terça-feira, 8 de março de 2016

Mais feiticeira do que princesa: uma homenagem às mulheres

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
 
A garota desbocada não poderia deixar de se manifestar no dia internacional da mulher. Já escrevi meu artigo ferino, porém bem educado e com pitadas acadêmicas para a Obvious.
 
 
Aqui, posso me despir no quarto ou no banheiro de porta aberta.  Se quiser entrar , puxe uma cadeira ou sente-se na cama. Pouco me importa. Só quero que fique à vontade...ou não, como diria Caetano Veloso.
 
 
Ontem, por sugestão de uma aluna, assisti ao filme Malévola. Caímos num debate sobre a semiótica dos contos de fadas e algumas garotas bateram o maior bolão.  Sim, as meninas de hoje dão um show de esperteza nas da minha  época, quando eu era uma garota no sentido stricto sensu.
 
 
As novas gerações já perceberam que o amor romântico é mais problema do que solução.  Se antes a gente pensava que era impossível ser feliz sem amor romântico, hoje em dia, muitas garotas já sacaram que até dá para ser feliz apesar do amor romântico.
 
 
Vivi 37 anos no alto de uma torre esperando que alguém me salvasse. Não precisava ser um príncipe. Podia ser alguém comum, de carne e osso, sem carro, sem dinheiro no banco, contanto  que me amasse e se deixasse amar por mim, num jogo sem perdedores. No verdadeiro amor só há vencedores. Pelo menos esta era a minha crença.
 
 
As meninas de hoje parecem entender que tudo é jogo mesmo no mau sentido da palavra.  E que se a gente quiser sair pelo mundo e viver, tem que descobrir uma escada de incêndio ou qualquer outro meio de escaparmos da torre.
 
 
Para alguém como eu, este aprendizado é muito duro.  Mas como ainda sou uma garota lato sensu, acredito que  possa absorver o essencial desta filosofia de vida toda.
 
 
Aprender não é problema para mim.  Morrerei aprendendo.  Não tenho medo de juntar as minhas tralhas e mudar de estrada caso a atual esteja me levando para um destino indesejável.  Aprender e recomeçar são os meus nomes do meio.
 
 
E esta é minha pequena e mordaz homenagem ao dia internacional da mulher.  Morram de paixão.  Quebrem a cara. Mas nunca se esqueçam de quem vocês são: as senhoras de seus próprios reinos e muito mais feiticeiras  do que princesas. 
 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 







domingo, 6 de março de 2016

Descalça e nua

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS


Comecei meu dia ouvindo canções francesas famosas..."Que rest t-il de nos amours" e "Hier encore J'avais 20 ans". A segunda,  na nostálgica voz de Charles Aznavour.


E enquanto me deixo levar pela beleza melancólica destas canções, penso numa frase que li na internet: " Vi os sonhos se prostituindo na zona de conforto" ( Zack Magiezi).


Sim, sonhos adoram se prostituir na zona de conforto. Sonhos adoram fazer sexo com indigentes e depois deitarem exaustos num canto qualquer, sem carinho, sem coberta, como diria a música "Atrás da porta" , de Chico Buarque.


Sim, sonhos adoram se embriagar com estranhos para se esquecerem de onde vieram, para não precisarem nunca mais voltar. Para não precisarem mais se confrontar com seus medos.


Sim, sonhos são para aqueles que sabem sonhar. São para aqueles que não os temem...são para aqueles que não temem despetalar o coração mil vezes.


Sim, sonhos são para aqueles que tem asas na alma e sabem voar desde sempre, antes deles mesmos.  Antes da invenção do mundo. Antes da invenção do amor.


Sim, sonhos são para aqueles que já nasceram embriagados de poesia e afeto. Para aqueles que trazem um verso tatuado na alma e andam descalços no mundo, ironizados, humilhados.


Sempre me lembro do romance "Floradas na serra" da escritora Dinah Silveira de Queiroz. Me lembro mais apaixonadamente da personagem de Lucília. Ao presenciar Elza jogando a felicidade fora por medo, Lucília, com uma costela a menos e abandonada pelo homem amado, diz à Elza, que mesmo sendo ela , Lucília, uma infeliz,  sente pena de Elza pois não há nada mais triste do que abrir mão espontaneamente da própria felicidade.


Obviamente, as palavras não são exatamente essas...li este livro há milênios. Mas o essencial ficou impregnado na minha alma, como tudo aquilo que realmente importa.


