terça-feira, 29 de março de 2016

Quem sou eu? Não faço a menor ideia!

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Cansei de correr atrás do meu verdadeiro eu. Quando bem jovem, no terceiro semestre do mestrado, achei estranho quando colegas meus brincaram com a impossibilidade de se definirem. De saberem exatamente quem eles eram.

Comecei a degustar tal pensamento, mas não pude engoli-lo. Na minha cabeça, eu sabia exatamente quem eu era e o que eu queria.

Sim, algumas piadas a gente custa a entender...o famoso "cair a ficha" leva um tempinho ou um tempão. 

A gente passa a vida correndo atrás da gente mesmo, se buscando nas brechas do mundo, nas brechas dos outros. A gente passa a vida tentando se ver no olhar dos amantes, dos amigos, de todos aqueles que mais amamos ou odiamos. 

A gente passa a vida tentando esboçar um contorno fiel de nós mesmos a partir da subjetividade do outro. O outro outro mesmo. E o outro que existe na gente. Ou outros que existem na gente...

A gente pode ser tanta coisa que nem imagina e não ser o que a gente pensa ser. Papo de louco? Em parte...

Na minha opinião não existe maior loucura ou maior falta de lucidez do que não se imaginar louco ou perdido. Sim, estamos perdidos, à deriva...agradando ou não esta ideia. É, não adianta fazer beicinho não como uma criança que olha cheia de repulsa para um prato de espinafre ou qualquer outro treco verde.

Agradando ou não, a gente tem que comer o verde da verdade que de verdade tem muito pouco. Como diria Lacan, a verdade está no campo do real e o real nos é impossível de alcançar. É  tesouro ou dejeto escondido a sete chaves num cofre com a senha esquecida. 

Temos que conviver com a mentira mesmo ...mais do que isso...com centenas de versões da mentira...e acabamos , muitas vezes, por nos apaixonar pelas duas ou três versões que parecem mais verdadeiras e que talvez sejam as mais falsas...pérolas falsas são mais vistosas do que as verdadeiras...

É, não tem muito jeito não. A gente tem que ir para a cama toda noite com um impostor. A gente tem que acordar toda manhã, se espreguiçar e abençoar ou maldizer o dia com um impostor que pode ser o mesmo ou não que foi dormir com a gente.

A gente tem que servir chá com torradas para aquele sujeito que disseram que a gente é  e depois se olhar no espelho num misto de perplexidade, encantamento e cinismo. "Quem sou eu"? Não inventaram ainda pergunta mais difícil...

Saudade do tempo do Orkut em que eu preenchia este campo com a maior tranquilidade do mundo. Com minha linguagem refinada de escritora intelectual salpicada por fragmentos de provincianismo de moça tradicional, católica, bem comportada, sempre com um livro debaixo do braço, um suspiro no olhar , esperando pela grande virada,  que queria explodir sem causar estragos. Que queria transformar insanidade em virtude. Talvez a insanidade seja uma virtude mesmo..talvez a insanidade de fato seja acreditar que estamos separados entre sãos e insanos. Talvez o insano seja apenas o são que leu um ou dois capítulos a mais do livro da vida. 










Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 















sábado, 26 de março de 2016

Auto retrato com cores gritantes

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Chega um momento da vida em que não dá mais mentir para a gente mesmo. Que não dá mais para criar ilusões a respeito de tudo que a gente poderia ou gostaria de ser.

Chega um momento em que a gente se assume como um quadro sem moldura nem retoques. Que a gente se assume como poesia inacabada, texto sem revisão, melodia intensa executada por orquestra sem maestro, ator que esqueceu o texto no proscênio.

É, não tem muito jeito não. A gente tem que se aturar, gostando ou não.  A gente tem que esperar menos de nós, parar de exigir aquilo que não podemos dar porque não temos.

A gente tem que aceitar com menos desespero as nossas lacunas,  as teclas quebradas, os detonadores que sempre fazem a gente desafinar, que fazem a gente desenlaçar.

