quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Simpatias para 2017

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS



Não pensem, caro leitor , que não acredito em simpatias. Algumas são até bacaninhas. Sim, simpatias têm o poder de dar uma sacolejada na nossa modorra emocional. Com a fé em futuras realizações, a gente acaba fazendo as coisas mesmo.

Por isso, decidi ensinar algumas das minhas favoritas. Nada que envolva coisas nojentas , bizarras ou difíceis de encontrar.  Sim, caro leitor , você não precisará se deslocar até uma feira hippie da Vila Nheco Nheco para comprar uma erva rara e fedida para fazer uma das minhas simpatias.

Uma ou duas horas antes do ano novo, coma uma comida que você realmente goste, acompanhada por uma bebida que seja deliciosa na sua opinião.

Coma a tal comida e beba a tal bebida , com sapatos bem confortáveis, de preferência Havaianas ou rasteirinhas compradas numa loja em que o sapato mais caro custa 49, 90 reais. Não sei dizer o porquê, mas sapatos comprados em lojas populares costumam ser bem mais confortáveis. Talvez , seja pelo fato de pessoas pobres precisarem andar. Fico imaginando as executivas que vão comer o c... dos seus colaboradores às nove da manhã , calçando saltos dez se precisassem andar mais do que os três passos que as separam do carro com ar condicionado do elevador da empresa.

Por tal motivo, quem não precisa enfrentar  ônibus , metrô lotado , trenzão e caminhadas debaixo de um sol de 47 graus não deve dar lições de etiqueta e de como se vestir para quem vive a vida real. Deixar de ouvir estas pessoas , deixar de seguir modismos histéricos é outra boa simpatia para viver qualquer ano de forma menos infeliz.

Mas voltando ao réveillon... vista uma roupa igualmente confortável. De preferência uma que você já tenha. Você pode não acreditar , mas evitar faturas muito altas no cartão de crédito para o mês de janeiro é uma bela maneira de atrair "boa sorte". Quer descomplicar o novo ano? Pegue aquele seu shortinho jeans mesmo , uma regatinha que esteja menos empipocada e be happy!

A mais importante de todas as simpatias: evite festas com pessoas que estão cagando e andando para você. Evite aquela sensação de entrar no novo ano se sentindo um zero à esquerda.  Eu não sei da parte de vocês , mas da minha , não preciso que ninguém faça cara de quem está sentindo cheiro de peido para me sentir um zero à esquerda. Esta é uma arte que domino bem.  Durante o ano inteiro , precisamos lidar com gente que está cagando e andando para nós. Faça algo original no réveillon!

E se você tiver lido pelo menos dez livros que não sejam de autoajuda nem tenham sido exigidos no vestibular , evite também confraternizações em que bolsas e dietas sejam os temas mais complexos a se discutir.

E se você é do tipo que não troca um cérebro inteligente com um cáustico senso de humor por um bonitinho que tem como frase mais profunda "O fulano é um cara do bem e tudo de bom é ser feliz", evite aqueles seus "amigos do bem gente boa pra caralho" porque além de se sentir irritado, você ainda pode ser acometido por um pegajoso sentimento de culpa , que você herdou das aulas de catequese , enquanto a sua professora cuspia nos seus óculos ou falava da bondade de Deus com sangue nos olhos.

Sim, podemos nos sentir culpados quando percebemos que ervilhas e nabos pensam com mais irreverência do que  amigos que foram importantes para nós em algum momento da nossa vida .

E falando em culpa , não se sinta culpado por não estar seguindo as tradições. Não se sinta culpado por não comer lentilhas nem romãs. Não se sinta culpado por não usar roupa branca nem nova. Não se sinta culpada por estar vestindo aquela lingerie  usada que você ama , que traz milhares de boas recordações e conhece de cor e salteado o formato  atrevido do seu bumbum.  Não se culpe por vivenciar um tipo de alegria que não está na moda. Nenhuma vida cabe numa selfie.  E se a sua couber, meu Deus! Nada a declarar.





 
 
 

 
 
 







 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 




terça-feira, 27 de dezembro de 2016

O réveillon perfeito!

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Esqueça , caro leitor, tudo o que você aprendeu e ouviu falar sobre um réveillon perfeito . Esqueça as ondas do mar , caso você não pratique uma das religiões reencarnacionistas.

Esqueça o vestidinho branco, as sandálias prata.  Esqueça a transloucada ida ao shopping no último dia do ano. Esqueça o desespero para perder 5 quilos em menos de uma semana. Esqueça a paranoia de perder 210 gramas para se sentir bonita dentro do shortinho branco todo desfiado com cara de roupa velha , que você vai precisar pagar em 6 vezes de 307 reais.

Esqueça as lentilhas e as romãs. Existem frutas bem mais saborosas e suculentas.  Coma uma boa pratada de lentilha só se você gostar mesmo da iguaria . Caso contrário, coma feijão, coma ervilha, coma milho verde , coma cachorro quente. Enfim, coma o que te der na telha. 