Sim, concordo com Lucília. Não há nada mais triste do que ser infeliz por opção. Deste mal não morro. Como Lucília, ando meio desesperada e louca pelo mundo.  Sou daquele tipo de gente que os adeptos do status quo crucificariam de bom grado, depois de severos e ácidos julgamentos. Claro que entre o julgamento e a crucificação, passariam as mãos em mim. É assim que funciona o status quo. 


Mas trago a alma limpa. Nunca joguei o que considerava minha felicidade fora com as próprias mãos. Nunca deixei meus sonhos se prostituirem pelos becos do politicamente correto e do socialmente estabelecido.


E sigo pelo mundo, descalça e nua,  tecendo poesia com as minhas lágrimas invisíveis.



Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 





sábado, 5 de março de 2016

Sobre tudo aquilo que não aconteceu

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
 
Passeando pelo Facebook hoje, me deparei com um post que mexeu muito comigo. Algo aparentemente anacrônico em tempos de amores lights e organizados. 
 
Me deparei , na página da atriz Clarice Niskier,  com um vídeo que apresenta a versão original da canção francesa "Ne me quitte pas". Esta versão é cantada por seu autor, Jacques Brel, baseado em fatos da sua vida. Conheci esta música na voz de Maysa, que era tema de abertura da minissérie "Presença de Anita".  Para quem não sabe, Ne me quitte pas significa Não me deixe em francês.
 
Quando fazia teatro, durante um ensaio, enquanto ouvíamos canções francesas no auditório para entrar no clima da peça "O balcão" de Jean Genet, comentei jocosamente e com uma gota de desespero bem humorado no fundo da alma, que aceitaria de bom grado ser deixada mais uma vez apenas para ouvir "Ne me quitte pas" novamente, completamente destruída.
 
Não, não sou masoquista. Estava sozinha naquela época. É simples fazer licenças poéticas sobre o amor quando não se ama ninguém. Quando não se está realmente destruído.
 
Naquele tempo, quando estava prestes a me formar atriz e a iniciar o doutorado, achava que eu já havia passado pelas maiores alegrias e pelas piores tristezas da vida, que mais nada poderia verdadeiramente me atingir. Pensando naquela tarde de domingo, tudo que me resta a fazer é ouvir "Ne me quitte pas" mais uma vez com um sorriso de canto de boca e um filete invisível de sangue escorrendo pela alma.
 
Tem gente que nunca aprende. Tem gente que nunca desiste. Pertenço a esta patética categoria de pessoas que nasceram para serem pisadas. 
 
Dois anos e meio mais tarde , disse "Não me deixe" para alguém que foi capaz de dizer eu te amo para mim apenas quando imaginou que eu estivesse adormecida.  Eu pedi que não me deixasse com os olhos cheios de lágrimas, a voz estrangulada , em tom de prece, e meses mais tarde , tudo que pode fazer foi dizer eu te amo para alguém que ele imaginava não poder ouvir.
 
Sim, disse "Não me deixe" com outras palavras, outras vezes , para outras pessoas, sempre com sincero desespero.
 
Escuto "Ne me quitte pas" nesta manhã preguiçosa. Ela me faz companhia mais uma vez. Trago meu cigarro imaginário e sinto saudade de tudo que nunca aconteceu.
 
 
 
 
 
 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 



sexta-feira, 4 de março de 2016

Sobre escrever-parte II

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
 
Muitas pessoas  acham surpreendente quem escreve regularmente. Eu acho surpreendente quem consegue se localizar num bairro desconhecido.  Já me perdi na região de casa...na época em que ainda dirigia, uma vez tive que ser escoltada pelo meu pai...para os mais críticos, uma situação ridícula. Para os mais bem humorados, engraçada. Sim, foi ridículo e engraçado ao mesmo tempo.
 
Me surpreendo com os dentistas! Meu Deus! Como eles conseguem fazer implantes e restaurações num espaço tão pequeno! Me surpreendo com quem faz cirurgia de um modo geral, pois não posso ver uma gota de sangue sem dar um chilique básico.
 
