sábado, 16 de abril de 2016

O que não cabe em nenhuma palavra

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
Voltando numa noite de sexta para casa. O vento batendo no meu rosto.  Uma felicidade que não podia ser explicada com palavras...soou clichê?
 
Concordo. Mais clichê lugar comum frase pronta do que vento batendo no rosto enquanto a gente se sente escandalosamente feliz não existe neste mundão de meu Deus, que em alguns momentos, se parece mais um mundinho, uma grande vilazinha onde todo mundo fuxica, mas ninguém realmente sabe , muito menos sente, o que se passa com a gente.
 
Mas voltando ao vento e à felicidade que não cabe em palavras, voltando ao clichê lugar comum frase pronta ( odeio e cultuo mesmices quase que na mesma proporção, numa atitude esquizofrênica) muitas vezes o melhor e mais pleno não pode ser transcrito num poema. E quando a gente tenta pôr tudo num papel, por mais bonito e poético que fique, sempre falta uma palavra , uma vírgula, reticências...
 
Aí, a gente pensa: esqueci esta tal palavra no metrô ou no táxi? Ou ela voou pelo vento, misturando-se na noite arredia enquanto fechei os olhos e senti os cabelos acariciando o meu rosto dançando ao sabor da brisa? Que brisa...sorrio sozinha, para mim mesma, desconstruindo velhos poemas em minha mente, em busca da palavra perfeita.
 
Será que esta palavra realmente existe ou é impressão minha? Sensação vaga de quem se embriagou de alegria e cismou que esqueceu um resto de poesia dentro de uma bolsa qualquer?
 
Será que posso encontra-la entre os lençóis amarfanhados da minha cama solitária? Será que posso esbarrar com ela por acaso se levantar no meio da noite sem acender as luzes do quarto?
 
Será que ela se esconde no fundo do meu copo de vinho? Daquele copo que deixei pela metade na mesa do bar onde estávamos? Mentira...nunca deixo copos pela metade...não suporto ambiguidades ou meios termos...tomo tudo e deixo depois que um sentimento qualquer me tome  e me leve para terras distantes.
 
Saio do táxi, entro em casa. Procuro a chave na bolsa. Demoro a acha-la. Nada da tal palavra.
 
Me frustra perceber que nem sempre existe a tal palavra. Como poeta quero transformar o mundo em um soneto...soneto não...em uma poesia de versos livres...livro-me de tal busca...pelo menos até o dia seguinte.
 
 

 
 
 
 
 


 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 






sexta-feira, 15 de abril de 2016

Dois corpos perdidos na multidão do descaso

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

 Que a realidade nunca nos faça ver que as lanterninhas de papel de Blanche Dubois são apenas lanterninhas.
 
Que a luz tênue do amor romântico sempre incida suavemente sobre nossos  olhos que se buscam no caos do mundo, nos escombros cinzas da realidade mesquinha.  Nos escombros de um mundo que ironiza tudo aquilo que não pode compreender.
 
Que sejamos sempre como João e Maria no nosso mundo de faz de conta. Que a nossa lei maior seja sempre esta: viver de amor.
 
Que o mundo desabe lá fora pois tudo ocorre aqui dentro, como diria Clarice Lispector sobre os que amam...que tudo sempre aconteça quando seus olhos famintos encontrarem os meus implorando por mais um pouco de amor.
 
Amor bom nunca é demais. Nunca é o bastante. Sempre há espaço na taça para mais um pouco deste vinho que embriaga a alma.
 
Sempre há espaço para mais um pouco desta alegria intolerável que rasga o peito em mil pedaços...despetalando-o num mundo de mil possibilidades.
 
Fecho os olhos. Não quero saber de mais nada. E você entende o quanto me custa não compreender tudo nos mínimos detalhes...você sabe o quanto me custa não entender cada vírgula desta loucura que faz tudo ganhar um sentido.
 
Fecho os olhos e estendo a minha mão a você. Que me leve para onde possa me perder de tudo que sei ...que me leve para onde possa me encontrar...aquela estranha que sou que me olha sorrindo maliciosamente através do espelho da minha alma.
 
Que possamos dançar sem escutar a música. Ou que escutemos aquilo que ninguém  mais pode escutar, falando de Nietzsche com nossas vozes embriagadas de tédio e louco desejo.
 
Que sejamos dois corpos nos perdendo na multidão do nada, na multidão do descaso...ou seria do acaso? E que sempre possamos desdenhar  daqueles que fizeram a lição de casa da sociedade enquanto andamos trôpegos por aí, meio loucos de filosofia e amor.
 