Esqueça o restaurante que vai cobrar 1006 reais por pessoa para beber champanhe de segunda e comer um assadinho meia boca , meio seco,  acompanhado por um purê de qualquer coisa com gosto de papel e flores comestíveis. Sim, em datas festivas , come-se lixo a preço de luxo nos restaurantes badalados. Não entendo o que as pessoas têm contra uma boa lasanha ou estrogonofe feito em casa. Não entendo por que as pessoas não podem comer um bom prato de carpaccio ou uma tábua de queijos ou até mesmo um macarrão ao molho Alfredo ( daqueles de vidrinho mesmo. Deliciosos!) na noite de réveillon.  Empadinhas!  Imagina comer empadinhas no réveillon? Sim, isso sim é desprendimento e senso de liberdade. Isso sim é irreverência e capacidade de viver fora dos padrões!

Comer empadinhas ou pasteis no réveillon, vestindo uma roupa escura e usando calcinhas meio esgarçadas.  Calcinhas esgarçadas são como namoro antigo: perderam o glamour, mas são confortáveis para c...rsrs

Esqueça qualquer tipo de simpatia ou superstição. Escute uma música que você goste, caso goste de escutar música. Veja um bom filme . Pode ser um ruim também, caso você prefira filmes bobos a filmes bem feitos. Nenhum problema. O réveillon é seu e o importante é ser feliz. Ou no mínimo, se sentir de boa, sem ser obrigado a fazer caras e bocas para pessoas que a gente estrangularia com o maior prazer se não fosse pecado e contra a lei.

Jogue Banco Imobiliário. Videogame. Jogue conversa fora. Fale mal da vida alheia. Fale mal de si mesmo. Diga sem constrangimento que ainda não estabeleceu metas para 2017. Ria da colega que acredita que pensamento positivo resolve tudo e se sente culta por devorar livros de autoajuda. Não segure um bom arroto se alguma comida cair mal. Empadinhas costumam ser gordurosas.

Esqueça a calcinha nova. Esqueça o branco para atrair paz e o amarelo para atrair dinheiro. Esqueça o rosa para atrair amor e o vermelho para chamar a paixão. Esqueça o verde esperança. Não há nada mais angustiante  do que viver de esperança.  Encare a merda de uma vez e aprenda a rir de si mesmo!

Use uma calcinha confortável mesmo e de preferência , fique pouco tempo com ela. Tem coisa mais gostosa do que entrar no novo ano despido de qualquer tradição? Piadas eróticas à parte rs

Se você quiser ter um réveillon perfeito, precisa fazer algo que tenha a sua cara. Precisa comer e beber o que você gosta, mesmo que seja pão com mortadela e fanta uva.  Vestir o que bem entender. Ficar com quem faz realmente parte da sua vida.  O resto é chantilly e marketing para fazer desavisados gastarem um dinheiro que muitas vezes nem têm.  Para fazer desavisados entrarem endividados no novo ano.  Para induzirem desavisados a tirarem selfies bregas de passagens de ano pasteurizadas e sem graça.  Não há nada mais cafona do que não ser a gente mesmo.




 
 
 


 
 
 







 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 




segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Se você foi um cuzão em 2016 , provavelmente será um em 2017 também

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
 
Sim, se você foi um cuzão em 2016 , provavelmente será um em 2017 também. Sim, se você foi um parasita em 2016 , provavelmente será um em 2017.
 
Se você arquivou todos os seus projetos por preguiça em 2016, provavelmente você os arquivará de novo em 2017, com a fiel e fervorosa promessa de concretizá-los em 2018.  Se você foi um déspota egoísta com os seus colaboradores ( amo eufemismos rsrs) provavelmente você continuará sendo um déspota egoísta em 2017, alguém capaz de olhar apenas para o próprio umbigo , embora deseje felicidade a todos.
 
Desejar felicidades é fácil e indolor. Quero ver tornar a vida dos outros mais simples. Quero ver dar condições para que as outras pessoas possam se sentir menos desesperadas neste mundo maluco.
 
Um cartão bonitinho significa coisa alguma. O que significa são as atitudes palpáveis , sólidas. O que significa são os aumentos de salário, os planos de carreira , os gestos verdadeiros de afeto. O que significa é ajudar as pessoas a encontrarem soluções para as suas vidas complicadas. O que conta é ajudar as pessoas a terem vidas menos complicadas.
 
Sim, alguns gestos pequenos podem ajudar e muito. Mas a grande verdade é que a maioria gosta de ser cuzão mesmo.
 
A maioria curte fazer média. A maioria curte paparicar quem não precisa de ajuda. A maioria prefere cobrar por um afeto que não é capaz de sentir , muito menos de dar. A grande verdade é que a maioria quer amor irrestrito , mas nada faz para cativar as pessoas.
 
A grande verdade é que um ano só pode ser diferente se nós mudarmos.
 


 
 
 







 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 




Um brinde ao senso de realidade!

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS


Hoje , fiquei extasiada com um artigo da Tati Bernardi. Sinceridade irreverente na veia. Em dose cavalar e deliciosa. O post de hoje é basicamente um mix entre o texto lido e um relato feito por meu irmão,  que foi obrigado a presenciar uma cena lamentável em um restaurante.
 
