segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Breaking bad: uma questão que vai muito além do dinheiro

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

 
 
 
Assisti animadamente a série Breaking Bad em 2013. Um funcionário da vídeo locadora a indicou para o meu pai e a mim e mesmo sem botar muita fé , acabamos acatando a sugestão.

Não digo que é o meu tipo favorito de série. Mas enfim...ela prende realmente a atenção e trabalha uma questão de vital e suma importância: não queremos ser merdas no mundo. É isso mesmo.

Passar pela vida , só perdendo, sendo explorado, humilhado, ironizado, levando pontapés no traseiro , para não dizer bunda ( já disse RS)  é tarefa inglória. Me faz lembrar do tema de abertura da novela Que rei sou eu?


Em resumo: muito mais do que juntar dinheiro para garantir um futuro economicamente seguro para a família , o personagem protagonista se apaixona pela ideia de se tornar um fodão, um cara forte, temido, poderoso.

Muito mais do que o dinheiro, o poder o seduz. Ser alguém o seduz. Deixando moralismos à parte , quem não gostaria de se destacar no mundo? Quem não gostaria de deixar a sua marca?

Breaking Bad , talvez , tenha como mensagem central o quanto é insuportável sermos perdedores e obscuros no mundo.

Infelizmente , a maioria das produções que envolvem temas ligados às drogas , à violência e ao sexo são mal compreendidos pois a maioria enxerga apenas aquilo que está diante dos olhos e é concreto.

Basta pensarmos no frenético cinema de Tarantino para respaldarmos tal teoria...basta pensarmos , por exemplo, no fantástico Efeito borboleta , que pode ser encarado por muitos como um simples e violento filme de ficção científica. Já escrevi sobre este filme na Obvious.

Muito mais do que ficção, Efeito borboleta fala sobre a dificuldade de corrigirmos nossos erros e como cada pequena ação afeta a terceiros. Vou além. Mostra que muitas vezes para a maioria ficar bem e contente , o amor precisa ser sacrificado.



Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 















Melanie Klein e a expulsão dos paraísos

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Lendo um post com um pensamento da psicoterapeuta austríaca Melanie Klein, me inspirei a escrever este "testículo".

Klein afirmou que todos aqueles que comem do fruto do conhecimento são expulsos de algum paraíso.

A peça teatral A alma imoral, baseada no livro do rabino Nilton Bonder , uma deliciosa e complexa mescla entre Filosofia e Teologia judaica) fala sobre o tema da mulher como agente transgressor no mundo.  É a mulher a responsável por trair a tradição para manter o essencial da tradição.

As palavras tradição e traição tem significante semelhante e aparentemente significados diferentes , até mesmo opostos.

Mas pelo contexto da peça , vemos claramente uma aproximação entre os termos pois um depende do outro.

Tal ideia pode soar complexa demais ou até mesmo vaga , imprecisa e contraditória em tempos tão rasos quanto os nossos.

Se é que houve algum tempo denso...começo a desconfiar que sempre foi isso mesmo...uma massa inexpressiva caminhando pelo mundo como as ovelhas de Sócrates, se deslumbrando com blockbusters, se contentando com amores fake e se prendendo a crenças ingênuas.  A caverna de Platão com suas sombras deve ter lá os seus encantos, embora eu já tenho visto luz demais para regressar à ela.

Sim, Melanie Klein, podemos entender como paraíso qualquer zona de conforto, qualquer tipo de comodismo, qualquer situação que nos impeça de lutar por aquilo que realmente somos e queremos.

No paraíso mítico da Bíblia cristã, Adão e Eva eram "felizes" porque eram ignorantes e obedientes. Viviam de acordo com regras bem definidas. Quando começaram a questionar , pensar com a própria cabeça e buscar novos caminhos se perceberam nus , desprotegidos , desvalidos.