Me dê sempre um último beijo no rosto antes de me deixar partir...me lance sempre um olhar de quem sabe que haverá um próximo capítulo, uma nova citação.  Me desconstrua em mil letras, mil palavras, infinitos poemas...que voam pela imaginação...
 
 
 
 
 


 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 







quarta-feira, 13 de abril de 2016

Bote mais água no feijão e pegue mais uma cerveja na geladeira: quando a vida se torna sensorialmente simples

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Adoro fazer comparações entre comida e a vida. Entre comida e amor. Amizade. Alegria de viver. Aconchego. Preguiça gostosa.
 
Adoro relacionar um bom prato de macarrão com família, almoço de domingo, vinho tinto, laços que nunca se rompem, uma embriaguez leve na alma.
 
Adoro relacionar feijão, farofa , toucinho, tudo muito bem temperado e pouco light com o apetite com que podemos devorar a vida.
 
Adoro relacionar  um bom fast-food com momentos lentos e indolentes diante de uma tela de TV ou computador numa tarde fria.
 
Batata frita com ketchup tem gosto de happy hour, coleguismo beirando à amizade. Provolone à milanesa tem gosto de "hoje quero ser feliz". Pastelzinho de carne quentinho, faz lembrar de feira livre, despojamento, aqui agora , sem frescura , num impulso.
 
Uma carne chiando na grelha ao lado do pãozinho de alho faz pensar em molho à vinagrete. Faz pensar em cerveja gelada. Faz pensar em "Hoje é domingo!".
 
Pizza sempre tem uma cara de final de semana, de tô nem aí, estou com fome, acho que vou papear ou ver TV. Pizza nos faz um pouco crianças. Mais do que já somos.
 
Um risoto com champanhe sempre tem uma cara de romance...ai, meu Deus que frio no estômago!
 
Sim, adoro estabelecer relações entre comida e tudo o mais que existe.  Adoro relacionar sabores e personalidades. Sabores e sentimentos. Sabores e momentos. Adoro doces amargos, nuances picantes, um pouco mais de sal além da conta.
 
Sim, é bom quando a gente olha para alguém que a gente não esperava com a maior calma e diz simplesmente para nós mesmos que precisamos botar mais água no feijão e pegar mais uma cerveja na geladeira. É gostoso quando a gente se entrega ao sabor da simplicidade do improviso. Quando a gente não se perde em formalidades e todo mundo come ao redor da mesma mesa com boca boa, salpicando o feijão gordo com farinha e molho de pimenta. É gostoso quando a vida se torna afetiva e simples, mesmo que estejamos a saborear um prato de scargots com prosecco.
 
 


 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 








 

terça-feira, 12 de abril de 2016

Mais uma xícara de café numa manhã fantasiosa

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

É impressionante e quase constrangedora a percepção de como ficamos indolentes numa manhã aquecida pelo amor.

Sinto vontade de emendar uma xícara de café na outra como emendo e costuro cada um dos meus pensamentos que vão formando uma passadeira, um caminho de mesa com aqueles pontos abertos do crochê.

Em cada uma destas aberturas, me deixo cair cheia de uma preguiça gostosa e modorrenta, uma vontade de não sei o quê...uma vontade de ficar na mesma. Talvez , a felicidade seja isso mesmo: querer permanecer sem pressa. O futuro não existe. Futuro? Não, não sei disso não...respondo meio sorrindo , me balançando numa rede imaginária que me transporta para galáxias distantes.

Futuro? Não, não quero saber. Estou bem aqui, obrigada. Balança um pouco mais a minha rede por favor. Meu pé descalço quase encosta no chão...cheiro de café. Quero mais café. Quero principalmente o cheiro do café que invade as narinas e primitiviza  a minha existência.

Primitiviza? Existe tal palavra? E daí, se existe ou não? Guimarães Rosa foi perito em criar palavras...as criarei também com este sorriso matreiro e cheio de uma preguiça indecente...posso tudo o que quiser, mas não quero nada. Estou preenchida de tudo, transbordando como um seio gigante que jorra leite e afeto.

E continuo a me balançar em minha rede imaginária, mastigando meus pensamentos, bebendo deles, sentindo o cheiro do café que me enlaça nas mais caseiras e primitivas lembranças de uma possível felicidade.

 
 



 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 








 

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Esta minha alma de barro

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
Olho pela janela da alma. Das possibilidades. Vejo cores mil se dissolvendo à minha frente. Um perfume suave e picante invadindo e preenchendo as minhas lacunas, meus abismos...fazendo meus vazios transbordarem.
 
Olha para o meu maior e mais obscuro e escuso segredo com olhos embriagados, com olhos de quem já tudo viu, com olhos de quem tudo já sentiu e viveu...
 
E a mim resta simplesmente sorrir meio inconsequente e louca, meio desvairada e esvaída, meio nua e santa.
 