Uma mulher bastante idosa brigava por meio do telefone celular. Estava enfurecida porque uma pessoa que ela não gostava iria cear em sua casa no Natal.
 
Sim, o verdadeiro espírito do Natal é este para muitos. Se as pessoas fossem mais autênticas e profundas, seriam pouquíssimas as que comemorariam o Natal. Seriam os verdadeiramente religiosos e fim da citação.
 
A maioria de nós celebra simplesmente a festa do comércio. Muitos com um belo sorriso no rosto, achando tudo uma grande maravilha, desde a comida gordurosa numa noite quente até os votos falsos de felicidade de gente que não está nem aí para nós.  
 
Uma minoria, como eu, celebra como alguém que está com supositório tamanho GG.  Acho uma data melancólica , pois está esvaziada do seu real sentido. Virou apenas mais uma oportunidade para as pessoas se estressarem e terem gastos extras. Virou apenas mais uma oportunidade para lembrarmos de como a dinâmica social é chatinha.  De como as pessoas são hipócritas. De como é irritante lavar um monte de pratos depois de ter enchido o bucho. De como é irritante ter que entochar sobras de comida na geladeira.  Graças a Deus , o arroz aqui de casa vem sem passas. Uma frustração a menos.
 
Um dia desses meu namorado comentou comigo, meio incomodado , o fato de as pessoas não comerem feijão no Natal.  Concordo com ele. Nenhuma tradição deveria falar mais alto do que um apetite saudável.
 
Felizmente , passo o Natal apenas com meus pais e irmão, minha família de fato. Nos vestimos com roupas do dia a dia , sem frescura. Se ainda não conseguimos nos libertar das artimanhas capitalistas , pelo menos , posso dizer que   o clima é verdadeiro. Um pouco entediado, mas verdadeiro e cheio de um amor cansado, que é o amor real. Amor nada tem a ver com fogos de artifício. Amor é arroz e feijão comidos no dia a dia.
 
Felizmente , existe gente no mundo que pensa como eu. Mais do que isso: que escreve a respeito para quem quiser ler. Felizmente , não são apenas umas poucas pessoas do meu convívio que pensam igual a mim. Tem gente que está nas grandes mídias e que consegue pensar com lucidez. Estou cansada deste falso otimismo que impera em nossa sociedade. Estou cansada de gente que tapa o sol com a peneira, que come merda e insiste em dizer que é brigadeirão. Estou cansada de gente que em nome de uma felicidade fake deixa de viver uma felicidade verdadeira.
 
Ás vezes , sinto que estou vagando por uma cidade dizimada, que restaram apenas zumbis. Mas que estes zumbis se entendem e o corpo estranho sou eu.  Sim, ler a um texto como o da Tati Bernardi é como sentir a impetuosidade de um peido destemido num mundo em que as pessoas negam que fazem cocô.
 
 
 
 
 







 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 




terça-feira, 20 de dezembro de 2016

O que espero de 2017?

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS


Espero pouco, muito pouco de 2017. Espero entrar em 2017 com uma taça de champanhe vazia nas mãos e um sorriso meio irônico nos lábios. O mesmo sorriso que você viu estampado em meu rosto cansado durante 2016.
 
Espero entrar em 2017 com um beijo seu em minha alma esgarçada. Um beijo seguido por um longo e tépido abraço de amor.
 
Não sou ambiciosa. Não espero nada de 2017 nem de você. Espero apenas poder sugar tua alma num canudinho junto com o Campari misturado à soda limonada. Só quero mastigar tua alma como a uma pedra de gelo abandonada no fundo do copo.
 
Não sou ambiciosa. Só quero ouvir em minha mente um eterno blues sob a lasciva iluminação de um romance eterno. Não quero que cuide de mim. Só quero me adore.  Peço apenas o teu amor eterno servido numa bandeja de prata junto com meus canapés favoritos.
 
Não espero nada de 2017. Não espero grandes notícias e revelações. Espero apenas que nunca falte um bom olhar tépido sobre mim. Não sonho com grandes metas e conquistas. Sonho apenas com uma boa mesinha de canto onde possamos ficar apartados do mundo que entende nossas palavras como um dialeto arcaico e bizarro. Sonho apenas com o melhor e o pior de nós se embolando num único olhar de cumplicidade inconsequente.
 
Em tempos remotos , disse que eu era inconsequente e lasciva ou lasciva e inconsequente ...talvez possa me dizer a ordem correta um dia desses. Num dia qualquer, depois de aspirar mais uma vez o cheiro da minha pele.
 
Não, não espero nada em especial de 2017. Só espero que a vida transcorra com seu magnético tédio e encantadora falta de sentido.
 
 
 
 







 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 




sábado, 10 de dezembro de 2016

Seja o meu mimo

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Me visto com minha melhor fantasia , a mais rebuscada para que possa ver a pele da minha alma. Para que possa ver tudo aquilo que mora atrás do meu sorriso de canto de boca.