Não é o mesmo que acontece com artistas, filósofos , intelectuais de um modo geral?  Perdemos nossas certezas. Temos mais perguntas a fazer do que respostas a dar. Descobrimos que a vida é dura sim, a fé é placebo e o amor não é bonitinho nem cor-de-rosa.

O amor entre um homem e uma mulher ou entre duas pessoas do mesmo sexo ( enfim, o amor erótico) é um amor brutal, é um amor que agride , que bate com uma mão e acaricia com a outra. É um amor que agride pois , como diria Deleuze, só quem amamos tem o poder de nos tirar do sério, de desnudar as nossas loucuras, de nos fazer perder as estribeiras.

Sim, Melanie Klein...já fui expulsa de muitos paraísos...mas não tenho vergonha da minha nudez. O mundo deveria ter vergonha de andar tão vestido com couraças de medo e máscaras de hipocrisia.

 
 
 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 














domingo, 10 de janeiro de 2016

Frida Y Diego: quando o amor não é pura encenação

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Hoje fui assistir a peça teatral Frida y Diego, com Leona Cavalli e José Rubens Chachá. O texto foi escrito por Maria Adelaide Amaral e a direção foi realizada por Eduardo Figueiredo.

A peça fica em cartaz em Sampa, no teatro Raul Cortez, até dia 31 de janeiro. É uma opção imperdível para quem deseja conciliar entretenimento com uma boa dose de arte.

A vida em si de Frida e Diego, dois grandes pintores e intelectuais mexicanos é um show à parte. A estética do espetáculo é linda e conta com música ao vivo. A interpretação dos atores é carismática, o texto contundente e a direção vigorosa.

Frida movimenta-se amplamente no palco apesar de as suas limitações físicas , o que podemos entender como uma metáfora da liberdade do seu espírito.

Os diálogos são levemente cômicos e muito irreverentes. Uma montagem empolgante , mas que deixa um gostinho amargo na boca para os mais românticos como eu: deparar-se com tanta emoção por cerca de 90 minutos para depois cair novamente na modorra do dia a dia é jogo duro!

Ok.Ok.Ok. A vida deles , principalmente a de Frida foi trágica. Não é disso que me refiro. Mas à toda intensidade e passionalidade de uma vida autêntica.

O amor deles explodia na intimidade. Tinha sangue nas veias. Completamente diferente das insossas e artificiais declarações de amor que encontramos hoje em dia nas redes sociais como uma forma de provar aos outros e a si mesmos que estão vivendo algo importante. 

Frida e Diego jogam em nossas caras como a grande parte dos casais é fake. Frida Y Diego é um espetáculo para quem tem sangue nas veias e embriaguez na alma!

 



 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 














sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Sócrates e as ovelhas

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Acabei de assistir a um vídeo FANTÁSTICO indicado pela minha querida amiga Fernanda Moura. Ela é filósofa clínica e tem me ajudado muito a adentrar cada vez mais neste fabuloso mundo do pensamento lógico e consciente.

 
O vídeo que vi, elaborado por Alain de Botton, fala sobre Sócrates, considerado o mais importante filósofo da Antiguidade grega.
 
Sócrates dizia que tudo que ele sabia era que ele nada sabia. Num mundo como o nosso, cheio de mesmices e frases feitas , este pensamento é no mínimo desconcertante.
 
Apesar de viver em uma sociedade democrática , Sócrates achava que nem sempre a maioria tem razão e que todos os argumentos devem ser refutados até alcançarmos todas as exceções possíveis para cada regra.
 
Acreditava também que qualquer pessoa poderia ser um filósofo se se propusesse a pensar. Mas na prática, a minoria realiza esta atividade , que na opinião do filósofo, é o que diferencia seres pensantes de ovelhas.
 
Para Sócrates , quem não reflete , quem aceita tudo com conformismo era uma espécie de ovelha pois vive no meio das massas , passivamente.
 
O método de ensino socrático pode ser muito doloroso porque ele desconstrói as verdades do seu interlocutor. Atualmente , chamamos de método socrático algo mais light.
 
