da manhã em Plutão ( recomendo para aqueles que tiverem mente aberta ou pretendem abri-la) inicio meu post de hoje.

Pela Psicologia , as formas circulares têm relação com o feminino e para a Astrologia a lua rege as emoções das pessoas, como elas se relacionam tanto com familiares, amigos, colegas, inimigos etc A lua diz respeito às necessidades psicológicas da pessoa. Não confundam com Vênus que cuida da parte mais romântica da nossa vida, que diz respeito ao amante que somos, ao nosso senso de beleza, de prazer e como nos relacionamos também com o dinheiro.

Minha análise é bem superficial pois não sou astróloga. Apenas leio sobre o tema pois me interesso por todas as disciplinas que lidam com o simbólico.

Mas voltando à lua , ela se refere ao feminino. Por tal motivo a escolhi como parte do título do meu post. Pois hoje quero falar sobre o feminino. Não me refiro a esta parte chatinha do feminino que fica histérica diante de uma vitrine com sapatos e bolsas. Também não me refiro às mulheres que querem cortar os pulsos porque têm um pouco de celulite na bunda e que transformam umas ondulações na pele , totalmente banais, em uma tragédia por falta de intelecto.

Me refiro à parte instigante e intrigante do feminino. Me refiro à mulher como ambiguidade, dicotomia, como intuição afiada, doçura venenosa, subterfúgios, carência poética, impulsos assassinos, passionalidade à flor da pele, ironia para disfarçar tudo o que ela não pode dizer.

Me refiro ao feminino como inteligência sensível, como força mental, como agente de transformações em um mundo patriarcal, certinho demais. Sim, o mundo patriarcal é chato demais. É o mundo da hipocrisia. Dos casamentos infelizes. Dos ditos homens de bem que traem suas mulheres até com a samambaia da casa. Que desprezam suas mulheres pelo simples fato de serem suas mulheres. 

É o mundo em que crianças são obrigadas pelos pais a exercer uma religião que elas não querem. É o mundo do "Tudo bem?" sem querer saber a resposta. É o mundo corporativo, mecanizado, que sorri sem mostrar os dentes.

Quem teve o prazer de assistir à peça teatral A Alma imoral baseada no fantástico livro homônimo escrito pelo rabino Nilton Bonder ( uma combinação rica entre a mais transgressora Filosofia com Teologia judaica) sabe que a mulher trai a tradição para manter o que realmente importa na tradição.

Pelo autor, a mulher é o agente de mudanças e não deveríamos nos eximir de nossa responsabilidade.  Gerar mudanças vai muito além de hostilizar os homens.

Gerar mudanças implica em mudar o nosso olhar sobre nós mesmas. Gerar mudanças implica em nos sentirmos realmente bem com o nosso feminino. A partir do momento em que realmente amarmos ser o que somos, independente da celulite, da estria, da roupa da moda que não temos, da cantada que não levamos ou da cantada grosseira que levamos, da falta de afeto do nosso parceiro, seremos realmente capazes de promover o nosso papel no mundo.

A mulher é violentada tanto pelos homens como por elas mesmas. E não me refiro a violência física apenas. Neste momento me centro muito mais na violência psicológica. Homens torturam as mulheres emocionalmente e nós os auxiliamos nesta tarefa lindamente bem, entregando nas mãos masculinas o dever de nos fazer feliz e de nos valorizar.

Quantas vezes não permitimos ser abusadas sexualmente? E mais uma vez não estou me referindo a estupros. Estou me referindo a um estupro simbólico consentido.  De um modo geral ( existem homens e homens e existem mulheres e mulheres) a mulher tem uma percepção muito mais subjetiva do ato sexual. Por mais desencanada que ela seja, a mulher se envolve mais afetivamente no ato sexual, de um modo geral. Principalmente as mais jovens e inexperientes, que carregam muitas fantasias românticas e encaram o sexo de forma mais idealizada.

Quantas jovenzinhas e algumas mulheres maduras também não se entregam rápido demais ao sexo , não por liberalidade e vontade de ter prazer, mas para garantir o sucesso de uma relação, para garantir que o parceiro fique com ela e preencha suas lacunas emocionais? Quantas mulheres não sofrem na cama, mas se submetem para se sentirem "protegidas e amparadas" por um homem. Quantas mulheres não perdem a virgindade de forma desastrosa ou realizam o primeiro ato sexual com um novo parceiro sem se sentirem devidamente preparadas para isso? 

Sim, caras mulheres. A situação apresentada acima é muito comum e quase todas nós já passamos por ela pelo menos uma vez na vida.  Os homens conhecem a nossa fragilidade emocional, a nossa necessidade histérica de sermos queridas e aprovadas por eles e muitos nos usam sem dó nem piedade, principalmente àquelas com menos recursos afetivos e intelectuais para se defender.