Para ver tudo aquilo que mora dentro de mim e que nem eu sei. Peço que me decifre e te ofereço apenas um beijo. De amor. Mas ainda assim, um beijo...sorrio...mentira...ofereço bem mais do que um beijo e basta que tente , que arrisque uma resposta...não saberei mesmo se está certo ou errado. Talvez nem exista um certo ou um errado.

Te trago para junto de mim. Te trago para uma terra idílica cheia de mil promessas...nunca mais te deixarei...sorri com os olhos diante das minhas palavras. Me pergunto: acredita realmente em mim?

E de repente , tudo se cala e se acende ao mesmo tempo num abraço cálido. Dois desesperados perdidos , vagando por uma terra de ninguém, sempre à espera do próximo trem, sempre com aquele ar de que mais nada esperamos.

E de repente tudo se descontrói como renda fina puxada pelo destino. E admitimos que esperamos sim. Uma tranqueira qualquer. Ela não vem. Entendemos finalmente porque somos niilistas até o próximo mísero desejo negado.

A vida é feita de pequenos mimos , regalos. Uma pequena contrariedade pode estragar o dia ou a semana ou a esperança de um futuro feliz.

Sim, a vida é feita na pequenez. Tudo que mais queremos como crianças mimadas , esperneando no meio da rua , são coisinhas bem tolas: corações espetados em estacas, reconhecimento irrestrito por nossos pequenos feitos, um pouco de neon e purpurina pelas calçadas esburacadas por onde passamos ,  fragmentos do nosso olhar num jornal que vai enrolar o peixe da sexta seguinte, um beijo terno antes de dormir.

 








 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 




quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Sobre aquilo que nem nós mesmos sabemos

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
Ás vezes , só quero fechar os olhos e entregar-me a mim mesma , esta estranha simpática e meio irônica. Nunca sei quando estou sorrindo de boa para mim mesma ou quando estou me julgando por qualquer coisa que nem sei que fiz.
 
Sim, faço as coisas sem perceber. Sinto as coisas sem entendê-las. Sinto um tufão de sensações variadas e perplexas me dando pontadas suaves na alma. Algumas nem tanto...algumas machucam para valer.

 
Ás vezes, só quero fechar os olhos e entregar-me a mim mesma , esta moça que me olha de esguelha cheia de um amor perturbador.  Sinto vontade de abraçar tudo que deixei escapar...sinto vontade de beijar no rosto a garota boba e brilhante que fui.
 
Sim, fui uma garota brilhante. Só não sabia disso.  Se alguém tentou me dizer quem eu era , não acreditei.
 
Não consigo ver a mim mesma e tateio no escuro. Me aproximo de você. Com suas mãos junta minhas duas versões numa só e ama a ambas loucamente.  Flerta com a estranha simpática e beija piedosamente a que só quer chorar e sumir.
 
Penetra os segredos da irônica altiva sem nunca largar a mão daquela que não sabe onde está e nem para onde deve ir.
 
Talvez exista uma terceira...a que mora no vão dos sentimentos extremos...não sei...não sei...só quero que fique comigo até o dia amanhecer. Temo o escuro.











 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 



sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A eternidade me cansa

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Tenho preguiça da eternidade. Só de pensar , imaginar vagamente , sinto vontade de me encolher no canto da alma.

Quero me deitar em posição fetal e pedir baixinho para que tudo acabe. Estou cansada. Estou cansada. Estou ...às vezes , até terminar uma frase pode ser um porre.

Caminho pela rua. A noite está agradável. É bom andar por aí, sem rumo, depois de comer um bom teppan e tomar um Campari batizado com soda limonada. Sim, a eternidade poderia ser assim. Sentir para sempre a lânguida sensação de um bom teppan com Campari. E depois sair por aí, pensando em tomar um sorvete ou receber uma massagem nos pés numa destas casas de massoterapia que encontramos na Liberdade , com os micro ambientes separados por biombos.

Sim, a eternidade me enche de preguiça. Não quero aprender mais nada. Não quero ser um espírito de luz. Não quero uma felicidade que não inclua os prazeres deliciosos que aqui foram negados.

Quero continuar comendo teppan e yakisoba e rolinhos primavera e um bom churrasco com saladinha de cebola , batata com maionese, macarrão à noite.

Sim, se a eternidade for caminhar por aí, depois de ter saboreado um bom steak tartare com uma dose de Bellini, ok para mim. Se a eternidade incluir uma quick massagem, eu vou sorrindo. Sorriso de canto de boca. Se a eternidade incluir uma boa dose de paixão, me abandono à sua vontade.

Sim, viver para sempre me cansa. Sempre temi o imobilismo, aquilo que nunca muda , que nunca acaba. Tatoos? Nem pensar! Se pudesse trocava a pele do corpo e da alma todas as semanas. Como ser apenas um num mundo cheio de possibilidades?

Sim, viver para sempre me cansa. Me cansa muito. Mas se a eternidade for como deixar-se ficar numa mesinha de canto de algum bistrô, por que não?














