domingo, 13 de dezembro de 2015

Vamos simplificar?

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS


Mais um post do Facebook me inspirou a escrever. Ele foi adicionado por uma amiga de infância bem religiosa, mas não no sentido ortodoxo e chato da palavra. Ela ri, bebe vinho, fala besteira.

O post dizia mais ou menos assim: "Amai-vos uns aos outros e o resto que se foda".  Muuuuuito bom! Acho que é por aí mesmo.

No fundo, o que importa mesmo é a nossa capacidade de se colocar no lugar do outro e não fazer para ninguém o que não gostaríamos que fizessem para gente.

No fundo, o que importa é dar de comer a quem tem fome, não importa se é de comida, de saber , de afeto ou de um simples olhar e um  "Eu te entendo".

No fundo, o que importa é a gente rir com as pessoas,  chorar junto, fazer perguntas indiscretas, perguntar "Tudo bem?" esperando a resposta com sinceridade. No fundo, o que importa é a gente deixar a porta da nossa vida aberta para os outros e fazê-los se sentir à vontade dentro dela.

No fundo, o que importa é a gente olhar nos olhos do outro e dizer a que viemos sem medo de mostrarmos quem somos.


 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

Me enchi de romances pequeno burgueses

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS


Sim, me enchi de romances pequeno burgueses. Romances com gosto extremamente doce e enjoativo de groselha. Romances com jeitão de filme bobo da sessão da tarde, que com apenas cinco minutos , sabemos que a mocinha bonitinha com cara de frígida vai se casar e ser feliz para sempre com o bonitão metrossexual.

Sim, me enchi de romances pequeno burgueses. Romances com gosto de comida de rotisserie. Carne suína, bovina, aves...tudo com o mesmo molho por cima e textura de isopor.

Sim, me enchi de romance industrializado, sem personalidade, com cara de passeio no shopping center sábado à tarde. Com cheiro de pipoca amanteigada na fila do cinema para ver filmes familiares.

Sim, me enchi de romances com cara de comercial de margarina. O pessoal acordando feliz, sorridente, numa harmonia de dar nos nervos.

Sim, me enchi de romance de grife. Lindas fotos nas redes sociais acompanhadas por frases pseudo poéticas e a torre Eiffel ao fundo para compensar as transas malfadadas em algum quarto acanhado.

Sim, me enchi de romance exportação. Sim, exportação. Bonito para os outros. Uma merda para a gente.


Me enchi das cafonices dos romances da classe mérdia. Tediosos almoços de domingo com toda a família. Sempre tem um tio ou primo que faz uma piadinha sem sal: "Cuida bem da minha sobrinha/prima. Viu?  Tô de olho, hein?" Falam essa merda enquanto destratam sua parceira.

Me enchi deste lance brega de aliança de compromisso, festa de noivado e os terríveis dilemas que envolvem uma festa de casamento, além das absurdas despesas.  Me enchi deste lance de mozão, mozinho e mais um monte de mimimi que a gente fala para oficializar o desejo.

Relações convencionais são o abismo do amor como já diria Nelson Rodrigues. Aquilo que tinha gosto de purpurina , de repente vira um cachorro quente frio.

A gente começa dançando na chuva, no escuro, com um estranho e de repente toda a libido vai parar na questão que não quer calar: carpaccio de salmão ou carpaccio de carne? Pasteizinhos de queijo brie ou de camarão? O que os nossos 207 convidados vão preferir? Salmão é mais chique, mas tia Cotinha não gosta de salmão. O noivo prefere o queijo brie e a noiva o camarão. A noiva decide ceder em favor do noivo até lembrar que tinha Titinha é alérgica a camarão. Ai!!!!!!!!!!!!!! Dá vontade de cortar os pulsos e sangrar lentamente numa gigante banheira de hidromassagem fazendo massagem no cóccix.

Sim, a libido vai para a lista de presentes. Vai para o tipo de flor que vai decorar a igreja. Vai para o quarteto de violinos e as daminhas de honra vestidas como mini adultinhas.

Sim, a libido vai para o insípido álbum de fotografias, para o buffet , para os vídeos dos noivos pegando insolação em alguma praia paradisíaca do Nordeste ou tomando vinho em algum restaurante da moda.

A libido vai para os novos móveis do apartamento novo que vai ser pago em mil anos.  Enfim, a libido sai correndo para todos os lados, menos para o parceiro amoroso.