A gente tem que olhar para o nosso próprio vazio e compreender que é isso mesmo. Como diria Clarice Lispector, nunca sabemos sobre quais defeitos as nossas virtudes estão alicerçadas.  Se pudéssemos extirpar o pior , jogando no triturador com os restos de pizza amanhecida, correríamos o patético e ingênuo erro de atirarmos junto com nossas nefastas manias, o que nos faz magnéticos e insubstituíveis , nem que seja pelos próximos 15 dias.

Sim, sou difícil. Dou o meu melhor e não aceito menos do que eu consigo dar.  Sim, sou difícil. Me peça o que quiser, mas não tente se impor. Muito menos subestime a minha inteligência. E se me prometeu algo, não finja que o papo não é com você. Eu não blefo.

Sim, sou difícil.  Faço o meu trabalho com paixão, mas não tente tirar de mim as minhas horas de Netflix , poesia e solidão. Gosto de conforto, de tempo livre para dançar com a minha alma e deixar meu corpo eufórico. Sim, preciso de um pouco de euforia para não pirar. Sou criativa compulsiva. Preciso de café e ócio. Não consigo só fazer aquilo que precisa ser feito. Não me sinto um burro de carga. Não aceito. Eu fico puta diante de horários, dietas e pessoas opressivas!  "Preencha aqui, sem rasurar! A vida deveria ter mais rasuras,  mais improvisos, mais improvisações festivas! A vida deveria ter mais gosto de borbulha de champanhe estourando na boca. Mas sabor de chuva caindo no rosto.

Sim, dou o sangue pelos meus projetos profissionais, mas depois preciso relaxar, esticar as pernas , me espalhar no sofá, tomar uma taça de vinho, pensar sobre tudo e sobre nada de realmente importante no meu mundinho privado. Ás vezes, preciso fechar as portas da alma e mergulhar na minha perturbadora paz.  Preciso ouvir músicas que me levam para outras galáxias, que me façam pular por corredores de universos paralelos.  


Sim, sou difícil.  Sou doce e prestativa, mas não tenho paciência para regras e sistemas bobos. Não tenho saco para fingir que gosto de quem não me considera. Faço cara de merda mesmo.  Portanto, se eu te abraçar com força, sorrindo, e sacudindo o seu corpo é porque eu realmente gosto de você. É porque você mora no meu coração, caso contrário preferiria tomar banho com soda cáustica  a ter que te dar a mão e a olhar na sua cara. Não sei fazer média nem quero aprender.

Sim, sou difícil mesmo . Acho um pé esta coisa de horários rígidos, rotina inflexível. Odeio me sentir um robozinho. 

Sou uma grande defensora de uma dose de preguiça diária que nos proteja. Viver só para trabalhar e me adequar, me irrita. Confesso. Não considero nem vida. Rotina boa é aquela feita pela gente...preciso receber umas massagens de vez em quando, ler sobre Filosofia, fazer poesia, e morrer de languidez dentro de uma banheira.


Sim, sou difícil, mas sou sincera. Não saio por aí vomitando verdades na cara de ninguém, mas se vomitarem na minha , peguem um bom lençol pois o jato fica pior do que o da menina do exorcista.

Sim, chega um momento em que  percebemos que não somos um personagem que a gente idealizou. Nunca serei atlética ou adepta à geração saúde. Nunca curtirei correr na praia ou na praça. Nunca abrirei mão das minhas garrafas de vinho e Martini. Nunca ficarei de boa trabalhando o dia inteiro sem nenhum break. Sempre farei as coisas no meu ritmo. Sempre me renderei à minha reflexão e ao meu hedonismo.

Nunca sairei pelo mundo com uma mochila nas costas e um otimista espírito de aventura. Ou viajo com conforto ou fico em casa. Curto levantar cedo, mas se for por volta das sete e meia.  Nunca vou me contentar com namoros mornos, aquele estilo de coisa tanto faz. Poderia ser com você ou com qualquer outro que topasse ficar comigo. Eu preciso ser escolhida, mas acima de tudo, eu preciso escolher também. Sim, precisamos assumir quem somos sem grandes ilusões. Precisamos assumir com uma sensibilidade afetiva e lógica simultaneamente.  E não há problema nenhum nisso.  Tudo o que é perfeito demais acaba sendo meio chato.
 
