sábado, 17 de outubro de 2015

É preciso ir fundo...

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 

Tendemos a achar que uma pessoa é amada por suas qualidades positivas. Tendemos a achar que uma pessoa encanta por sua doçura, por sua generosidade. E pessoas doces e generosas realmente encantam! Como não?

Mas, por outro lado, entretanto, todavia, muitas vezes, o que nos pega de jeito é uma mania, um cacoete sexy, uma conexão perversa, um vício em comum, um gosto pelo desafio, um desejo coincidente de jogar um jogo perigoso.

Muitas vezes  é o sorriso assimétrico, o jeito impertinente de dizer uma coisa banal, o apetite do olhar que nos arrasta para a terra das sensações insólitas.

Desprezamos um defeito, uma bizarrice , um nariz levemente torto, um jeito displicente de andar, uma falta de jeito para fazer qualquer coisa sem saber que este defeito pode ser o efeito colateral de algo maravilhoso...ou não...de repente, são os nossos desvios e nossos aspectos tortuosos que nos fazem ser quem somos.

Como diria Clarice Lispector, nunca sabemos em qual defeito se alicerça uma virtude.

Somos pacotes completos e precisamos amar e querer e beijar cada uma das cicatrizes do outro, as do corpo, as da alma. Precisamos aspirar o seu odor e sentir além do seu perfume. Precisamos ir além do nojo, do medo.

Precisamos ir além do verniz do belo para se engalfinhar com a intensidade e a perplexidade do medonho. É preciso penetrar a alma alheia de olhos abertos.

 

 
 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.
 
 
 
 



Pessoas no lugar errado são como pum no elevador

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
Para a cultura brasileira, lugar de pum é no aconchego do lar, de preferência na solidão do quarto ou de qualquer outro cômodo não compartilhado por ninguém. Pum no elevador pode ser asfixiante, principalmente se for um prédio com muitos andares...o "aroma" vai se desvanecendo como um tecido degrade.  Do insuportável passa-se para o simplesmente desagradável.
 
Um pum no lugar errado sempre me causa um desejo de rir muito, principalmente se ele não for acidental. Gosto do pum protesto. Gosto do pum engajado. Gosto do pum na linha de frente, denunciando o sistema.
 
Mas voltando à metáfora inicial,  pessoas no lugar errado são como puns no elevador porque elas estão inadequadas. Elas estão desconfortáveis e geram desconforto e constrangimento nos outros.
 
Descobrir seu lugar no mundo é o mínimo que uma pessoa precisa  fazer para ter uma vida digna de ser chamada de vida.  Se o cara ou a cara não consegue nem ao menos saber em que lugar deve se colocar, se mata. Na boa, se mata. Ou se assuma como um hamster ( sem querer ofender os hamsters)
 
Ok.Ok.Ok. Muitas vezes somos obrigados a estar onde não queremos. Contingências da vida. Por outro lado, não consigo compreender por que tantas pessoas optam por aquilo que elas não querem tendo a chance de escolher outra porra qualquer.
 
Ontem mesmo estava falando com alunos meus sobre o tema. Está preocupado apenas com mercado de trabalho? Refletir, elaborar intelectualmente, juntar duas ideias aparentemente distantes não é a praia do cidadão? No problems. No stress. Mas procure um curso técnico ou mercadológico que ensine a apertar parafusos, dar lustro em botões ou qualquer outra porrinha bem objetiva que te garanta um emprego e um salário no fim do mês.
 
 
Universidade é espaço para debate, reflexão, desenvolvimento e aprimoramento da inteligência.  Não te interessa? Não gera lucros para comprar o tênis da moda? Curso mercadológico! Não entra na tua cabeça?  Não gera status para as rodinhas das baladas da moda? Curso mercadológico!   Seu sonho é vestir um terno ou um tailleur e fazer palestra motivacional, "ensinando" como como conquistar o sucesso em 7 passos com uma trilha musical ao fundo? Curso mercadológico! 
 
Todo trabalho é bom e digno quando feito com competência, amor e dedicação. Não se force a algo que te estupra intelectualmente.
 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.
 
 
 
 



sexta-feira, 16 de outubro de 2015

É preciso esfolar a pele da alma

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
Sim, é preciso esfolar a pele da alma. Bem, pelo menos esta é a filosofia de vida de algumas pessoas que precisam de catarse como a Humanidade precisa de oxigênio.
 
