sábado, 12 de março de 2016

Acho que no fundo invejo os homens

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
Sim, acho que invejo os homens. Para eles, as portas se abrem e não é preciso se fazer tantas escolhas. Homens não precisam escolher entre carreira e paternidade. Homens não precisam escolher ser alguém intelectualmente expressivo ou alguém "amado". Mulheres buscam homens brilhantes. Homens buscam mulheres adaptáveis.
 
Mulheres se adequam à realidade masculina. Homens constroem sua realidade e a completam com uma mulher como quem coloca uma Barbie numa casinha de bonecas.
 
As mulheres mergulham no universo masculino. Homens boiam calmamente em suas realidades, em seu habitat, em sua zona de conforto. Se eles gostam de praticar esportes, a namorada sedentária começa a correr com eles às cinco da manhã. Se eles frequentam culto religioso assiduamente, a namorada apenas espiritualizada começa a frequentar também. Se eles arranjam um emprego bom em outro estado , a mulher normalmente larga tudo para segui-lo.
 
Os homens sonham e as mulheres se sacrificam. Sim, invejo os homens e sua favorável posição de não precisarem escolher. Só quem está acostumado a renunciar, sabe como pesa ter que abrir mão de A para obter B. A gente nunca pode ter tudo.
 
Queria encaixar alguém nos meus sonhos também. Queria alguém que acendesse meu cigarro imaginário e me olhasse nos olhos como quem olha para sua salvadora. Sim, queria ser um bicho estranho, meia bruxa e meia santa. Uma deusa bizarra e provedora com hábitos primitivos e um intelecto invejável. Quase um ser mitológico. Metade gente. Metade divindade.
 
Não quero correr na praça às cinco da manhã. Nem às seis. Nem às oito. Não quero correr. Não quero voltar à frequentar cultos religiosos. Quero viver minha fé em paz. Não quero ser obrigada novamente a abrir mão da  minha família e carreira por um amor. Não quero comer churrasco na casa de um parente qualquer do meu namorado todo domingo.  Amo churrasco e  nada tenho contra socializar com parentes do namorado, mas enche o saco quando comer lasanha na casa da avó  ou fazer churrasco na casa dos pais ou dos tios do namorado vira rotina, vira o ponto alto da relação. Quando vira quase uma obrigação, principalmente quando não se é casado ainda. Quando não se tem filhos com o moço em questão.
 
Não quero viver aquele tipo de namoro modorrento de sofá em que um programa de TV qualquer enche a sala enquanto o cachorro late, o sobrinho pequeno grita e bota caca de nariz no cabelo da sobrinha que chora e esperneia. Não quero ter que repetir 3 ou 4 frases prontas para ganhar a simpatia de mulheres 40 anos mais velhas do que eu, que cresceram com valores muito diferentes.  Me desculpe se a minha fala soa pedante, mas já passei da fase de ter que aturar o som de programas de auditório aos domingos e conversa fiada de gente que só está especulando. 

Peço desculpas novamente, mas esta coisa de juntar o clã regularmente para encher o bucho e tomar cerveja na latinha destrói a vida erótica afetiva de qualquer casal que não tenha QI negativo.
 
Não quero ser obrigada  a tomar Coca-Cola choca enquanto me empanturro de maionese e carne assada para suportar o tédio. Ok.Ok.Ok. Carne assada com maionese é uma combinação bem saborosa. O problema é ter que comê-las no meio da balbúrdia, sentada num canto do sofá , fazendo média, suportando a malcriação de crianças que não foram bem educadas, tentando ser gentil o tempo todo com pessoas que lá no fundo só me consideram um acessório na vida do filho, do sobrinho, do neto. Pessoas que deixariam de me tratar bem se contrariasse o menor dos desejos do homem da família.
 
Eu queria mesmo era viver um romance. Sim. Fazer um tour gastronômico pela cidade, explorando as potencialidades do paladar. Um dia , comida tailandesa.  No final de semana seguinte,  comer um sanduba artesanal num food truck. Numa quarta-feira à noite qualquer ( Esta coisa de se encontrar apenas de final de semana me soa muito provinciana) comida indiana ou mexicana. Ou numa quinta, sair para comer suflê e depois andar pelas ruas meio sem rumo, dando risadas bobas e compartilhando um cigarro. Quero comer crepes no café da manhã de um dia livre qualquer e depois andar apenas de calcinha pelo apartamento como quem respira sexo. Como uma daquelas modelos liberais e meio indecentes de pintores boêmios.
 
Eu queria um homem que fizesse um curso de vinhos comigo. Que aprendesse a harmonizar vinhos e queijos , embora acredite que o paladar de cada um seja soberano. Queria fazer uma mesa de queijos e vinhos , rodeada por velas ornamentais e um cd de canções francesas ao fundo.  Eu queria um homem que me acompanhasse em sessões de cinema alternativo e depois tomasse uma garrafa de vinho comigo, comentando o filme.
 
