domingo, 14 de fevereiro de 2016

Coisa de escritor...

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

O namorado de uma ex-aluna minha , que se tornou uma grande amiga e colega de literatura, a quem dedico sentimentos maternais, tem um blog incrível. Tanto ele como minha amiga são escritores incríveis.

Hoje, comentando a respeito dos seus escritos, disse a ele que domingo de manhã é um horário perigoso.  Disse que preguiçosas ideias, ainda bocejando e meio sonolentas, se desdobram em grandes e loucos gritos de guerra.

Sim, domingos de manhã apresentam uma calma enganosa. Sob a pilha de jornais , o andar arrastado com as pantufas, a caneca de café na mão, aquele ar de quem tem todo o tempo do mundo para relaxar, escondem-se ideias inquietantes.

Quando o barulho para lá fora e não precisamos sair correndo para pegar o ônibus nem o metrô, quando ninguém nos espera e pode-se ficar de pijama ou camisola até o meio-dia, acabamos olhando para dentro de nós mesmos.

Aí, escritores de plantão, saltam de dentro do peito. A gente pega mais uma caneca de café e mesmo que ele já esteja meio frio, com gostinho de bebida coada numa cueca, a gente o bebe fazendo careta e segue em frente. Digitando, batendo as pontas dos dedos no teclado compulsivamente ( No meu caso um dedo apenas RS)  E fazemos mais caretas. E nem é preciso tomar mais café para isso.

Paisagens calmas e dias ociosos podem nos transportar para o mais caótico das nossas ideias. Podem nos arremessar para o subterrâneo das nossas obsessões mais doidas. A gente pode ficar batendo a cabeça na parede até encontrar as palavras corretas antes de tomar mais um pouco de café frio. Antes de abrir aquela latinha gelada de cerveja , fingindo que é apenas mais um trabalhador curtindo o seu domingo sem neura alguma.

Mentira! Escritores estão sempre pensando, imaginando, conspirando contra eles mesmos. E se bobear até a empadinha de palmito saboreada no balcão da padaria vira tema de poema. Porque se a gente for parar para pensar , existe toda uma magia em morder uma empadinha bem recheada, sentindo o gostinho da azeitona se desintegrando pela boca.

E o bom e velho pastel de feira? Quem disse que ele não rende um bom poema?  A poesia está nos olhos de quem escreve.

 
 
 



Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 



Minha paixão pela paixão

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Sim, adoro frigideiras. Sou loucamente apaixonada por elas há muitos anos. Amo cozinhar usando frigideiras, principalmente aquelas bem grandes.

Só de pensar em frigideiras sinto fome. Fome de comer. Fome de cozinhar.

Tudo feito em frigideira me parece mais dourado, mais crocante ou mais molhado, mais saboroso, mais excitante.

Gosto de usar a gordura dos próprios bifes para dourar as batatas. As batatas se tornam uma extensão da carne. Fica tudo integrado, um sabor só: quente, oleoso, tudo muito untado com amor.

Se amor fosse comida, seria um prato bem calórico, condimentado, com muito molho. Tanto pratos como amores light , estilo peito de frango grelhado com salada de rúcula sem azeite pode ser muito saudável para quem quer morrer de tédio.  Não quero morrer saudável. Quero morrer doente. Envenenada pelo colesterol e  pela paixão insana pela vida.

Adoro jogar as sobras de comida na frigideira , quebrar uns dois ovos e salpicar muito queijo ralado. Conforme mexemos a mistura e aquela fumacinha vai subindo, me sinto embriagada de aconchego.

Amo chaleiras também. Não sei explicar o porquê , mas a água do chá fervida em uma chaleira deixa o chá mais gostoso. Adoro aquelas esmaltadas, bem alegres e coloridas.

Me demoro mais nas vitrines de lojas que vendem artigos para casa. Cheguei a dizer para o meu ex noivo que preferia comprar coisas para casa do que roupas. Ele deve ter acreditado na minha fala , pois basta olhar para mim por dez segundos para descobrir que roupas não são a minha prioridade. E neste calor , seria ótimo poder andar sem elas. Se o ser humano não tivesse a mente tão suja , poderíamos realmente abolir este hábito antinatural.

Mas voltando às frigideiras e chaleiras, elas representam para mim muito mais do que utensílios domésticos. Elas me provocam apetite , aconchego. Para mim, quase nada é apenas o que é.  E se sinto que algo é apenas o que é , perco o interesse. Saaaaaco....como diria uma personagem do programa Sessão de terapia. Ou Lily do filme Lua de fel, ao fingir um bocejo para o certinho personagem de Hugh Grant.