Só não entendo por que vejo isso só hoje...



 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

sábado, 12 de dezembro de 2015

A difícil arte de amar

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS




Um dia desses estava me lembrando do filme A difícil arte de amar, de Mike Nichols, o mesmo diretor de Closer, perto demais e A primeira noite de um homem.

É um filme doído. A gente vê aquele casal afinado e cúmplice se perdendo nas mesquinharias do dia a dia e tudo aquilo que começou com gosto de prosecco e canapés variados vira uma marmita requentada com direito à traição: o início do fim de uma relação que vale a pena.

Por que é tão difícil amar? Por que é tão difícil sintonizar? Quanto mais eu penso no assunto, menos respostas eu tenho. Talvez, o amor entre um homem e uma mulher seja desejo mesmo como já dizia Platão. E desejo satisfeito perde a graça.

Talvez, a resposta não seja tão simples assim. Talvez , amar não basta no mundo adulto. É preciso estar no local certo, na hora certa...é preciso alinhar os ponteiros da alma. É preciso desejar os mesmos desejos , padecer das mesmas obsessões,  falar cobras e lagartos com um simples olhar. Dizem que nada une mais duas pessoas do que um vício em comum.

Talvez seja preciso um pouco de fúria também. Um pouco de veneno nos lábios, olhos injetados, a alma meio rasgada, trôpega, suplicando mais um instante.

Talvez certo desalinho seja preciso. O amor entre um homem e uma mulher não precisa apenas de palavras doces e pétalas de rosas num casto leito nupcial. O amor precisa de indignação, de indignidade. Como diria a música Moda de sangue, "Sinto meu amor/Que o amor é isso/ Essas coisas/ Muito fora de juízo".

Seria um crime ou uma imoralidade não querer partilhar a rotina tosca com quem desejamos furiosamente? Seria um crime ou pecado passível de excomunhão, querer manter por tempo indeterminado a magia do encontro inesperado?

Os amantes se ressentem da enfadonha e banal rotina não compartilhada, mas nem percebem toda a poesia que lhes é entregue numa bandeja de afagos , xingamentos e cuspes na cara cheios de afeto e devoção.



Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

Amo o Cinema como Filosofia

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS


Sempre fui cinéfila. Sempre amei ver filmes, principalmente a partir da adolescência. Com 14 anos, ir à locadora de vídeos era um programa inspirador e renovador. Adorava ver filmes românticos clássicos e um dia despertei o riso de uma prima ao suspirar languidamente para uma cena do filme Sabrina.

Com o tempo o gosto para filmes foi se sofisticando e passei a ter um apetite insaciável para obras diferentes, alternativas, meio bizarras e malucas.


Amo fazer análises fílmicas. Mas não me interesso por falar de plongée e contra plongée nem de planos e contra planos, travelings e zooms. Não choro diante de um plano sequência.


Embora prefira contra plongée a plongée e alguns enquadramentos realmente me chamem a atenção, o que me suga num filme é o seu caráter filosófico. A sua capacidade de  despertar em mim o desejo de pensar.


Nas minhas análises fílmicas, falo de aspectos estéticos se eles estiverem intrinsicamente relacionados ao conteúdo filosófico que pretendo trazer à tona, desnudar e destrinchar.

Sim, estou mais para a Filosofia do que para o  Cinema. Amo tudo aquilo que me faz pensar. E sentir. Amo acima de tudo  aquilo que permite pensar afetivamente ou sentir intelectualmente. Fiquei completamente fascinada pelo conceito de Filosofia logopática proposto pelo professor Julio Cabrera no livro O cinema pensa. Um dos meus livros de cabeceira.

Quando ele chegou aqui em casa em 2012 fazia um calor infernal. Era um daqueles dias que dava vontade de bater a cabeça na parede para cair desmaiada e fugir do ar abafado por alguns momentos. Catei o livro e o devorei de forma irregular. Pulando páginas. Indo para o final, depois para o começo. Quase me esqueci do calor que matava meu ânimo.

Preciso ser estimulada intelectualmente. Por amigos, alunos, possíveis pretendentes...toda e qualquer vida que me rodeia.

Uma vida sem conversas filosóficas e instigantes, sem poder saciar a minha  fome de saber, sem poder saciar a minha curiosidade que me come por dentro é como um filme sem pontos de virada, em que nada acontece e a gente se pergunta : "Por que estou vendo este filme?"