 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 








 
 
 
 
 
 
 
 

quarta-feira, 23 de março de 2016

Quando "virei" doutora

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Hoje faz exatamente sete anos que defendi a minha tese e me foi concedido o título de doutora em Comunicação e Semiótica. Deveria estar em crise com o meu doutorado pois sete é um número crítico para relacionamentos afetivos.

De certa forma , a minha vida acadêmica tem sido o meu mais fiel relacionamento amoroso. Nada de fogos de artifícios ou micaretas na alma. ( Mentira! Temos tomado bons porres juntos) Minha vida acadêmica tem sido presente e tem segurado a minha mão ao atravessar a rua... e só quem me conhece sabe o quanto preciso de alguém para segurar a minha mão ao atravessar a rua e a vida. Pensando em alguma poesia, posso ser atropelada por um carro ou pela circunstância aparentemente mais banal. 

O virei com aspas faz alusão á uma piadinha do meu orientador. As pessoas se referem aos doutores como se passássemos por um processo milagroso. A gente levanta a espada , fala pelos poderes de Greyskull e adquire poderes e uma força descomunal.

Não, doutores não têm super poderes nem se fazem do dia para a noite. Doutores são pessoas que avançaram mais na leitura de um livro complexo e que descobriram num misto de desencantamento e euforia melancólica que quanto mais a gente aprende , menos respostas aparecem.

E de certa forma, a gente fica um pouco triste pois descobre que não existe uma grande verdade. Não existe um porto-seguro das ideias, onde elas podem viver livres, leves e soltas, sem depender de uma boa terapia e algumas doses de Martini.


Por detrás de um título pomposo, às vezes, se esconde uma realidade meio cínica: um certo desdém por nós mesmos.  Um certo sentimento envergonhado e ridículo quando pensamos em nossos tempos de inúmeras certezas.


Sim, nossa realidade é meio cínica...não que não haja um certo charme nisso. Alguém pode acender meu cigarro imaginário, por favor?
 






 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 








Sobre cumplicidade e beijos imaginários

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Sim, quando existe cumplicidade, somos capazes de beijar a alma do outro com nossos lábios imaginários: quentes, mordazes, cheios de um veneno redentor.

Só pode conhecer o mel que de uma boca exala, quem conhece o seu fel. O amor perfeitinho foi mais uma invenção sórdida e elegante do status quo para domesticar a sexualidade e transformar o amor em acordo de cavalheiros, contrato.

Chupo laranjas sentada sobre uma árvore. O vento suave balança as folhas e os primeiros raios da noite despontam. Sinto frio. Um frio gostoso. Um frio de quem sabe que logo em seguida, estará debaixo de um edredom, protegida.

Sinto o frio daqueles que tem para onde correr num dia de chuva. O frio daqueles que se despem diante de uma lareira crepitante e recebem das mãos amadas uma taça de vinho encorpado.

Antes de eu vestir roupas secas, você me abraça. Enxuga meu corpo no seu e umedece a minha alma.

Bebe o último gole de vinho abandonado no fundo da minha taça e descobre os segredos que imagina que eu guarde. Me vê através de um véu tênue. A vista embaçada. Neon e fumaça de cigarro. E eu apenas sorrio enquanto espero que chegue até mim. Sou paciente, mas estou nua...as roupas secas contemplam a tudo largadas numa cadeira.

Cravo os dentes num pedaço suculento de laranja e imagino que seja tudo aquilo que está por vir. O frio já não me atinge mais. Agora danço com ele ainda sentada.


Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 









terça-feira, 22 de março de 2016

Um pouco de hedonismo e preguiça festiva nunca fizeram mal a ninguém...

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 

Sim, um pouco de hedonismo e preguiça festiva nunca fizeram mal a ninguém. Um pouco de alegria para os sentidos, um pouco de euforia para a alma nunca fizeram ninguém cair em coma alcoólico. 