Quando um professor , por exemplo, permite o fluxo de ideias entre os alunos , questionando-os e fazendo-os pensar sobre conceitos e valores , podemos dizer que de certa forma este docente já está se inspirando em Sócrates.
 
Diferentemente daqueles que cospem todo o conteúdo formal sobre os estudantes sem dar nenhum tipo de margem de manobra para negociações intelectuais.
 
Infelizmente , muitas de nossas escolas e universidades ainda estão impregnadas por este pensamento autoritário, em que se acredita que o professor é o detentor do saber. O professor é um inspirador , um provocador que seduz os alunos rumo à construção do conhecimento.
 
Nenhum saber que não seja elaborado vale realmente a pena. O saber precisa penetrar a alma e transformar o mundo interior . Caso contrário, não passou de decoreba.

Não adianta , por exemplo, defender uma postura libertária e na prática agir como um reacionário. Não adianta se definir como alguém sensível, se na prática , trata-se as pessoas como objetos. Não adianta demonstrar erudição, se na prática leva-se a uma vida medíocre. Não adianta se auto intitular uma pessoa ética , se na prática , mente-se e difama-se terceiros para defender os próprios interesses.
 
 



Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 














quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

À Camila

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS


 É com muito orgulho que recebo em minha vida uma linda jovem de mente palpitante, disposta a mergulhar no mundo acadêmico.

Surpreendeu-me ouvir daquele garota tão jovem que se interessara pelo filme A bela tarde. Arrisco a dizer que é o mais complexo de Buñuel , que por sua vez realizou obras extremamente complexas com raras exceções. Até os mestres às vezes pisam na bola...

Hoje , minha nova orientanda se debruçou sobre um artigo de cinema com aparato filosófico, mais especificamente deleuziano.

Depois , partiremos para um livro mais denso e assim por diante , até ela poder escolher com firmeza seu tema.

Como professora é sempre um enorme deleite deparar-me com mentes curiosas , inteligentes , ávidas pelo saber. 

Escrevo este texto em homenagem à linda e doce Camila Quedas Ramos. Que seja muito bem vinda ao fabuloso, mas às vezes, doloroso mundo da intelectualidade.




Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 














quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Amor

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Um ato sexual realizado com e por amor é sempre um ato sagrado. Ofertar-se inteiramente e integralmente a quem se ama , talvez , seja o único motivo pelo qual se vale a pena nascer e viver.

Um ato sexual realizado com e por amor é muito mais do que o encontro frenético de corpos que se debatem. Que se buscam e se fundem numa espécie de comunhão pagã.

Um ato sexual realizado com e por amor  é uma comunhão de almas. É experimentar e provar e saborear  a essência do outro por meio do encaixe dos corpos, do gosto das bocas, do suor das peles.

Um ato sexual realizado por e com amor é deixar-se viver e morrer dentro do outro. É consagrar-se como alimento sagrado que fortalece a alma de quem ama.

Nos ensinaram que o amor carnal é pecado...pecado é viver sem amor.  Pecado é viver sem o toque e sem o olhar do ente amado. Pecado é atravessar este mundo árido como quem caminha por um deserto.

O encontro amoroso é a maior e mais fervorosa das preces. É mais renovador do que o vinho consagrado. É tudo aquilo que existe de mais sagrado e etéreo. Ninguém deveria deixar este mundo sem conhecer este momento de profundo êxtase...

Mais vale um dia de amor verdadeiro do que uma vida inteira ao lado de um "amor" banal. Mais vale viver a vida inteira das lembranças de um amor verdadeiro do que se submeter ao sexo puro e simples, o mesmo praticado por animais no cio.
 
 


 



Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 














 

Divagações sobre dias de chuva...

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
 
Não pretendo negar os inúmeros benefícios proporcionados pelo sol. Não discordo da teoria de que em países frios os índices de depressão são maiores. Quero apenas dizer que faço parte de uma minoria incompreendida que se sente feliz em dias de chuva.

