sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Sendo bem sincera...

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Tati Bernardi está virando a minha guru realmente. Hoje, seu texto transloucadamente lúcido aumentou a minha dor de cabeça pós ressaca e deixou meu espírito ainda mais agridoce como aquele molhinho delicioso que acompanha o rolinho primavera bem engordurado.

Curti especialmente a repetição histérica da frase "Que vida maravilhosa essa" .

Antes de começar a fazer terapia, achava os textos da Tati Bernardi muito malucos, quase desconexos. Hoje, penso que a minha mente  era meio chatinha, dentro da caixa demais.

Para todos os problemas modernos há um medicamento específico. Para dormir, acordar, se sentir menos ansiosa, menos desesperada.  E se associarmos uma dieta equilibrada com uma boa dose de exercícios e tédio, pode-se viver como um zumbi até os 99 anos de idade. Por que desejaria eu viver tanto tempo imersa numa vidinha super mais ou menos, mais para menos?

Gostei também da parte em que ela afirma ter 37 anos e precisa ter filho logo. Às vezes quase rio sozinha quando penso que já pensei assim. Que fiz parte deste grupo que a Tati Bernardi ironiza com tanto charme.

Por que deveria eu querer ter um filho logo ou daqui milênios, fruto de um óvulo embalsamado?  O que eu ensinaria a ele? Comer muitas frutas e verduras, se exercitar todos os dias mesmo que ele deteste, retirar a gordura da picanha, comer doces apenas uma vez por semana, estudar com dedicação uma série de matérias inúteis estipuladas por um sistema educacional arcaico e caquético, ser educado com os babacas da classe que deveriam ter os pais processados por terem botado no mundo pequenas aberrações, escolher uma carreira que lhe permita pagar as contas, mesmo que ele sinta vontade de cortar os pulsos a cada manhã?

Ou o ensino a ser como eu era e sou? Língua solta e ferina diante do bullying, dispersa durante as explanações de Exatas, extremamente passiva nas aulas de educação física, devoradora de chocolates e X-maio ( X-maio é um X-Burger com maionese que eu adorava na época da escola) e viver de forma apaixonada uma  profissão que rende menos do que revenda de Herbalife?

O que devo dizer a um futuro possível filho? Dance conforme a música e seja mais um serzinho inexpressivo que eu teria vergonha e pena de admitir que é meu filho? Ou devo dizer para ser irreverente, desbocado, comedor de gordura de picanha como a mami dele e correr o risco de enfartar antes dos 50 e ter um monte de portas sociais fechadas?

O que devo falar a meu futuro possível filho quando ele estiver triste e descrente deste mundo?  Devo mentir e dizer que esta vida faz sentido ou devo dizer que apesar de crer em Deus, acredito que estamos por nossa conta e risco, entregues aos caos do mundo, a todos os tipos de poluição, à hipocrisia, à falta de imaginação,  à falta de água, à falta de  bons empregos, à falta de espaço para respirar e ser a gente mesmo?

Quando meu filho partir o coraçãozinho dele em seu primeiro amor não correspondido, como devo consolá-lo? Devo dizer que das próximas vezes doerá menos? Não, não dói menos. Dói sempre do mesmo jeito, com a mesma violência. A questão é que a maioria finge que não está nem aí. Sinto meu coração atualmente tão partido quanto ele estava aos 12 anos e escrevia poesias de amor para um garoto da classe que amava os meus textos...apenas meus textos. Escrever textos e partir o coração é o que tenho feito de melhor... E se um possível filho tiver este pendor para a arte e para o amor , o que devo eu fazer?


Devo chorar junto com ele , dizendo que a mamãe também está confusa e que talvez fosse melhor a gente  curtir o barato de uma música juntos para esquecer temporariamente que tudo anda fora do ritmo?






Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas

6 comentários:

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  2. Oiii Fantástico seu posicionamento enquanto pôr alguém no mundo!!! Realmente a maioria das pessoas têm filhos pelo simples fato de seguir a manada... Tem porquê todo mundo tem. Eu fiquei com a segunda opção, que é ter sim, mas mostrar o mundo fora do olhar social e longe das regras estabelecidas... A sociedade impõe parâmetros somente a quem não tem capacidade de se diferenciar.

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    1. Muito obrigada pelo comentário, Waleska. Acho que independente da escolha que fazemos, é preciso que ela seja consciente! Seguir a manada como vc escreveu é sempre um caminho muito triste! Abs!

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  4. Sílvia, ter filhos deveria, como tudo na vida, ser uma capacidade de escolha e fruto das próprias vontades, não meros sonhos ou imposições. Pelo menos, sei que tens clareza suficiente dessa questão.

    Falando de forma sintética do que você propõe no texto, eu li muito, por se tratar em alguns aspectos de uma extensão (pra alguns, cópia piorada) de Kant, Piaget e aprendi, de fato, que, querendo ou não, somos seres sociais, referenciais e vivemos basicamente três fases de desenvolvimento moral: anomia, heteronomia e autonomia. Não sei se já leu sobre isso, mas resumidamente te diria que, ao invés de te preocupar com as respostas, um pai ou uma mãe deve se preocupar com as ações e exemplos certos. De fato, é isso que alicerça uma personalidade e um ser humano autônomo, tão raro em nossos dias.

    Apenas pra concluir, ao ler todas essas tuas dúvidas do que dizer pra um filho ou filha ou, então, como apresentá-los à dureza da vida sem que percam a essência, a pureza e a ludicidade importantes pra essa etapa da vida, lembrei do que, uma vez, disse o Prof. Cortella em uma palestra. Ele perguntou se alguém na assistência sabia o porquê o primeiro ato de uma criança ao nascer era chorar. Ele sorria e dizia: "Ela, por razões óbvias, percebe que não fez um bom negócio." Nove meses dentro de uma "cápsula" isolada de todo mundo, confortável, sendo alimentado (a), quase sempre em silêncio ou só com ruídos muitos baixos, temperatura agradável, dormindo quase 16hrs por dia, até que, certo dia, alguém resolver te expulsar de lá, não diz o porquê, te força a passar por um lugar nada agradável, te dá um tapa na bunda de boas vindas e te larga num mundo onde você terá que aprender a se virar? Que troca justa ou que ganho é esse? Rs Não é à toa, como diz ele, que quando estamos tristes e/ou com dores, físicas ou emocionais, ficamos em posição fetal e de preferência em lugar escuro como o feto, pois ela nos relembra o conforto vivido nessa fase inicial de vida. :)

    De fato, "que vida maravilhosa essa!". Heheh

    Abçs e ótimo começo de semana!

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    1. Gostei da referência à posição fetal RSRS Nunca tinha parado para pensar nisso RSRS Abs!

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