A mim resta brincar com as palavras que nada dizem, jogando-as para um canto e outro da boca como a parte finda de um doce muito amargo que se acopla a mim. Como o findar de um vinho envenenado que me enrubesce a alma. Que me faz caminhar e dançar meio sem rumo pela noite escura sem medo do amanhecer, fingindo de forma canastrona, me atirar de viadutos erguidos pelo status quo.
 
A mim resta lamber minhas feridas ainda abertas. Chorar e gargalhar de pena de mim mesma. De amor.
 
 
 

 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 








 

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Uma dose de fúria

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Deito na cama e sinto o calor modorrento grudar em minha pele como uma lembrança distante e persistente.

Olho para dentro de mim e percebo que às vezes é preciso virar o copo de uma só vez. Que é preciso virar o copo com fúria, engolindo sem pensar uma dose de algo que a gente não sabe bem o que é.

Viver é acordar no meio da noite, no escuro. É apalpar as paredes de uma casa desconhecida, em busca de um gole de água gelada que engane por alguns segundos uma insuportável sede que nos golpeia.

Viver é agarrar-se a qualquer coisa vaga para continuar sentindo o assoalho debaixo dos pés descalços. É tecer no ar versos de uma poesia que nunca chega ao final.

Sim, a vida é poesia de versos livres. É soneto com 13 ou 15 versos. É uma mulher linda arrastando uma perna com olhos cheios de uma paixão devastadora.

Viver é se rasgar pelos galhos secos da floresta. É atirar-se de abismos imaginários só para sentir o efeito que tal queda causa.

Viver é recriar as cores da mente em busca da pintura mais passional. 

Viver é acumular cicatrizes. É transformar-se numa caricatura de si mesmo. 

Sim, é preciso virar um copo com e de fúria. É preciso trazer os olhos da alma chispando, os lábios profanos. É preciso gritar e gemer até o colapso da lucidez estridente dos insanos, dos apaixonados e de todos os seres errantes que vagam por estas terras miseráveis.

É preciso criar na mente leitos de pétalas coloridas para suportar este barro que entra pelos poros da alma. Que sinto em minha boca. Que sinto em teu beijo constrangido.

É preciso recriar-se furiosamente. É preciso enfiar a adaga o mais fundo que se pode para ver o sangue escorrer puro e limpo.






Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 
























domingo, 3 de abril de 2016

Status quo, vai ver se eu tô na esquina dançando o ula ula

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Status quo, vai ver se eu tô na esquina dançando o ula ula e enxugando gelo. 

Ok.Ok.Ok. Algumas normas precisam existir, caso contrário quase todos nós ou todos já teríamos sido atropelados ao sair de casa em qualquer manhã ou tarde...se não houvesse normas, pouca gente sairia de casa de manhã.

Ok.Ok.Ok.  Algumas regras são necessárias e fazem muito bem, obrigada. Mas tem outras que francamente...nem para limpar a bunda servem. Algumas são indignas até para entrarem em contato com o nosso cocô. O mais fétido cocô se sentiria ofendido e magoado.

Não consigo mais levar a sério quem realmente acredita que a competência e a idoneidade de um profissional se faz por meio do cinza do terninho e da maquiagem nude, que em minha modesta e super pessoal opinião é uma merda. 

A mulherada passa produto em cima de produto,  perde meia hora de sono para passar um monte de meleca na cara e no final das contas ficam com jeito de quem acabou de sair do banho.  Podem me considerar perua, mas sou muito mais meu lápis preto trágico e meu batom vermelho estilo estou aqui me adorem ou eu deprimo.  Me "empiruo" em 5 minutos e pareço estar maquiada sem passar nada no rosto, sem perder preciosos minutos de descanso.

Se a pessoa gosta de roupa cinza e maquiagem nude é outro papo. Tudo bem. Gosto não se discute. O problema é achar que a maquiagem e a roupa definem a sua competência e idoneidade. É foda! 

Estou sem saco para gente que fica cagando regra o tempo todo , que consulta o grande manual da sociedade até para soltar um peido. A pessoa querer ler o manual, ainda vai. O problema é querer obrigar todo mundo a ler e a seguir como uma religião fanática.

Tem gente que faz o joguinho do status quo e até se diverte. Tem um lado cômico nesta dinâmica meio esquizofrênica. O triste mesmo é a pessoa acreditar no status quo como a um mantra que trará prosperidade e felicidade.  Como a uma corrente que trará algo de maravilhoso em sete dias. 

Sim, tô de saco cheio do status quo que fica enfiando o dedinho sujo nas melhores coisas da vida, nas únicas coisas que realmente fazem a nossa vida ter algum sentido. 






Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.