Os dias cinzentos e frios, com uma chuvinha fina, podem nos obrigar a uma postura mais reflexiva diante da vida e diante de nós mesmos. Um dia frio pede um bom livro, um filme mais introspectivo, uma conversa intimista.

Os dias cinzentos e frios podem ser uma boa oportunidade para olharmos para dentro de nós mesmos. Podem ser uma oportunidade para fazer uma leitura mais complexa, estudar um assunto qualquer, escrever, transformar pensamentos vagos em palavras consistentes.

Os dias cinzentos e frios facilitam a intelectualidade, o gosto por uma música clássica, um filme antigo. Ver um suspense de Hitchcock numa tarde cinzenta pode ser bem inspirador . Assistir a um épico enrolado em um cobertor pode ser bem aconchegante. Um filminho de terror, mais assustador. E se olharmos pela janela do metrô num dia frio, ouvindo uma música instrumental, as pessoas se movimentando na plataforma com seus casacos e guarda- chuvas nos parecerão dançarinos executando uma espécie de coreografia.

Tomar um café fumegante ou um chocolate quente num dia frio é saboroso. Se num dia ou noite fria não é possível tagarelar ao redor de uma mesinha ao ar livre com um copo de cerveja gelada na mão, é delicioso tomar um chocolate com rum num barzinho alternativo ou uma taça de vinho barato ao som de um jazz ou de um blues. Os dias frios e cinzentos me trazem um gosto de boemia à boca e na alma tudo parece fazer mais sentido.

O frio nos convida ao romance, ao olho no olho. Não existe tanta pele à mostra. Somos obrigados a focar no essencial: no movimento labial, no leve rubor do rosto depois de uma lufada de vento frio ou do falso constrangimento após uma piada picante. Temos que nos concentrar no brilho dos olhos, no arquear das sobrancelhas, uma mecha de cabelo escorregando pelo rosto.

O frio nos pede para ler a pilha de jornais do canto da sala sob a tépida luz do abajur do quarto. O frio acalma o corpo e agita a alma. E tudo o que acontecia do lado de fora, nas praias , nos bares, nas piscinas públicas, começa a se desenrolar dentro de nós.

Em dias frios testamos novas receitas, temos mais apetite, uma boa desculpa para uns dois ou três copos de vinho a mais. Podemos beber sem transpirar, andar na rua nos sentindo frescos. Podemos andar no metrô nos sentindo protegidos . O contato do outro não irrita tanto.

Em dias frios, podemos sentir uma paixão melancólica por tudo aquilo que mais queremos e nos lembrar com uma doce pontada de dor dos amores perdidos. Nenhum sentimento parece vão ou tolo num dia de chuva. Tudo é revivido na alma ao som das lembranças tépidas.

Em dias frios e de chuva, as tolices de amor viram atos heroicos e não nos arrependemos de ter ofertado nosso coração numa bandeja de prata junto com o chá e as torradas. Num dia de chuva é possível tomar uma caneca fumegante de chá inglês , lendo Jane Austen e se sentindo Lizzy Bennet. Num dia de chuva é possível ler Jane Eyre e sentir o frio doer nos ossos como as pobres meninas do orfanato.

Em um dia frio e de chuva, ninguém diz "eu sou mais eu". Todo mundo relembra o passado e chora as suas lágrimas. Todo mundo sente saudade de algo. Tudo mundo fica mais sensível, mais romântico, mais dolorido, mais humano. A alegria pura sem uma pitada de melancolia me parece um pouco fútil. Sim, amo a delicadeza de alma que os dias frios e de chuva trazem.

Não, este post não é triste. Este post foi escrito por alguém que realmente ama baixas temperaturas e dias cinzentos. Olho pela janela com uma xícara de café fumegante nas mãos. Sinto possibilidades infinitas brilharem em meu coração.


 


Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.