Dizem que o quinto elemento é o amor. E qual é a essência do amor romântico? Não tô falando de amor construção, amor companheirismo, amor sopa compartilhada na hora do jantar. Tô falando daquele amor que não é amor , que todo mundo sabe que não é amor e quer assim mesmo. Acho que o nosso quinto elemento é a emoção.
 
Quando buscamos um filme para ver ou uma peça de teatro, temos mais ou menos três possibilidades básicas: rir, chorar ou sentir medo. Alguns seres esquisitos e doentios como eu escolhem filmes para se instruir e refletir também. Mas não falarei deste tipo patológico de gente.
 
As pessoas se espantam quando alguém afirma gostar de filmes de terror e dizem com a boca cheia:"Eu gosto de comédia! Eu gosto de relaxar!". Quanta falta de imaginação, meu Deus...e quem disse que não é possível relaxar se cagando todo de medo?  Se eu tiver num mau dia, se eu tiver por conta de todos os cães, como diria Sinhozinho Malta, um filme de terror me relaxa muito mais. Nos dias calmos também. Se eu estiver nervosa e vir alguém com cara de idiota escorregando numa casca de banana ou enfiando o pé num vaso sanitário, não irei relaxar nem um pouco. Sou muito exigente para humor. Tem que ser inteligente.
 
Enfim, quem busca um filme para rir busca algo muito semelhante a quem procura um filme para sentir medo ou chorar: catarse.  Quem quer rir, chorar ou temer, quer sentir. Quer esfolar a pele da alma.
 
Somos induzidos a uma vida calma e metódica, com horários preestabelecidos, com fórmulas fechadas e frases prontas. Mas a nossa natureza anseia pelo imprevisto, pelo inusitado.  Somos lobos em pele de cordeiro. E quando falamos "Finalmente amadureci" estamos apenas tentando acreditar que a catarse já não faz mais a nossa cabeça.  Estamos tentando evitar o inevitável: atirar-se na vida como um animal selvagem que agarra com unhas e dentes as suas presas.
 
Sim, nascemos para a catarse. Sim, nascemos para quebrar a cara , tropeçar, cair de boca no chão, levantar , limpar o sangue com as costas das mãos , seguir em frente para cair logo em seguida.  E quem cria jogos e artimanhas para fugir do caos natural,  vive com cara de quem precisa tomar Atroveran. 
 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

Sobre medos simbólicos. É preciso acender a luz do quarto

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
Quando alguém afirma ter medo de um dobermann ou de ser assaltado , ninguém pergunta "Por quê?" Parece óbvio o que um dobermann ou um assaltante podem fazer contra a gente.
 
Por outro lado, as pessoas mesclam expressões e olhares de curiosidade, perplexidade, leve ironia ou profundo interesse quando alguém afirma ter medo de bromélias ou de azulejos com bolotas gigantes.
 
O que uma bromélia ou um azulejo podem fazer contra alguém? Morder, atacar, espoliar?  Na verdade, ninguém tem medo realmente de bromélias ou azulejos. Vou mais longe. Ninguém tem medo do escuro. Como não?????????????????? perguntaria alguém indignado contando diversos relatos de sobrinhos, afilhados e vizinhos que padecem ou padeceram deste mal.
 
Como professora dedicada que sou, me explico. Embora o Garota desbocada não seja espaço para explicações. Achamos que tememos o escuro ou a bromélia. Mas na verdade, tememos algo que o escuro ou a bromélia representa. É um lance bem semiótico mesmo. Ou psicanalítico. Psicanálise é semiótica pura. Inclusive existe uma linha chamada Semiótica psicanalítica.
 
Há muitos anos temo bromélias. Só de vê-las me dá uma sensação ruim, realmente esquisita. Algo relacionado a ameaça. Uma vez, sentada no lobby de um hotel, me dediquei a tentar descobrir qual dos três vasos com bromélia era mais horrendo em minha opinião.
 
Para a Psicanálise, as formas circulares se relacionam ao feminino enquanto que as pontiagudas, ao masculino. Ok. Já começaram a sacar? Esta explicação não me convencia muito porque nunca tive medo dos homens. Ou achava que não tinha.
 
Analisando mais cuidadosamente a questão, descobri que as bromélias representavam um tipo bem específico de homem. Homem abarrotado de testosterona. Um tipo de homem com uma energia masculina mais brutal.  Sim, a professorinha que buscava tipos meigos com cara de pai de família dentro de seus pijaminhas azuis ,  queria na verdade um estilo mais motoqueiro. E quem pagava o pato eram as pobres bromélias com suas folhas pontudas, representando um tipo de sexualidade que em minha cabeça poderia me ferir.
 