 
 
 






 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 




segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Sobre as pequenas irritações do dia a dia

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

A vida é curiosa e estranha. Hoje estamos felizes, sorrindo por bobagem. Sorrindo porque podemos ver uma série do Netflix sem ninguém nos aborrecer. Porque podemos dormir uma hora a mais. 

Amanhã , estamos novamente felizes, mas por um motivo grandioso. Depois , ficamos tristes do nada ou por algum motivo grave.

Um dia , escrevo sobre o vazio de existir , sobre a tragédia de ser arremessado a um mundo caótico e sem sentido.  Um dia , escrevo sobre status quo, amores perdidos , ilusões vãs, egos dilacerados. 

Em outros , tudo que me vem à telha são as mesquinharias banais do dia a dia. É a ira sentida por quase cair da escada rolante do metrô porque um infeliz ficou teclando no celular e não percebeu que a escada acabou. É ...é bem por aí! Para terminar de ler uma mensagem, quase quebra o pescoço das pessoas que vem atrás. Mas o que são algumas vidas diante da necessidade de curtir a amiga brega fazendo selfie com uma micro saia e beicinho de cu, encostada no guarda-roupa?

Em dias como hoje sinto uma necessidade urgente e quase insana de destilar o meu veneno sobre aqueles que se apressam em entrar primeiramente no metrô e depois ficam abestalhados e paralisados como estátuas de cera sem saber em qual cadeira botar o bundão. Uma grande dúvida... Enquanto obstruem a nossa passagem, outras pessoas vão ocupando os lugares restantes. O mais irritante desta situação é que o cuzão indeciso , por estar numa posição privilegiada, normalmente pega um lugar depois de nos ter impedido de pegar .  Dá vontade de gritar: "Puta que pariu! Senta de uma vez! É só uma cadeira , não com quem você vai casar! Se bem que casamentos hoje em dia podem ser menos importantes do que a escolha de um assento...eu , por exemplo, adoro sentar na janelinha...piadas à parte. 

Em dias como hoje , sinto quase um desespero para criticar os infelizes que param à esquerda da escada rolante. No metrô , ou andam rapidamente demais , empurrando a todos ou se parecem lesmas com seus celulares. Ou ainda modelos desfilando pela passarela da vida.  Eu não entendo o porquê de pessoas perfeitamente saudáveis precisarem andar tão devagar... respeito muito quem precisa se locomover com dificuldade por motivos físicos , mas se arrastar porque não tem alteridade para seguir o fluxo é um grande saco. 

Se uma pessoa tem capacidade para teclar e andar ao mesmo tempo, ok. Se não tem, faça uma escolha: tecle ou ande.  Sim, a vida é feita de escolhas. E parece bem sensato escolher não ser um chato. 

Como sou limitada em termos de coordenação motora , opto por usar meu celular quando já estou com minha bunda devidamente instalada em um dos assentos não preferenciais ou agarrada a um dos postes para não ser jogada longe quando o metrô freia. 

Sim, sou ansiosa. Sim, sou estressada. Sou paulistana e perdemos horas no trânsito. Sim, grande parte de nossas vidas vai para o ralo e não há nada mais precioso do que o tempo. Estamos quase sempre no limite da paciência e quando perdemos um vagão porque alguém ficou no lugar errado da escada rolante ou quando somos obrigados a andar quase dez estações em pé , carregando peso ( não se esqueçam que precisamos levar guarda-chuva e agasalho todos os dias) o pouco da nossa cortesia vai por água abaixo. Grosseria? Diria , cansaço. Um profundo cansaço que pode ser quase tão trágico quanto às mais intricadas questões da alma. 








 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 




quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Cinema dica louca

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Ok.Ok.Ok. Este espaço é reservado para as minhas reflexões insanas , meus delírios poéticos a respeito da vida. 
 
Mas como toda transgressora incorrigível, vou trair minha própria proposta e falar um pouquinho sobre o meu novo canal no Youtube.
 
 
Estreou esta semana o canal Sílvia Marques Garota desbocada com o programa Cinema dica louca. Vídeos de um minuto: tempo suficiente para indicar um filme fodástico sem encher o saco de ninguém.
 
Escolho filmes que apresentam alguma relação com a Psicologia ou com a Psicanálise. É ...é isso mesmo. Escolho filmes com psicóticos , histéricos , psicopatas e muito mais.
 
Lá vão os vídeos! Tentem não dormir pois sou uma garota sensível.
 
 
 
 
 

 

 
 
 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 



Epifania com gosto de champanhe sem borbulha

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Rio sozinha. Rio para mim mesma. Comigo mesma. Pego o último metrô. Vejo uma cadeira vazia , mas não me sento. 

Estou cansada. Muito cansada. As emoções esgarçadas, mas preciso ficar em pé. Me sentir plantada na realidade. Mesmo que seja uma realidade imaginária. Mesmo que seja uma realidade gritante em tons vivos de laranja e outros libidinosos de vermelho. 

Sim, precisamos das mentiras descaradas que inventamos e das outras contadas sensualmente ao pé do ouvido. Sim, precisamos das nossas meias verdades também, iluminadas sob a farsante luz de um abajur mixuruca que esconde deliberadamente as marcas do tempo. 