Uma vida sem a sintonia cúmplice de olhos que deduzem as palavras ausentes ou caladas na boca é como um filme vazio que encontramos nas faixas comerciais dos canais abertos.

Uma vida imersa na monotonia do senso comum em que precisamos dar um sorriso amarelo para engolir um bocejo, é como um filme enfadonho que nos faz cair no sono logo nas primeiras cenas.

Sim, amo o Cinema como Filosofia. Amo as artes de um modo geral como Filosofia. Amo a vida, as ideias e as pessoas como Filosofia. Amo debruçar-me sobre um pensamento e acaricia-lo até à exaustão, até chegarmos juntos num estado de torpor.

Sim, amo fazer poesia com as minhas ideias e vagar pelo mundo, sempre um pouco absorta e um pouco histérica, os olhos brilhantemente tristes, a alma escancarada para a melancolia festiva do conhecimento.

Cavo abismos cada vez mais profundos e olho extasiada para eles, dividida entre a ideia de jogar-me com tudo ou simplesmente ficar ali a contemplá-lo.  

 
 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Criar juízo? Não faço a menor ideia do que ele come.

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS



Deliro com as crônicas da Tati Bernardi. A de hoje, Despedida do colágeno, é tão boa como duas sem tirar.
 
Ela tece uma deliciosa ironia a respeito dos pseudo dramas da vida de uma mulher com mais de 35 anos que ainda não "criou juízo".
 
Da próxima vez que me falarem para criar juízo e amadurecer , eu vou dizer que não sei o que juízo come e por isso não posso cria-lo. Ou ainda posso responder que vou guarda-lo para uma emergência.
 
Não, não quero criar juízo tão cedo. Não quero ouvir que sou uma boa pessoa. Gente boa só leva no meio da cara para não dizer outra coisa mais picante.
 
Não quero que me sugiram que eu me inscreva num destes sites horripilantes de relacionamento para conhecer gente que eu não quero conhecer. Quero ser atropelada pelo acaso e arrastada para a cama por ele , mesmo que eu diga que não quero.
 
Não quero que me sugiram que eu congele meus óvulos para quem sabe ter um filho biológico quando encontrar um bom homem.
 
Eu não quero um bom homem! Tenho coceira só de pensar nos homens considerados bons pela nossa linda sociedade.
 
Muito menos quero botar mais um infeliz no mundo.  O sofrimento é a única garantia que posso oferecer a ele. Sofrimento e um quarto bem fofucho para fingir que a vida é boa e que com fé tudo brilhará para ele num futuro que pode chegar amanhã ou nunca.
 
Eu não quero amadurecer porque ainda não pisei na jaca.  Ou talvez tenha amadurecido cedo demais e agora quero rebobinar a fita, voltar no tempo, viver o que não vivi. Tenho este direito e quanto mais conselhos contrários receber, mais desejarei fazer caca.
 
Eu quero é sair por aí, rindo aquelas risadas escrachadas e idiotas de gente que não sabe beber, tragando com o olhar o que eu bem entender.
 
Eu quero é sair por aí, indo de lá para cá, bem acompanhada de um homem que deseje me conquistar.
 
Eu quero é sair por aí, de peito aberto, alma nua, pelos barzinhos boêmios da cidade e do mundo, sem pressa de ir ou ficar.
 
 
 
 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Caminhos sem volta

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS


Vi um pequeno vídeo, com um fragmento de uma aula de Filosofia do professor Olavo de Carvalho, que me pareceu muito interessante, para não dizer irreverente. Ele disse o tipo de coisa que muitas vezes nós falamos só para nós mesmos e com certo receio e constrangimento.

Ele disse que pessoas que se aprofundam muito intelectualmente se sentem deslocadas no meio dos amigos que fizeram antes de iniciaram a vida intelectual. 

É com tristeza que concordo com Olavo de Carvalho. Esta ficha caiu para mim há muitos anos, mais especificamente em 2008, quando cursava meu último ano de doutorado. 

A gente não deixa de gostar de alguém que fez parte da nossa vida só porque tomamos rumos diferentes. O carinho continua. Mas realmente a coisa fica meio desconexa, sem liga, sem chilli.