Não se iludam, meninas. Homens com carinhas meigas do típico pai de família sabem ferir como ninguém.
 
Vamos ao escuro? Crianças e alguns adultos temem o escuro e imaginam ver silhuetas humanas quando olham para o amontoado de roupas do cabideiro.  Quando estamos no escuro, a imaginação flui e tudo pode ser, tudo pode acontecer. Basta acendermos a luz para ver que a silhueta maligna nada mais é que nossas inofensivas roupas do dia a dia e um chapeuzinho estiloso.
 
O escuro aparece como signo da dúvida, do desconhecido. E a gente se caga todo diante do novo. Quantas pessoas não escolhem uma vida de merda conhecida à possibilidade de uma nova vida muito melhor?
 
É preciso acender as luzes do quarto, da sala, do coração.  É preciso encarar os próprios desejos, as próprias dúvidas.  É preciso encontrar-se com aquilo que escondemos de nós mesmos. É preciso ver o que se esconde por trás das bromélias....
 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.
 
 
 

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Amantes e celulares

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Algumas pessoas subaproveitam as potencialidades de um celular. Com um sofisticado aparelho capaz de tirar fotos, fazer vídeos, navegar na internet  e o diabo a quatro, a pessoa se restringe a fazer e receber ligações e na melhor das hipóteses mandar um SMS. Meu caso, diga-se de passagem...

Outras pessoas negligenciam seus amantes, subaproveitando-os de uma maneira tão aviltante que eles deveriam perder o direito de fazer sexo.

Sim, mau fodedor deveria ser punido com a castidade perpétua. Mau fodedor e má fodedora também. Pois seremos justos. Tem muita mulher roda presa por aí.  E quando digo mau fodedor , não me refiro a homens ansiosos ou desajeitados na cama. Para estes tem cura. Me refiro aos egoístas sem imaginação que fazem sexo com a mesma mesquinharia com que vivem suas vidinhas medíocres.

Uma mulher olha para seu parceiro com olhinhos brilhantes e traquinas e com sua voz meio sussurrada, meio despudorada, meio envergonhada, diz: "Pode fazer comigo o que quiser".

A tal mulher imagina que o parceiro vai tirar uma foto com efeitos especiais  ou fazer um vídeo  e enviá-lo às redes sociais ou acessar o Whatsapp...mas não. Ele se restringe a mandar um SMS , dizendo um "Obrigado" com gosto de salada de chuchu sem sal nem pimenta do reino.

Obrigado??????????????????? A mulher pensa: "Eu não fiz uma gentileza ou favor para receber um obrigado. Eu não lavei as cuecas dele nem fiz uma faxina geral na casa  para receber um obrigado ou um sorriso terno".  Falando nisso, o que significa um sorriso terno depois de uma proposta indecente?  Casais trocam sorrisos ternos andando de mãos dadas, apreciando o pôr do sol, colhendo flores nos campos da imaginação. 

Quando uma mulher diz com todas as letras ou insinua com um olhar brilhante ou um sorriso assimétrico, que deixa o rosto um tesão pouquíssimo confiável, ela não quer sorrisos ternos, porra! Ela também não quer ouvir obrigado, que legal ou coisa do gênero. Ela não está te dando um presente ou pagando sozinha um almoço num restaurante caro.

 Ela quer que você explore as potencialidades dela.  Ela quer que você faça fotos incríveis, nos mais variados ângulos. Ela quer que você faça vídeos psicodélicos , com trilha sonora intensa, cheia de gritinhos roucos, e enquadramentos ousados, intercalando primeiros planos ultra intimistas com  alguns contra plongée que a farão parecer uma deusa pagã. 

Ela quer que você acesse todas as suas conexões, expandindo os horizontes das possibilidades triviais. Nenhuma mulher quer esta história de plano e contra plano a vida inteira. 

Quando uma mulher diz "Pode fazer comigo o que quiser", na verdade ela está te dando um presente de grego. Na verdade , ela está te dando um baita trabalho.  Na verdade, você está lascado. Encara?