Estou cansada. Muito cansada de desenredar o destino. De juntar as partes arrebentadas de uma fina combinação. Quase fico nua por preguiça, por tédio. Deixo que me beije para me sentir inteira. 

As pernas doem e os pés incham dentro dos sapatos simples e baratos. O brinco vermelho numa única orelha me dá alguma distinção. Sou única na multidão. Sou eu mesma no meu bizarro mundo de melancólico êxtase.

Estou cansada , mas sorrio . Sorrio internamente. Lembro do champanhe bebido na véspera. A garrafa abandonada no canto do chão da cozinha. Estava meio morno. Não esperamos para que esfriasse o bastante. Temos fome de vida. E de morte. Tudo junto e misturado. 

No final ficou sem borbulha. No final seu gosto se perdeu em minha boca. E na sua , o meu mundo diluiu-se debilmente , sem forças para querer nada além de mais uma taça de champanhe, mais nada além daquilo que é...



Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 



domingo, 20 de novembro de 2016

Lá no fundo...

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
Lá no fundo, somos para sempre meninas mimadas , com o salto quebrado, o rímel borrado porque não fomos amadas o bastante.
 
Lá no fundo , somos para sempre aquele rosto triste , de lábios entreabertos e olhos lacrimejantes que olham através da janela. Que olham tudo aquilo que queremos e que não podemos ter.
 
Lá no fundo, somos para sempre um coração partido, que arde diante de tudo que poderia ter sido e não foi.
 
Lá no fundo, somos para sempre um par de pernas cansadas de correr atrás de sonhos que nunca se transformarão em realidade.
 
Lá no fundo, nunca somos amados o bastante. Lá no fundo, nunca somos nós mesmos o bastante. Lá no fundo, balbuciamos para sempre a palavra bastante , imaginando o inimaginável.
 
 
 

 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 

sábado, 19 de novembro de 2016

Amor cotidiano tem gosto de comida esquentada no micro-ondas

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Os poetas falam sobre o amor ideal. Beijos interrompidos em noites de chuva imaginária. Violinos tocando ao pé da alma , um desejo urgente de ficar , manter os dedos entrelaçados , as almas em comunhão.

Uma necessidade cruel de partir . Entrar no vagão do metrô, dar uma última olhada melancólica para trás. Abandonar-se num banco vazio e suspirar diante das lembranças tépidas de tudo aquilo que não aconteceu.

Os filósofos tentam decifrar o amor , racionalizá-lo, arrancar a sua seiva , a sua essência , jogá-lo na mesa com outros nobres conceitos sem a quentura branda da cama dos amantes.

Os psicanalistas sorriem um sorriso de canto de boca quando falam sobre o amor...

Sim, o amor parece ideal quando não se pode ficar junto. Altos e nobres valores. Juras insanas. Em tom de prece , falamos a nós mesmos sobre a sacralidade daquele sentimento que corroí o peito como ratinhos travessos.

Mas o amor é cotidiano e banal. O amor tem gosto de comida esquentada no micro-ondas , louça suja sobre a pia. Um lava e o outro enxuga.

O amor tem gosto de café tomado às pressas, entre bocejos. Tem textura de lençol amarfanhado depois de uma noite compartilhada cheia de sono e um carinho profundo. Tem gosto de sexo meio lúdico. Ai, amor, aí eu sinto cócegas!

Tem gosto de contas a pagar se acumulando na mesinha de cabeceira. Tem gosto de geladeira vazia. Vamos ao supermercado, amor?

No início, somos intelectuais , profundos, cheios de frases de efeito, olhares enviesados , sorrisos de canto de boca. Diz-se algo niilista e depois um gole breve no copo da cerveja. O outro suspira. Falamos sobre autores famosos , todos os filmes cult que vimos , até citamos algum pensamento literalmente....que memória! Mais um gole na cerveja ou no vinho. Mais um suspiro. Lontras se exibindo. Melhores perfumes , a roupa que cai mais ajeitada.

Depois , o amor vira passar a tarde vendo série americana dublada. É , não basta passar a tarde vendo série...é preciso vê-la dublada pois a gente quer ver deitado e fica mais simples ouvir do que ler e de repente a gente cai no sono e respira de boca aberta porque comeu muito Yakosoba e bebeu muito frisante sem gás no almoço.  O rolinho primavera também estava meio gorduroso e a gente levantou cedo e a gente deixou o outro ver que lá no fundo a gente é operário.  Me passa mais um pouco do molho agridoce, amor?

A gente ganha peso, usa calcinha de algodão...peraí...ainda não cheguei nesta fase. A gente sente vontade de ver  um bom terror adolescente comendo batatinha frita sabor creme de alho sobre os lençóis amarfanhados da noite passada. 

A gente assume que é meio bobo, que lá no fundo a gente acredita sim no amor. E que é bom ficar junto, que é bom simplesmente ficar deitado vendo alguma coisa qualquer. A louça se acumulando sobre a pia. Uma hora a gente sabe que vai até a cozinha e resolve este problema junto. Amor, faltou lavar aquele prato.