Todo homem que transa com uma mulher inocente apenas para satisfazer suas necessidades fisiológicas é um estuprador.  Talvez até pior. Porque um estuprador de fato machuca o corpo. Um estuprador simbólico machuca a alma e nos torna cúmplices de seu vil crime.




Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

É preciso assassinar cada uma das ilusões como a uma barata

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Hoje, uma leitora estava elogiando dois textos meus publicados esta semana na Obvious. Ao abrir a página do Facebook com meu perfil profissional me deparei com um depoimento de que eu era uma pessoa iluminada.

Muitas pessoas que não conheço, mas que acompanham regularmente meus textos, tanto os da Obvious como os da Garota desbocada , me escrevem recados fervorosos e ficam felizes pelo simples fato de adicioná-los. Sinto uma pureza de alma em suas palavras que já não tenho mais.

Sim, sim, sou carinhosa, abraço com força as pessoas, me envolvo em seus problemas. Não sou uma pedra de gelo. Mas não consigo me ver como alguém iluminado. Talvez criativa, eloquente. Apenas isso.

Hoje, publicamente, disse à minha leitora que era muito mais lúcida nos textos do que na vida. Na vida ainda sou cega e burra, embora esteja me esforçando muito para melhorar. Acho que já obtive algumas conquistas bem importantes e com apenas 6 meses de terapia.

Hoje me vejo como um ser humano inteiro, que não precisa de um homem por perto para me tornar completa, para me tornar alguém.

Continuo querendo o amor. Quem não quer o amor? Quem não quer uma companhia interessante. Mais do que isso. Quem não quer um cúmplice nos pequenos crimes do amor?

Quem não quer passar um final de semana em Montevidéu ou Buenos Aires comendo muita boa carne e tomando muito bom vinho a preços bem moderados? Quem  não quer assistir a um show de tango se entupindo de vinho branco e rindo por qualquer bobagem? Que mulher intelectualizada não quer um parceiro bom de papo?  Alguém que não morra de sono durante filmes inteligentes e não morra de tédio em exposições de arte?

Mas hoje não acho que amor necessariamente precisa virar casamento. E mesmo que vire, não precisa ser aquela coisa chata e modorrenta que conhecemos.

Não, não me sinto iluminada. Sinto apenas que estou cercada de luz e o que para mim parecia monstruoso e terrível era apenas uma peça de roupa pendurada no cabideiro. 

Falei para uma amiga que era bom ficar desiludida. Sim, é bom sim. Estar desiludida é estar livre das ilusões, das falsas esperanças. A gente começa a viver de fato quando se desliga desta merda toda. Quando a gente deixa os contos de fada, as comédias românticas e os comerciais de margarina para trás. Uma vida meio cinza e enfumaçada, mas real, palpável, honesta , que não te faz falsas promessas , que te olha nos olhos enquanto fala com você, que te leva a sério mesmo quando brinca despudoramente.

Não perdi todas as ilusões ainda. Ainda me confundo, me enrosco, enfio os pés pelas mãos. Ainda confio. Ainda busco um brilho no fundo dos olhos. Mas tudo bem. Como já disse, fiz apenas 6 meses de terapia.





 
 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas

Vomito para o debiloide senso comum

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Sim, caro leitor. Vomito para o debiloide senso comum. Para esta gente zumbística que fala mesmices com ares de superioridade.

Não é a idiotice em si que me irrita. É a idiotice que se acha inteligente. E o mundo está empesteado desta espécie que deveria ser dedetizada. 

Parafraseando Franz Kafka, com uma dose cavalar de ironia estridente e maldosa,  não passam de insetos gigantes sobrevoando as nossas cabeças com seus zumbidos chatinhos. 

Tô de saco cheio de ouvir gente defendendo intervenção militar. Quem não tem nada a dizer, quem não tem expressividade e acha que a vida se resume a nascer, crescer, arrumar um emprego de merda para comprar muitas bugigangas, procriar e criar filhos tão imbecis quanto eles mesmos,  a intervenção militar deve ser o sistema realmente ideal.

Como professora da área de Humanas, teria duas opções: fazer o meu trabalho direito e ser torturada e assassinada depois ou virar uma ameba que faz os alunos decorarem conceitinhos bobos, um arremedo barato de Educação. 

A terceira opção seria deixar o país. 

Como disse o historiador e professor Leandro Karnal, nunca devemos lutar contra a democracia. Devemos aperfeiçoá-la. Não é porque o governo atual é um horror que devemos mandar tudo à merda. É o mesmo que matar alguém que está doente. Doentes precisam ser tratados, medicados , não jogados pela janela. Me pergunto quem em sã consciência abre mão da liberdade? Puta que pariu! A liberdade que é nosso maior bem!