Sim, um pouco de hedonismo faz bem para a pele e proporciona um brilho todo especial ao sorriso. Muito melhor do que se encher de cremes e comer 5 maças por dia. Um pouco de preguiça festiva nos recarrega para as mais homéricas batalhas da vida.

A alegria, o tempo livre com os amigos,  conversar com gente que nos faz rir com os olhos ( já comentei que sorrisos labiais podem ser forçados. Os dos olhos nunca! Aprendi isso num programa sobre neurologia em um dos meus privilegiados momentos de ócio criativo) é o mais econômico e eficaz tratamento de rejuvenescimento celular. Remove muito mais células mortas e tristes do que dez sessões de peeling ou estes tratamentos mais modernos à base de laser que não conheço pois prefiro a prosaica prática do besteirol, da poesia e do sorriso.

O tempo livre para pensar naquilo que a gente quer pensar, aquela taça de vinho tomada fora de hora, aquele banho quente que faz mal à pele podem nos preparar fisicamente e emocionalmente para os dias mais pesados que teremos que enfrentar em algum momento.

Não há dinheiro no mundo, não há status no mundo que pague o prazer de ter tempo livre. Não há nada no mundo que pague a alegria de a gente poder mergulhar no nosso ócio criativo, no nosso cheiro de café recém coado , na nossa euforia intelectual que às vezes nos fazer dançar cambaleante em círculos...não há nada no mundo que pague o frenesi de uma conversa pesada que brinca de ser leve...que deixa escapar aos quatro ventos os seus sete véus. Não há nada no mundo que pague o destemor de andar pelas ruas como a gente mesmo, independente de olharmos para as estrelas ou para as sarjetas.

Não há nada no mundo que pague o calor de um olhar cúmplice, de um pensamento compartilhado, de um olhar ou uma expressão que grita em silêncio "Eu estou te entendendo porque também me sinto assim". Um dia um professor nos disse que cumplicidade era tudo aquilo que a gente mais queria e quase nunca conseguia.

Não, não há nada que pague a alegria de um reencontro.  Não há nada que pague a alegria de perdoar a nós mesmos e ao outro.
 
 
 
 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 








 
 
 
 
 
 
 
 
 

domingo, 20 de março de 2016

Sobre café, poesia , ócio criativo e mais algumas licenças poéticas...

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
Havia planejado um domingo animado. Havia planejado sair com amigos mais ou menos 15 anos mais novos do que eu. Estava super a fim de tomar cerveja artesanal, falar bobagem, rir de tudo, principalmente de mim mesma. Sim, às vezes, me acho uma boa piada. Daquelas bem maliciosas e sarcásticas.
 
Fim da tarde. Me arrependo de não ter saído, mas lá no fundo me absolvo porque sou uma garota bem preguiçosa. Não sei explicar bem o porquê, mas algo no ambiente doméstico me hipnotiza, me embriaga...e não estou me referindo às minhas doses de Martini Bianco bem gelado servidos em meus copos azuis estridentes.
 
Sei lá...por mais que curta usufruir desta cidade louca que é São Paulo, ir ao teatro, vagar por livrarias como uma autista que não enxerga ninguém, apenas os livros e os dvds, algo me atrai no ambiente de casa.
 
Por mais que adore uma mesinha de bar, um bom lanche gourmet numa padaria cheia de frescurete ( semana passada comi um fantástico! Sanduíche de carpaccio. Falaram que era light. Com aquele monte de azeite e queijo amarelo? Ok) algo no ambiente de casa me enlaça.
 
Ok.Ok.Ok. Trabalhei praticamente o sábado todo e estava cansada. Seria uma boa justificativa para a minha languidez no domingo, se eu não me conhecesse o bastante para saber que algo no ambiente de casa...bom, vocês já sabem!
 
Gosto da dose de Martini antes do almoço. Do cheiro de café de coador no meio da tarde. Gosto de sentar na frente do meu computador e criar meus mundos imaginários. Gosto de colocar meus fones de ouvido e ser levada para galáxias distantes, para terras ficcionais onde só exista o gozo do amor e da poesia.
 