 

 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 










quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Irremediável é a dor da existência

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Sinto-me cansada. Como diria Coco Chanel, em alguns dias , me sinto com 15 anos. Em outros , com 200. 

Algumas emoções são tão repetitivas e insuportáveis... O que mais nos machuca é o que nos define. O que mais nos machuca é onde se encontra a nossa identidade , a nossa caixa preta , a nossa senha que abrirá os cofres da alma. 

Algumas emoções já estão desbotadas de tão antigas. Esgarçadas de tão usadas. O tecido se parte mil vezes e a gente se põe a remendar. Perda de tempo...

Só quero aceitar que carregarei este buraco na alma...quero que o sangue jorre sem me importar , sem me dar conta, sem dar conta de tudo que eu já expeli e perdi. 

Quero assumir a partida perdida. Quero gozar do sonho dos derrotados.  Deitar-me sobre meus escombros e sorrir meu sorriso de canto de boca, meio sexy, meio louco...digo verdades insanas...ninguém acredita em mim. Um ou dois olhares complacentes. 

Quero assumir quem sou sem maquiagem. Os olhos irreverentes e tristes. Esta tristeza que me consome...falo, mas não sou entendida. Quero parar de falar. Estou cansada.  Prefiro continuar no proscênio apenas fazendo gestos. Prefiro ficar no proscênio mesmo quando desligarem as luzes e fecharem as cortinas.

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 










terça-feira, 8 de novembro de 2016

Foda-se se algumas coisas não dão certo


 
Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS


Foda-se se certas coisas não dão certo. Foda-se se algumas teclas da nossa psique estão quebradas. Foda-se se algumas situações e pessoas sempre vão gerar mal estar em nós. 

Quando aprendemos a nos conhecer melhor e mergulhamos sem temores em nossos fantasmas, descobrimos uma coisa interessante , bem interessante: nem todas as feridas se fecham. Nem todas as cicatrizes desaparecem. Algumas situações sempre vão nos irritar. Algumas pessoas sempre vão trazer à tona o nosso pior. Algumas coisas estão estragadas e nada no mundo vai consertá-las. 

Mas a boa notícia é que não há mal algum nisso. Admitir para si mesmo os pontos negativos, as lacunas, as teclas quebradas, a ansiedade e a angústia que determinados comportamentos nos provocam é reconhecer que somos limitados, imperfeitos e que não podemos superar nem aceitar tudo com um sorriso plácido. 

Infelizmente , estamos na Era da autoajuda e somos obrigados a sermos felizes full time. Somos obrigados a banir qualquer sentimento que não seja bonitinho e agradecer aos céus até quando pisamos num cocozão de cachorro e tiram onda com a cara da gente. 

Não digo que seja bom alimentar sentimentos mesquinhos. Não, não é! Não digo que seja bacana reclamar da vida o tempo todo. É um saco gente que só reclama.  Mas também não somos obrigados a ficar felizes o tempo todo. Não somos obrigados a  ficar batendo palminhas para pessoas escrotas. 

Não somos obrigados a justificar as cagadas de gente autocentrada que só faz merda porque não consegue enxergar nada além dos limites do próprio umbigo. Não somos obrigados a perdoar infinitas vezes pessoas que cometem os mesmos erros sem se importarem se estão magoando ou não os outros. 

Sim, nem todos os traumas são superados. Algumas relações serão sempre difíceis. Algumas pessoas sempre vão trazer à tona lembranças tristes. Algumas pessoas sempre vão nos fazer pensar em coisas tristes por meio de suas atitudes displicentes ou arrogantes. Mais uma vez , eu digo: não há problema algum nisso. 

Viver é isso mesmo. É equilibrar-se entre os escombros que vão se formando durante o nosso caminho, com uma dose cavalar de senso de humor mesclada a um profundo senso de realidade. 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 




 


Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 















sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Entre garota desbocada e garota depravada

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS



Durante um jogo lúdico/erótico me foi sugerida a seguinte questão: se eu fosse milionária, quais serviços particulares eu contrataria, além de uma massagista. Sou fanática por massagens. Poderia viver só de massagens e amor insano. Umas taças de vinho , um bom parmesão e uns bombons recheados com licor de cereja também não me fariam mal. Um bife de picanha mal passado também parece uma boa pedida. Além de uma farofinha com banana para acompanhar e umas músicas da MPB. Além de uma saladinha de cebola para molhar a farofa e uns filmes cult. Além de uma boa macarronada e umas peças de teatro do Nelson Rodrigues ou do Tennessee Williams. Bem, este papo vai longe...

O meu pequeno lado prático respondeu que seria um motorista particular. Não dirijo e também não sou muita fã do transporte público brasileiro, embora de vez em quando, me sinta em Londres quando pego a linha verde do metrô e vejo alguém lendo um livro num dia nebuloso.

Mas o desafio era muito mais intrigante do que eu imaginei em princípio. Queria ele respostas inusitadas.  Queria ele que eu respondesse coisas bizarras, supérfluas, non sense. Algo meio estilo Salvador Dalí e Luis Buñuel quando filmaram Um cão andaluz. Ou algo estilo TV Pirata.