Eu queria um homem que me levasse à feira de sábado para comprarmos ingredientes frescos para preparar uma boa refeição equilibrada,  brincando que somos saudáveis. Enquanto descasco as batatas, ele raspa as cenouras e a gente briga pela última taça de um vinho branco suave. Quero um homem que abra a garrafa de vinho para mim enquanto boto os pratos na mesa para nós dois ou para um casal de amigos que vai comentar sobre assuntos que nos interessam, sem precisar fazer média, sem um script pré definido.  Amigos que terminem a noite tomando limoncello e vomitando confidências íntimas.
 
Eu queria um homem que dividisse comigo uma boa massa  numa cantina tradicional ao som de uma tarantella depois de ter visto uma peça de teatro do cacete! Eu queria um homem que debatesse sobre um quadro qualquer e depois fizesse amor calmamente. Eu queria um homem que filosofasse comigo e depois fizesse amor furiosamente.
 
Eu queria um homem que topasse passar uma noite qualquer num hotel da cidade e ao comer croissants quentes pela manhã, imaginasse que estivesse em algum bistrô de Paris. Eu queria um homem que me fizesse sentir como se estivesse em Montmartre sendo pintada por um artista de rua, depois de ter tomado uma jarra de vinho branco bem gelado e uma porção de scargots.
 
Eu queria um namorado que passasse um feriado prolongado em Buenos Aires e que depois de saborear uma boa carne suculenta e um vinho encorpado, me levasse para ver um show de tango. Eu queria um namorado que dançasse tango comigo, mesmo que fosse apenas no quarto. Eu queria um homem que não tivesse medo de tomar chuva comigo.
 
Eu queria um homem que me acompanhasse na exploração de bares boêmios da cidade  e que não tivesse medo de experimentar novas iguarias, tanto na mesa como na cama.  Eu queria um homem que me visse e me quisesse como uma mulher plena e não como uma tolinha que ele manipula e abre as pernas para ele uma vez por semana depois de ter se empanturrado de lasanha mesmo sem querer, só para não fazer desfeita.
 
Sim, invejo os homens pois eles são autores de suas vidas. A nós cabe ser mera personagem, um fantoche bobo ou uma mulher sozinha.
 
 
 

 
 
 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 








 
 
 
 
 
 
 

6 comentários:

  1. Não, eu não sinto inveja do homem. E também não considero a mulher uma simples personagem. Só não consigo entender como é que o homem tem tudo para ser feliz e deixa se perder por puro machismo ou ignorância. Os homens podem ser e ter tudo isso que você citou. Mas, acredito que pra eles sejam incomodo demais. Pois, eles estão nem aí para as coisas. Eles não se importam muito e nem reparam muito nas coisas. E eu prefiro ser mulher. Prefiro acreditar na versão da existência da Lilith. Que fomos criados do mesmo barro e não de uma parte da costela de Adão. Me faz compreender melhor as diferenças entre homem e mulher. Me faz amar mais ser mulher. Ser a questionadora, ser aquela que deseja está na mesma igualdade com o homem. Nem submissa e nem acima dele. Aquela que sofre para escolher entre A e B. Porque, pra ela é sofrimento ter que abrir mão de um, pois, pra ela os dois são essenciais. Ser aquela que sente os sentimentos e as emoções. Ser aquela que dar amor e também deseja ser amada. Ser aquela que sensível porém forte ao mesmo tempo.

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  3. Concordo que a natureza feminina seja mais complexa e interessante, mas culturalmente falando estamos enredadas numa teia de mediocridade. Se resistimos a esta teia ( nosso caso) só nos resta ser sozinhas. Obviamente , existem casais que andam juntos, lado a lado. Mas cada vez mais eu noto que quem escreve o script ainda é o homem por mais liberal e bacana que ele pareça.

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  4. As vezes desacredito na hipótese da "Grande luz divina" e chego a pensar que Deus é homem. E que tenho que aceitar frustradamente que vim da costela do Adão. E me aceitar como pecadora filha de Eva que carrega no sangue uma descendência de desobediência e por querer saber algo mais sobre a verdade.

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  5. Vc está ainda mais poética nesta manhã de domingo, que promete uma tarde turbulenta RS Sim, também fico neste vai e vem, Darlin. Me sinto filha de Lilith, mas sou cuidada pela madrasta Eva.

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  6. Tentei ter um diálogo sobre isso com o meu pai. Aí, ele me questionou porque que eu fazia teatro. Se era pra ficar frustrada com as verdades existências. Dei uma gargalhada irônica e desistir de insistir no assunto. Felicidade é encontrar quem realmente goste de ir fundo. Mesmo sabendo que a verdade liberta e que também pode te frustrar.

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