Onde possa sentir braços que me enlaçam, sentindo o amor 18 quilates, sem nenhuma impureza, sem carregar  no meu peito nenhuma mágoa. Uma terra sem amores de fachada. Uma terra com amores sem medo. Uma espécie do Jardim do Éden, um paraíso perdido, o paraíso que desenhamos em nossa mente quando sentimos os lábios do outro pela primeira vez roçando o nosso mundo íntimo.
 
Gosto de andar de chinelos. Gosto de deitar no sofá e ver um filme que mexa comigo. Gosto de comer pizza na frente da TV. Gosto de me perder nas minhas leituras, um monte de jornais sobre a escrivaninha, sempre o notebook conectado no Google.
 
Diante da culpa de não ter me divertido como quase todos os mortais se divertem, me convenci que estudar Freud foi uma boa maneira de viver o meu domingo.  Soou meio depressivo, né? Mas na verdade não é não. Eu sou meio nerd mesmo RS 
 
 
 
 
 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 








 
 
 
 
 
 
 
 
 

Racionalizo ou te pego te jeito?

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
Sou daquela categoria de gente que apesar de passional, gosta de entender e explicar tudo. Gosta de racionalizar. Efeito colateral de uma longa vida acadêmica. Efeito colateral de uma profissão que me obriga a ter o controle da situação, que me obriga a ter o controle sobre a verdade, se é que existe alguma.
 
Talvez todo este primeiro parágrafo seja racionalização pura e eu entrei na vida acadêmica por já ser uma chatinha que curte pôr todos os pingos nos is e entender e explicar tudo nos mínimos detalhes, falando enquanto desenha gráficos e faz coreografias didáticas.
 
A grande merda para quem gosta de racionalizar é que mesmo usando a lógica, algum detalhe sempre nos escapa. Algum detalhe nunca se encaixa confortavelmente em nossas teorias bem trabalhadas.
 
Ouvi dizer, inclusive, que quem racionaliza demais tenta fugir de algo. Sim, racionalizar demais é um tipo de autodefesa quase ou até mais pirada do que as atitudes camicases de quem se atira nas emoções.
 
Não, não dá para entender nem explicar tudo. Não dá para racionalizar tudo por mais que a gente queira. Detalhes mil escaparão pelas bordas dos nossos esqueminhas bem comportados.
 
Não dá para garantir o que a gente vai dizer ou sentir lá na frente, na próxima estação do metrô quando ocorrer uma pane da nossa vida íntima e insana.
 
Não dá para garantir que a verdade de hoje será a verdade de amanhã. Não dá para garantir que o nunca mais seja realmente para sempre e que o para sempre não seja apenas fruto do frenesi do momento.
 
Dizem que no amor , tudo é possível, a não ser as expressões "Para sempre" e "Nunca mais" . Vi isto há séculos numa novela. Quando novelas ainda eram bem feitas ou quando o meu gosto era menos apurado...boa questão...talvez dedique a noite de hoje para refletir sobre este tema tão instigante!
 
Não dá para garantir porcaria nenhuma. Viver é se equilibrar entre escolhas e consequências, como diria Sartre. Viver é se equilibrar entre o "aqui agora, tô louca por você " e " Meu Deus! Isso tudo vai dar uma grande merda!". Viver é se equilibrar entre o louco e faminto desejo de rasgar tuas vestes agora e engoli-lo com a paixão da minha alma e todo o desespero que virá quando acendermos os nossos cigarros.

Estou entre fazê-lo mergulhar nos meus mais escusos segredos e dizer a mim mesma: "Vai dar merda", embora saiba e sinta lá no fundo que vai dar merda de qualquer jeito.
 
Não, não dá para entender nem explicar tudo. Não dá para racionalizar o tempo todo. Tem coisa que a gente precisa viver e ponto final, mesmo sabendo que vai dar bosta em algum momento. Afinal de contas, as melhores e mais deliciosas iguarias que a gente come não viram bosta? Nem por isso a gente deixa de comê-las... puta que pariu! Já estou racionalizando novamente com minhas analogias bizarras de péssimo gosto!

 
 
 
 
 
 
 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.