Ok.Ok.Ok. Aceitei o desafio. Catei a ínfima praticidade que tenho e a enfiei numa gaveta da mente. 

Comecei falando de um barman. E depois, parti para o sushiman. Ok.Ok.Ok mais uma vez. Posso muito bem fazer os meus drinks sozinha e apesar de apreciar comida japonesa , não sou fanática o bastante para contratar um sushiman. Mas tudo bem. Foram respostas criativas. Saí da caixa. Ele sorriu feliz. Emitiu sons de prazer. Existem mais modalidades de orgasmo entre um casal irreverente do que a vã filosofia pode entender. 

O jogo começou a esquentar. Disse coisas obscenas. Coisas que mereceriam um blog chamado Garota depravada. 

Depois joguei um lance escatológico para tirar um pouco do erotismo sem cortar o humor. Sugeri um cutucador de calos. Imagina ver um filme bem cult com alguém cutucando aquele calinho antigo e deliciosamente incômodo?

Para concluir, disse que seria ótimo contratar um colaborador para funções  múltiplas e bizarras , como por exemplo, alguém para fazer um suco de jaca às três da madrugada.  Não que eu curta suco de jaca. Para falar a verdade, nunca tomei um. Mas vocês pegaram o espírito da coisa, não é?













Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 









quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Som e fúria

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS


Já disse Shakespeare que a vida era cheia de som e fúria e que no final das contas não dava em nada, não significava nada. Cada vez mais saboreio deste pensamento niilista degustando emoções e  reflexões junto com um bom parmesão.

Sim, a vida tem muito som e muita fúria e de repente milhares de peças de um quebra-cabeça gigantesco e confuso parecem se unir. 

Mas quando está tudo praticamente montado, a gente percebe que ficou faltando alguma coisa. Aí, a gente se pergunta: desperdicei meu tempo e energia juntando o que deveria ficar separado? Perdi meu tempo tentando dar algum sentido e dignidade àquilo que é apenas caos furioso e lindo?

Não me parece que a vida faça muito sentido. Não me parece que algum encontro ou desencontro nos salvará de algo maior ou menor ou quem sabe , de nós mesmos.

Acredito em pequenas lições diárias. Em experiências que nos fazem crer que aprendemos a nos orientar. Algumas podem até nos orientar mesmo...

Mas não creio mais numa grande lição, num grande ensinamento. A vida é feita na pequenez, no detalhe , na alegria ínfima e efêmera de um beijo de amor com gosto de vinho e senso artístico. 

A vida é feita no cheiro do café , no abraço morno antes de dormir, na cumplicidade de uma ideia louca , de um riso cúmplice, de uma conversa insanamente inteligente. 


A vida é renda fina. Linda e espetacular por sua fragilidade.  É perfume que se perde no ar. É flor que murcha ao amanhecer.

Sim, flores murcham rapidamente e nem por isso nos perguntamos qual é o sentido delas. 







Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 








sábado, 22 de outubro de 2016

Sobre palavras e despudores

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
Existe qualquer coisa de muito impudica na intimidade. Existe um quê profundamente indecente no calor das confidências insensatas.
Existe certo tremor tépido nas palavras que deveriam ser caladas no fundo da alma.  Mas por que calá-las? Por que calar as palavras que têm como missão inundar o mundo com suas imprudências e incertezas, colorindo tudo com o seu caos mágico e nefasto?
Construímos e descontruímos castelos imaginários com uma simples palavra ou com apenas a sugestão dela.
Desbravamos terras distantes, reencontramos paraísos perdidos com um impensado eu te amo.
Vestimos e despimos fantasias variadas enquanto nos perdemos , vagueando tontamente pelos labirintos da linguagem.
Descobrimos a nós mesmos e ao outro. Ao outro e aos outros que dançam em nossa alma , esperando apenas por uma distração nossa para ocuparem o proscênio.
Sim, existe qualquer coisa de muito impudica na intimidade. Existe algo de muito comovente nas palavras trocadas no calor do momento.
Sim, existe um quê profundamente indecente no calor das confidências insensatas. Existe qualquer coisa que une aqueles que se abrem com um fio invisível, indizível. Algo que vai além das próprias palavras.
Sim, existe certo tremor tépido nas palavras que deveriam ser caladas no fundo da alma.  Existe um deslumbrante horror diante daquilo que não cabe em nenhuma palavra , daquilo que rasga os limites da linguagem e se instala na carne.
Te amo tanto e tão insanamente que mal posso dizer as palavras mágicas. Elas não traduzem o que sinto. Elas são um esboço pálido do meu desespero íntimo. 

Elas são uma encenação barata , feita por atores amadores num teatro vagabundo perto daquilo que me penetra a alma.  Não há nada mais lugar comum e charlatão do que dizer ao homem da sua vida que ele é o homem da sua vida. As palavras estupram a verdade,  a  tornam piegas e absurda.  Quase mentirosa.
Balbucio. Tonta. Frágil. Forte. Inquebrável. Estilhaçada por dentro. Sinto mais ferozmente o que não digo.

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.