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Um chandon na mão e mil ideias na cabeça

Garota desbocada é um espaço esteticamente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações RS Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
Começo este artigo parafraseando Glauber Rocha.  Pessoas de fato lúcidas precisam ser reverenciadas sempre.  E enquanto segurava a minha taça de Chandon, almoçando sozinha, saboreando a minha comida sem pressa, deglutindo meu espumante com goles curtos, segurando a taça longa com um prazer erótico ( taças longas são bem fálicas) não me importei de estar sozinha. Só consegui pensar na massagem maravilhosa que viria depois.
 
Só consegui pensar que viria uma vida inteira pela frente, cheia de portas para serem abertas, janelas puladas e milhares de taças de Chandon deglutidas.
 
Só consegui pensar que viria uma vida toda pela frente , cheias de momentos inusitados,  corridas alucinadas rumo ao desconhecido, milhares de massagens relaxantes.
 
Só consegui pensar que viriam muitos beijos roubados debaixo da chuva e outros clichês baratos como entrar num quarto de hotel acompanhada,  derrubando abajures e outros objetos entre a porta e cama.
 
Só consegui pensar em todas as taças que seguraria com mãos trêmulas, bebericando em goles curtos e sem pressa sabores exóticos.
 
Só consegui pensar nos aromas que me levam para os mais variados tempos da minha vida. No inebriante cheiro do perfume exalando da pele suada depois de uma corrida sem muita razão de ser. Vivemos com pressa.
 
Só consegui pensar nos amores passados que ressurgirão aperfeiçoados nos futuros, no futuro. Só consegui pensar nas iguarias que degustaria, costelinha de porco ao molho barbecue, batatas coradas desmanchando-se na boca, raspa de arroz comida diretamente da panela, molho de pimenta sobre a comida insossa reconfigurando o paladar como uma emoção qualquer condimenta a alma.
 
Só consegui pensar nas minhas músicas favoritas e nas outras que eu ainda não conhecia e ouviria até a exaustão.
 
Só consegui pensar em teus olhos que encontram e fogem dos meus. Da tua boca que nega dizer meu nome. Nos beijos imaginários com gosto de Chandon bem gelado.
 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.
 
 

terça-feira, 13 de outubro de 2015

De qual lado da força você está?

Garota desbocada é um espaço esteticamente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
Assisti a uma palestra deliciosa do professor Clóvis de Barros Filho sobre alguns conceitos fundamentais para entender o pensamento de Nietzsche.
 
Como o Garota desbocada não é espaço para blá blá blá acadêmico, como o Garota desbocada é o meu cantinho profano e dos prazeres irreverentes, me restringirei a falar sobre uma ideia que me fez rir sozinha num  múltiplo orgasmo intelectual.
 
Nietzsche defendeu que havia dois tipos de forças: as ativas e as reativas. Colocando num Português bem claro e ao gosto do professor Clóvis , quem tem forças ativas são os fodões, são os caras e as caras que fazem e acontecem. Para Nietzsche os artistas apresentavam o máximo da potência! Porém, arte vai além de pintura, literatura , música e o cacete a quatro. Uma aula dada com tesão , um trabalho qualquer feito apaixonadamente é uma espécie de arte para Nietzsche.
 
Já os que apresentam forças reativas , são, como o próprio professor Clóvis falou e eu amei de paixão: os empata foda. Os cuzões de plantão que ficam regulando o gozo alheio. O mundo burocrático para Nietzsche é o mundo dos reativos.  Eu era nietzschiana e nem sabia...me dá calafrios e vontade de delirar até a morte só de pensar em resolver qualquer procedimento burocrático.
 
Peça meu coração numa bandeja de prata, me peça fidelidade , amor eterno, me peça para relacionar Bauman, Aldous Huxley , Nietzsche, Deleuze, Foucault , Teoria da Comunicação com artes em geral e tragédias da vida , mas não me peça para ler um edital ou preencher um formulário...eu não sei, eu não entendo, eu começo a suar e a tremer como um neurótico de guerra!
 
Mas voltando aos reativos, é aquele tipo de colega que nunca gosta de nenhum projeto novo porque as coisas estão funcionando mais ou menos do jeito que estão. Não são grande coisa, mas pelo menos é um ruim familiar.
 
É o chefe que só lembra que você existe quando você faz cagada para dar uma enquadrada gostosa em você.
 
É o amigo broxante que se sente um merda e faz de tudo para você se sentir uma bosta.
 
É o professor mais preocupado em anotar falta. É o aluno mais preocupado em responder chamada. É todo merdinha que gosta de jogar água quente no chope alheio. É todo merdinha mais preocupado em alfinetar e ferrar e vigiar os outros do que desenvolver a própria energia vital.
 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.