Sempre me lembro de um dia , na escola, em que vi uma mancha esverdeada no meu braço. Mostrei a mancha à minha amiga ( atualmente ela é dentista) e ela disse com a maior calma do mundo que eu tinha estourado uma veia. Eu devo ter esbugalhado os olhos e com a jugular pulsando, eu respondi em pânico: "Como? Eu estourei uma veia?" Eu não entendi na hora como ela poderia estar tão calma. Eu tinha estourado uma veia! RSRS
 
Passei tão mal que a escola ligou para a casa e minha mãe me buscou. Esta história me envergonha mais do que a da escolta.
 
Devo ter estourado uma veia carregando a mochila absurdamente pesada. Um espécie de bedel da escola, muito gentil,  me acompanhou até a saída e carregou a minha mochila. Ele devia ter 2 metros de altura e ao colocar a minha mochila no ombro, se assustou com o peso.
 
Mas voltando ao ato de escrever...muitas pessoas sentem curiosidade em saber o que move um escritor, o que faz um escritor escrever. Não posso responder por todos. Então, responderei por mim já que este é o meu espaço. Já que o Garota desbocada é o meu banheiro literário.
 
Escrevo porque estou triste. Escrevo porque estou feliz. Escrevo porque tenho esperança de que as minhas palavras se materializem. Escrevo porque desisti de esperar e sonhar.
 
Escrevo porque o dia é cinzento e me inspira. Escrevo porque o dia está ensolarado e me irrita. Escrevo porque estou cansada de viver. Escrevo porque estou cansada de não viver.
 
Escrevo porque é manhã e me sinto disposta. Escrevo porque é noite e preciso fazer um balanço do dia. Escrevo porque tomei muito café e estou agitada. Escrevo porque o café acabou e estou entediada.
 
Escrevo porque é dia de festa. Escrevo porque é dia de luto. Escrevo porque é um dia banal e quero torná-lo especial.
 
Escrevo porque não tenho mais nada a fazer. Escrevo porque não sei fazer nada melhor.
 
Escrevo porque deixei o trem da esperança passar. Escrevo porque acredito num mundo melhor. Escrevo porque o bolo insiste em não assar e o leite em não ferver. Escrevo porque o leite se derramou pelo fogão e eu odeio limpar.
 
Escrevo porque diz que me ama. Escrevo porque me ignora. Escrevo quando me tira para dançar. Escrevo quando durmo só em minha cama. Escrevo para matar o tempo. Escrevo para ficar na História.
 
Escrevo quando tudo é tédio, silêncio, penumbra. Escrevo quando tudo são cores e gemidos tépidos. Escrevo quando tudo é gozo dolorido e alegria. Escrevo porque tenho tempo. Escrevo porque sinto que o meu tempo já passou.
 
Escrevo para desabafar. Para irritar. Para me irritar. Para inspirar, exorcizar , esfoliar a alma. Escrevo por vício, por costume , por paixão. Escrevo para me manter sã. Escrevo porque sou insana.
 
Escrevo porque as folhas caem. Porque as flores desabrocham. Porque sei que do outro lado do planeta há nevascas. Porque o sol insiste em brilhar. Escrevo porque sei que outras pessoas choram. Escrevo porque a vida é trágica. Escrevo porque a vida é sonho.
 
Escrevo porque sinto um perfume no ar e me recordo de uma lembrança antiga.  Escrevo quando sinto cheiro de caramelo. Quando sinto gosto de pudim de leite , paçoquinha. Escrevo porque uma música me descontrola. Escrevo porque estou meio morta. Escrevo porque estou viva.


 
 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 

quarta-feira, 2 de março de 2016

Garotos que fazem bosta e garotas desbocadas

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Hoje , li um texto bem interessante na Obvious. Confesso que poucos textos mexem comigo porque sou bem exigente quando o assunto é literatura. Para falar a verdade, sou bem exigente com muitas coisas...muito mais exigente do que eu admito para mim mesma.

Criei o mito na minha cabeça de que sou mega simples e que um amor e uma cabana é tudo que eu quero e que para mim tudo está bom...blá blá blá...

Sei lá. Acho bonito gente modesta, que se contenta com pouco. Me parece nobre. Sim, estas pessoas que se alegram com qualquer coisa, me parecem mais evoluídas espiritualmente. E eu as admiro profundamente.

Sim, coisas pequenas me alegram. Sempre me lembro do meu contentamento quando era criança e meu pai trazia do trabalho um bloquinho de papel timbrado e uma caneta Bic. Aquele bloquinho me inspirava deliciosas brincadeiras de escritório.