Esta coisa de seguir receita à risca, sem poder criar nada, também me chateia. Cai na categoria do romance com gosto de peito de frango grelhado e salada de rúcula sem tempero, insuportavelmente saudável.  Irritantemente perfeito.

Uma vez, uma interessantíssima professora de inglês do ensino médio, na época do carnaval, nos perguntou o que a gente gostaria de ser se a gente pudesse escolher. Uma garota meio estilo "me acho" disse que gostaria de ser alguém perfeito. Nossa professora suspirou e disse que querer ser perfeito é muita falta de imaginação... sorri internamente.  

Gostava do seu jeito indecente de dizer as coisas mais banais. As coisas mais simples cheiravam a sexo. Confesso que muitas vezes a imito durante as minhas aulas.

Foi uma grande professora que me ensinou talvez a lição mais importante da minha vida. Quando disse que queria fazer a faculdade de Cinema , mas tinha medo , ela olhou para mim e me disse que nesta vida nós devemos ter apenas um medo: de não ser feliz. Se eu tinha vontade de fazer a faculdade de Cinema, eu deveria fazê-la. E se no meio do caminho, descobrisse que estava errada, deveria partir para outra, começar de novo.

É o que tenho feito a minha vida inteira. Recomeçar, me reinventar, me virar do avesso, soltar as costuras do vestido e com o pano velho fazer um modelo novo. Mas só eu sei o quanto o tecido está puído.  Passo fazendo um gracejo, mas lá no fundo, morrendo de medo que as costuras se desfaçam e me deixem nua no meio da rua.










Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 


A beleza está nos detalhes

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Sim, a beleza está nos detalhes. Está no chocolatinho de menta colocado no pires da xícara de café. Está no cheiro de amaciante da roupa de cama. Na dobra do cobertor. Naquele gesto bobo de cobrir o outro até o pescoço antes de estalar um beijo no rosto ou simplesmente sorrir com o olhar.  Está no bordadinho da toalha do lavabo.

A beleza está na flor depositada no centro da mesa. Nas bolachas arrumadas no prato num formato harmônico, ao lado das xícaras de chá fumegante. Está na canela sobre o arroz doce formando a inicial de um nome. Está na mão que segura a outra.

A beleza está nas pequenas delicadezas. Nos pequenos gestos. Num olhar cúmplice. Num brinde feito olhos nos olhos. Num roçar de braços quando se quer  tocar  o outro sem se dar conta.

A beleza está na palavra que é dita por meio de um sorriso. A beleza está na lágrima que desce meio envergonhada durante um filme de amor. Está no soluço reprimido que se liberta antes de dormir.

A beleza está na chuva vista através do vidro da janela. Na música ouvida ao longe , que traz para perto lembranças de outros milênios. Está no cheiro de uma comida caseira que nos leva à infância.

A beleza está no sorriso espontâneo.Na fala que não precisa de explicações. No amor que não precisa de porquês nem complementos.  Na nostalgia que nos faz reviver os mais belos momentos. 










Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 


sábado, 13 de fevereiro de 2016

Tomando chá com Jane Austen

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS



Uma vez, li que Jane Austen estava entre uma das maiores autoras da língua inglesa , perdendo apenas para Shakespeare. Arregalei os olhos. Por mais que reconhecesse o valor da literatura de Austen, achava que colocá-la entre os 3 ou 4 maiores autores da língua inglesa era exagero.

Conversei sobre este tema com uma grande amiga, professora universitária como eu, com três graduações. Uma delas, Letras. Ela concordou que Austen era uma das maiores autoras da literatura inglesa e me explicou didaticamente o porquê.

Embora Jane Austen nunca tenha viajado e viveu sua curta vida ( morreu com 41 anos apenas) confinada a seu restrito contexto, a Inglaterra Georgiana, a autora trouxe à tona temas e abordagens atemporais.

Entre seus temas favoritos estavam o casamento por conveniência ( Austen apesar de não ter sido rica se manteve solteira pois considerava um casamento sem amor a pior coisa que pode acontecer à vida de uma mulher) e os arranjos sociais de um modo geral. A necessidade de fazermos jogos para sobrevivermos e obtermos vantagens num mundo dissimulado e cheio de regrinhas fúteis. 

