sábado, 22 de outubro de 2016

Sobre palavras e despudores

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
Existe qualquer coisa de muito impudica na intimidade. Existe um quê profundamente indecente no calor das confidências insensatas.
Existe certo tremor tépido nas palavras que deveriam ser caladas no fundo da alma.  Mas por que calá-las? Por que calar as palavras que têm como missão inundar o mundo com suas imprudências e incertezas, colorindo tudo com o seu caos mágico e nefasto?
Construímos e descontruímos castelos imaginários com uma simples palavra ou com apenas a sugestão dela.
Desbravamos terras distantes, reencontramos paraísos perdidos com um impensado eu te amo.
Vestimos e despimos fantasias variadas enquanto nos perdemos , vagueando tontamente pelos labirintos da linguagem.
Descobrimos a nós mesmos e ao outro. Ao outro e aos outros que dançam em nossa alma , esperando apenas por uma distração nossa para ocuparem o proscênio.
Sim, existe qualquer coisa de muito impudica na intimidade. Existe algo de muito comovente nas palavras trocadas no calor do momento.
Sim, existe um quê profundamente indecente no calor das confidências insensatas. Existe qualquer coisa que une aqueles que se abrem com um fio invisível, indizível. Algo que vai além das próprias palavras.
Sim, existe certo tremor tépido nas palavras que deveriam ser caladas no fundo da alma.  Existe um deslumbrante horror diante daquilo que não cabe em nenhuma palavra , daquilo que rasga os limites da linguagem e se instala na carne.
Te amo tanto e tão insanamente que mal posso dizer as palavras mágicas. Elas não traduzem o que sinto. Elas são um esboço pálido do meu desespero íntimo. 

Elas são uma encenação barata , feita por atores amadores num teatro vagabundo perto daquilo que me penetra a alma.  Não há nada mais lugar comum e charlatão do que dizer ao homem da sua vida que ele é o homem da sua vida. As palavras estupram a verdade,  a  tornam piegas e absurda.  Quase mentirosa.
Balbucio. Tonta. Frágil. Forte. Inquebrável. Estilhaçada por dentro. Sinto mais ferozmente o que não digo.

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 







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