Tô de saco cheio de homofóbicos que na verdade adorariam sentar e rodar, mas como não possuem coragem, ficam perseguindo e ironizando quem tem coragem de se assumir e viver com sinceridade, com plenitude. 

Tô de saco cheio de gente racista, preconceituosa que invade páginas de atrizes negras para esculhambar com os cabelos das mesmas. Com que direito uma pessoa entra na página de uma atriz para ofendê-la gratuitamente? Para ofender o ato de sensatez e autoestima que é priorizar a beleza da sua raça?  Por que toda mulher precisa ter cabelos lisos? Quem inventou que cabelo liso é certo e crespo é errado? Todo conceito de beleza é cultural, portanto é uma construção. Se os negros tivessem escravizado os brancos, hoje teria muita mulher de cabelo lisinho querendo uns cachos.

Tô de saco cheio de gente moralista que julga e aponta o dedo para os outros porque não tem atrativos para encantar as pessoas.  E para justificar a própria mediocridade, se agarra a um monte de regrinhas que não têm nada a ver com a solidariedade e o bem maior.

Tô de saco cheio de fundamentalismo religioso. De gente que quer fazer os outros engolirem goela abaixo a fé alheia ou a descrença. O problema não é ser religioso ou ateu. O problema é ser chato, cuzão, pé no saco. 

Tô de saco cheio deste desprezo pela alteridade, deste pensamento tacanho que contaminou a corrente sanguínea de muitas pessoas como um vírus letal. 

Tô de saco cheio destes malfadados conceitos de felicidade pregados pela sociedade com gosto de pipoca amanteigada e cara de shopping center. 

Tô de saco cheio desta hipocrisia generalizada que invadiu nossas vidas como uma enchente enlameada, sujando tudo o que é espontâneo , vital e belo. 






Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Um brinde ao realismo

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS


Hoje, me debrucei atentamente sobre um post escrito por uma amiga virtual. Uma destas amigas que entrou de repente na minha vida, mas que já me fez rir e refletir demais. 

Ela criticou de forma apaixonada os conselhos dados na internet para evitar a frieza e a hipocrisia do mundo. Seja frio também. Se isole. Enfim, como a Pri disse, parece que o problema está com aqueles que sentem intensamente e são verdadeiros.

Entendo também quem fornece este tipo de conselho. Não creio que seja por maldade ou imaturidade. Acho que é por cansaço mesmo. Tédio. Descrença. Niilismo na veia. Toda autopreservação exagerada é uma forma de niilismo. Niilismo e medo. Porque cansa atuar na linha de frente da vida. Cansa ser a gente mesmo, dizer a verdade, jogar limpo,  se dar por inteiro e receber o oposto. 

Admiro a indignação da minha amiga , mas respeito o niilismo daqueles que dão conselhos conformistas. Respeito até mesmo porque a gente não conhece o caminho que a pessoa trilhou até começar a dar estes conselhos. A gente não sabe o que e o quanto ela precisou suportar para descobrir que realmente se importar não vale a pena. Que lá no fundo, tudo se resume a cinismo , frases feitas e jogos de palavras.

Termino o meu post com uma das frases que mais aprecio da literatura universal, retirada da peça teatral Um bonde chamado desejo , de Tennessee Williams. A frase é pronunciada cheia de fervor pela bela, trágica e bipolar Blanche Dubois: "A única coisa que não tem perdão é a maldade gratuita e deliberada".





Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Vamos simplificar?

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS


Mais um post do Facebook me inspirou a escrever. Ele foi adicionado por uma amiga de infância bem religiosa, mas não no sentido ortodoxo e chato da palavra. Ela ri, bebe vinho, fala besteira.

O post dizia mais ou menos assim: "Amai-vos uns aos outros e o resto que se foda".  Muuuuuito bom! Acho que é por aí mesmo.

No fundo, o que importa mesmo é a nossa capacidade de se colocar no lugar do outro e não fazer para ninguém o que não gostaríamos que fizessem para gente.

No fundo, o que importa é dar de comer a quem tem fome, não importa se é de comida, de saber , de afeto ou de um simples olhar e um  "Eu te entendo".

No fundo, o que importa é a gente rir com as pessoas,  chorar junto, fazer perguntas indiscretas, perguntar "Tudo bem?" esperando a resposta com sinceridade. No fundo, o que importa é a gente deixar a porta da nossa vida aberta para os outros e fazê-los se sentir à vontade dentro dela.

No fundo, o que importa é a gente olhar nos olhos do outro e dizer a que viemos sem medo de mostrarmos quem somos.


 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.