Austen, apesar de ser uma mulher muito tradicional, apresentava ideias feministas, pois ela mesma optou por viver da sua literatura. Ela mesma não aceitou submeter-se a um casamento sem amor. E em suas personagens, havia um vigor muito especial, uma racionalidade profunda ( falo racionalidade como capacidade de discernir. Não uso o termo racionalidade no sentido de frieza e falta de sentimentos).

Lizzy Bennet , a protagonista de Orgulho e preconceito, é o protótipo da mulher inteligente, que ama intensamente , mas tem controle sobre os sentimentos pois entende e sente que a honra e a virtude estão acima das paixões. 

Inclusive , uma vez, li numa matéria jornalística um texto sobre a série realizada pela BBC, baseada no romance Orgulho e preconceito. Na manchete do artigo, a personagem de Lizzy era definida como a heroína inteligente , de olhos brilhantes. 

Lizzy era bonita , mas seu traço mais marcante é a inteligência, o que coloca a mulher num patamar mais nobre. Lizzy é a precursora da mulher contemporânea. 

Austen , muitas vezes é confundida como uma escritora menor, uma autora de romances melosos que serviram de base para comédias românticas. Mas , Austen foi muito além desta aspiração folhetinesca pequeno burguesa. Austen criticou ferozmente as hipocrisias sociais por meio de uma linguagem leve , fluida e sutilmente irônica. Sim, Austen era uma mulher irônica, qualidade julgada até hoje nas mulheres. Até hoje , mesmo que de forma velada, a ironia é um  traço considerado tipicamente masculino, fazendo as mulheres que as utilizam pagarem faturas altas por conta disso.

Sim, minha amiga me convenceu totalmente deste ponto de vista. Gosto quando as pessoas conseguem me convencer de alguma coisa. Gosto quando me levam a revisitar meus pontos de vista. 

E ainda hoje, me lembro com saudade , de um dia em que mergulhei pela segunda vez no romance Orgulho e preconceito tomando uma xícara de chá inglês. Foi verdadeiramente intenso. 








Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Sobre escrever

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
Esta semana vi um micro vídeo com o escritor moçambicano Mia Couto. Ele disse que escrever é um caso de amor com as pequenas coisas. Achei este pensamento profundamente lindo.
 
Desde os 11 anos de idade escrevo regularmente. É como se compreendesse o mundo por meio da minha caneta. Achava curioso quando meus colegas de classe diziam se identificar com os meus textos, como se eu pudesse expressar o que eles sentiam e não conseguiam dizer.
 
Uma vez, durante o mestrado, uma colega psicóloga, que estabelecia um diálogo entre Poesia e Psicanálise, nos disse no meio de um sorriso terno que os psicólogos apenas organizavam os conceitos e ideias que os artistas conheciam há muito tempo.
 
Acho que a verdadeira beleza está nos detalhes. Nas coisas aparentemente pequenas.  Não precisamos de grandes enredos para escrever uma boa história. Precisamos apenas de olhos atentos , ouvidos capazes de ouvir o silêncio, um coração sensível.
 
Precisamos ser intuitivos. Precisamos nos encantar com coisas aparentemente insignificantes para as outras pessoas.  Precisamos nos emocionar com o cheiro do café , com o barulho da chuva , com o balançar das folhas das árvores, com os floquinhos de neve caindo sobre o rosto nu.
 
Precisamos degustar os pensamentos , apalpar as palavras, saborear as frases. Precisamos nos deliciar e fazer todo um mundo de complexas possibilidades por meio do verso de uma poesia , da letra de uma música ou de um simples sorriso.
 
Para escritores tudo vira tema para escrever: as manchetes do jornal, o e-mail de um amigo, um post engraçado das redes sociais, um cheiro de perfume, uma lembrança aparentemente superada que vem à tona, o gosto do bolo quente recém saído do forno.
 
Pois lá no fundo, o importante é escrever. O importante é dizer. O importante é sentir e palpitar e se partir e se tornar a voz dos outros. A palavra engasgada que não quer sair.
 
Escritores são intérpretes. Mas não traduzimos de um idioma para o outro. Traduzimos a linguagem da alma para as palavras. E de repente , o abstrato ,  complicado e vago ganha vida e parece simples, quase infantil de tão palpável.
 
 
 



Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 

Sobre mulheres intensas, amores devastadores e mais algumas forças da natureza

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS


Adoro usar vestido com bota. Adoro usar qualquer treco na cabeça e antes que as mentes poluídas pensem alguma indecência RS não incluo cornos na minha lista RS Gosto de boinas, chapeuzinhos mimosos, um bom Panamá , fazendo um estilo meio blasé a la Marguerite Duras.