Como diria Mário Sérgio Cortella , não há uma separação entre vida pessoal e profissional. A vida profissional também faz parte da pessoal. É tudo uma coisa só. E quando uma pessoa se apaixona pelo saber e passa a entender que quanto mais ela estuda , mais dúvidas surgem, fica complicado conviver com pessoas imersas em um mundo de certezas absolutas, frases prontas, lugares comuns, verdades fechadas.

Fica complicado ter uma conversa instigante com pessoas pouco abertas ao novo, ao diferente , que encaixam tudo e todos em categorias fechadas e que mostram pouco interesse ou até mesmo certo desprezo pelo conhecimento intelectual, formulando frases do gênero: "Para quê serve isso?"

Sim, algumas amizades antigas continuarão no nosso dia a dia. Outras uma vez por ano. Outras ficarão apenas no coração, num lugar aconchegante e terno. Mas no cotidiano mesmo, no embate do dia a dia, na luta diária , preciso concordar com Olavo de Carvalho: ficarão aquelas pessoas abertas e apaixonadas pelo conhecimento. Ficarão as pessoas que instigarão a nossa curiosidade cada vez mais  e que nos farão alçar voos cada vez mais ousados , tendo como única certeza o abismo sem fundo que é o ato de aprender. 

Sim, a vida intelectual é um caminho sem volta. Você já não rirá das mesmas piadas nem se encantará pelas mesmas conversas e filmes.  Os seus livros de cabeceira serão outros e seu conceito de diversão será considerado estranho para a maioria.  Você de vez em quando deixará escapar alguma excentricidade que despertará expressões desdenhosas. Em alguns momentos, você vai se sentir muito sozinho. Muito incompreendido. Em outros , mentalmente , vai mandar todos ao redor ir à merda , com um sorrisinho sarcástico de canto de boca. 

Você vai passar a questionar tudo e todos, desde os frívolos padrões estéticos impostos pela sociedade até os temas mais embaraçosos como o incesto.

Nada é certo ou definitivo para você. Tudo pode ser debatido. Tudo pode ser destrinchado.  É angustiante. É claustrofóbico. É lindo. 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Vamos falar de masturbação feminina?

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS



Lendo um texto divulgado pela página BBC Brasil, me espantei ao saber que o tema da masturbação feminina ainda é um tabu, até mesmo entre mulheres bem colocadas no mercado de trabalho, que exercem profissões mais descoladas como a de jornalista.

Não que eu seja um exemplo de liberalidade. Até bem pouco tempo, eu podia ser bem caretona. Mas mesmo assim, há muitos anos falo tranquilamente sobre o assunto e não tenho a menor vergonha ou receio de dizer que me masturbo desde os três anos de idade. Talvez me masturbasse antes, mas não me lembro.

Masturbação é uma fonte de autoconhecimento profunda e deliciosa. É prazer garantido. Obviamente, não tem a emoção de um ato sexual, mas é relaxante e faz bem para o corpo e a mente.

Masturbação é algo extremamente natural e saudável. Não praticá-la gera estresse. E com a vidinha corrida de merda que a maioria das mulheres leva, não me parece realmente necessário colocar mais uma fonte de estresse, não é?

Vou mais longe. Ter um parceiro sexual não invalida o ato de se masturbar. Uma coisa complementa a outra.  Não é porque o seu namorado ou marido é excelente na cama , que você não possa brincar com você mesma.

Vou mais longe ainda. Tem homens que curtem muito ver a sua parceira se masturbando , pois quando uma mulher se toca abertamente, sem tabus, ela revela sem palavras que ela não teme o próprio prazer.

Na verdade, a masturbação é a ponta de um iceberg gigante. O problema não está na masturbação em si. O problema de fato está no prazer feminino. Ainda é um tabu social a mulher sentir prazer, principalmente sem a ajuda de um homem.

Homens se masturbam normalmente porque homens são vistos como seres individuais, autônomos. Nós não. O nosso prazer precisa estar sempre ligado a um homem, a um relacionamento, a um amor. Muitas de nós ainda se valoram pelo homem que nos acompanham. Não falo isso do alto de uma petulante superioridade. Falo isso como alguém que já se vitimizou demais.

O singular existe apenas para o masculino. Nós não existimos como seres individuais. Um homem sozinho optou. Uma mulher sozinha não tem opção. Esta é ainda a crença de muitas pessoas.

A masturbação feminina provavelmente deixará de ser um assunto embaraçoso quando começarmos a nos ver com mais autonomia e liberdade.

 
 
 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas