Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
A garota desbocada de hoje se inspirou num post do Facebook. Soou meio banal, não é? Estilo café expresso bebido às pressas , rumo ao trabalho ou fast food devorado entre dois compromissos quaisquer?
Sim, posts têm um quê de banal. Mas podem nos dizer muito com poucas palavras. A gente bate os olhos e se sente atropelado por uma manada , como diria Luis Fernando Veríssimo em sua melancolicamente hilária crônica "O dia da amante".
Sim, me senti atropelada por elefantes coloridos , fazendo uma dança erótica depois de encherem a cara com Balalaika.
Sim, me senti dançando junto com eles, meio louca de tanto rir sozinha, enfadada com os próprios encontrões que dou vire e mexe andando pelas ruas esburacadas da vida.
O post dizia o seguinte: Faça com tesão ( ou não faça). Ok.Ok.Ok. Nem sempre dá para fazer tudo com tesão. Dá para imaginar alguém fazendo com tesão o seu bilhete do metrô numa manhã calorenta? Dá para esperar pela sua senha entre gemidos roucos e arrepios na pele?
Dá para conduzir com tesão aquele papo chato, estilo "me pegaram para Cristo?" Dá para sentir tesão quando a gente é obrigado a fazer qualquer coisa mega importante que a gente não quer? Fico impressionada como as tarefas mais urgentes do dia a dia são normalmente as mais chatonildas.
Por outro lado, podemos sim escolher viver com doses maiores ou menores de tesão. Ou tensão. Podemos sim escolher prolongar momentos cansativos, conversas chatas, relações extenuantes e vampirescas, trabalhos insuportáveis.
Podemos sim decidir relaxar e curtir o que a vida oferece de bom grado e sorrindo ou nos deixarmos levar pelo estresse, por aquilo que poderia ser feito no dia seguinte.
A grande verdade é que não sabemos priorizar: a louça suja sobre a pia rouba ricos momentos de romance. As chatices do trabalho contaminam o sabor das refeições, dominam as conversas, a necessidade de fazer tudo para ontem sequestra o melhor da vida e o pior de tudo: não pede resgaste.
Sim, volto a dançar com os elefantes coloridos. Volto a me mexer sob o som de suas risadas imaginárias. Rio junto...ou choro? Não sei. O gosto da Balalaika simbólica me confunde. Só sei que quero sorver e sorver e sorver ...sem entender. Possível? Possivelmente sim. Provavelmente não. O que me resta é me deixar levar pelo momento que se esvai.
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.