Gosto de batom bem vermelho , mesmo que seja às oito da manhã. Gosto de bijuterias extravagantes mesmo que seja para dar aula apenas. E se não fosse preguiçosa, usaria as minhas unhas bem compridas e vermelhas até hoje. Uma vez , meio seriamente , meio brincando, disse a alguém que minhas unhas eram minhas únicas armas. Ele discordou e eu adorei ser contrariada.

Uma vez no curso de teatro, tomando um café com um colega , ele olhou para o pingente em formato de coração verde que pendia da minha corrente e fez uma análise semiótica/psicanalítica da situação.

Disse que aquele coração exposto no meu colo nu revelava o quanto eu queria e precisava do amor. Devo ter sorrido o meu sorriso de canto de boca. Ter um homem atraente tentando nos analisar e entender é sempre no mínimo muito excitante.

Sou a pessoa mais simples do mundo, mas insistem em achar que guardo muitos segredos...se houver algum segredo de fato, ele está tão bem guardado que nem eu sei da sua existência.

Mas voltando ao vestido com bota , acho que esta combinação confere muita personalidade a quem a usa...ou talvez seja o inverso. Só a usa sem pudores quem tem muita personalidade.  Principalmente se a pessoa colocar uma bota de cano alto sem meias.

Muita gente acha a combinação deselegante. Da minha parte , eu só sinto que estou sendo eu mesma. Toda vez que coloco um sapatinho delicado ou uma sandália alta com um vestidinho bem comportado é para me adequar ao mundo dos homens , que quase sempre não toleram mulheres que são elas mesmas. Que quase sempre não suportam ser devastadoramente desejados e amados.

Tenho um vestido florido, estilo anos 1950, na altura dos joelhos, que apresenta o seguinte subtexto: "Não tenha medo. Me tome em seus braços sem receio. Eu sou inofensiva". Mas eles leem outra coisa. Eles leem : "Vou tragar a tua alma". Não posso dizer que estão errados...







 



Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 

Meritocracia???????

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS


Ontem ,  mais um post do Facebook me inspirou a escrever no Garota desbocada. Foi postado por meu  querido professor de Geografia do ensino médio.

O post falava sobre meritocracia com uma boa dose de ironia amarga. Mostrava uma foto com crianças bem nutridas e bem cuidadas ao redor de um notebook e outra foto ao lado com crianças descuidadas e escravizadas.  Na legenda , dizia-se que  todas as crianças tinham as mesmas possibilidades de desenvolvimento.

Tive que compartilhar o post e comentei que tal teoria seria risível se não fosse trágica. Uma ex-aluna minha , que acabou se tornando uma amiga, uma moça a quem muito admiro, comentou o meu post rindo. Disse brincando para eu tomar cuidado pois poderiam me chamar de comunista.

Não, não acredito em meritocracia. Acredito sim  no empenho pessoal. Acredito sim que alguns lutam e aproveitam as oportunidades dadas enquanto que outros as desperdiçam. Mas , por outro lado, dizer que tudo depende do esforço pessoal me soa muito cruel, para não dizer cínico.

Sim, crianças esfarrapadas e famintas podem conseguir na adolescência uma vaga numa universidade pública. Crianças abandonadas à própria sorte , mediante um talento muito especial, podem conquistar uma posição invejável no futuro. Mas não devemos nos pautar por exceções.

Deveríamos tentar construir uma sociedade em que todos , desde os mais brilhantes até os mais medianos, pudessem conquistar o seu espaço, o seu lugar ao sol.

Dizer que duas pessoas com inteligência e capacidade de luta similares , mas oportunidades completamente diferentes têm as mesmas chances de obter um bom emprego, construir uma sólida carreira não cola nem um pouco para mim.

Sempre defendo  uma ideia em minhas conversas que enveredam para questões políticas: Educação e Saúde deveriam ser públicas. Não poderíamos tratar como luxo o acesso à Educação e aos cuidados médicos.

Ninguém precisa ter um carro ou usar roupas de grife. Ninguém precisa viajar regularmente para o exterior ou frequentar restaurantes caros. Mas todos deveriam ter o direito de serem tratados decentemente quando adoecem e receberem uma Educação significativa , de qualidade.

Não dá para falar de meritocracia num país tão injusto e desigual como o nosso , com políticos tão corruptos , um povo alienado e uma elite financeira indiferente.   Não alcançamos este patamar ainda.



 
 



Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.