Até mesmo hoje, basta saber que vai ter macarrão para eu ficar feliz. Sim, uma boa pratada de macarrão com uma taça de vinho me deixa bem contente. Uma chuvinha na hora de dormir. Um bom filme para ver debaixo do cobertor. Uma cervejinha com os amigos.  Sim, coisas simples me tocam pra valer! Mas por outro lado, não me contento com amores meia boca, amizades mais ou menos, projetos profissionais toleráveis e uma vida mediana.

Não preciso de casa de campo ou apê na praia para ser feliz. Até mesmo porque ter um segundo imóvel pode criar muitos dissabores. Penso como a atriz francesa Juliette Binoche. Quanto mais simples for a vida, melhor vivemos.

Não preciso de carro do ano nem roupa de grife. Não sou um outdoor.  Posso andar o ano inteiro com o mesmo tênis e fico de boa.  Tenho roupas em meu armário há mais de vinte anos. É, acreditem se quiserem. Passava quase um mês na casa do meu ex-noivo com uma mala apenas.

Mas eu gosto de conforto sim. Eu gosto de ir a lugares em que sou bem tratada. Eu gosto de gente que me valoriza. Eu gosto de gente que olha nos meus olhos enquanto falo.  O restaurante não precisa usar toalhas na mesa. Adoro aquele estilo Outback. Mas se tiver toalha, que seja limpa.  Não sou de luxo não. Mas gosto de certas delicadezas.

Adoro comer arroz com ovo frito e carne moída com quiabo. Mas precisa estar bem feito. Quando bate aquela fome de peão, uma comidinha caseira para mim é o melhor. Mas curto experimentar comidas exóticas e tenho paladar para pratos sofisticados.  Como afirma constantemente uma querida amiga, comida é cultura.

Me sinto bem tanto num barzinho simples como num restaurante de luxo. Me adequo à situação. No metrô, faço cara de trabalhadora. No táxi, bato papo com o motorista.  Gosto de conversar com pessoas das mais variadas idades, orientações sexuais e níveis culturais e econômicos.

Acho que confundi ser eclética e adaptável  com ser simples. Sim, sou uma pessoa eclética, que se adapta, mas não sou propriamente simples.  Posso fingir que  está tudo bem por mera educação. Mas internamente, prometo a mim mesma que nunca mais vou me sujeitar à determinadas situações. Costumo cumprir tais promessas.

Coloco meus amigos na classe executiva do meu avião. Mas se eles me colocam na econômica, não corro atrás. Já corri. Foi um mau hábito que deixei no passado.

Amo intensamente e para valer. Sem mas nem poréns. Dou o meu melhor e depois do fim sofro até não poder mais. Até me tornar a mais miserável das criaturas. Eu fico tão patética que eu chego a sentir pena de mim mesma. E como tenho senso de humor, às vezes, rio do meu sofrimento.

Mas após um tempo, acabo descobrindo que a relação não daria certo mesmo  porque não aceito pessoas que titubeiam diante dos sentimentos, que oferecem migalhas de afeto. Comigo é tudo ou nada.  Ou eu deslumbro completamente o homem amado ou prefiro que ele vá embora e nunca mais olhe na minha cara. Radical demais? Sim, sou.  Em tempos de amores lights, a minha frase pode soar calórica demais. Me desculpem. Não me importo de chocar os civilizados que bebem chá com seus exs.

Não existe relação possível entre duas pessoas que falaram sobre amor. Vi isto num filme e adorei. Não dá para virar amigo de quem jurou  nos amar para sempre e depois se foi. E eu sinceramente tô cagando aos montes se me acham imatura por isso. Adoro esta expressão "cagando aos montes". Estava esperando uma oportunidade para usá-la!

Não, não sou simples. Sou eclética. E posso ser o que quiser nos braços de um homem, contanto que ele me dê a sua alma.

Mas voltando ao texto da Obvious...ele me inspirou a escrever este monte de coisas porque o autor ao falar sobre pessoas que cortam relações do nada ( o famoso e cruel ghosting) acabou se assumindo como uma pessoa que foge de relacionamentos.

Embora a atitude em si não seja louvável, a sinceridade para assumir o erro foi demais!  Acho que tá faltando gente para dar mais a cara à tapa. Para se expor. Para dizer: "Meu, eu não sei o porquê, mas eu faço cagada mesmo", "Eu sou um bosta", "Fuja de mim se você não tiver titica de galinha na cabeça".

 Um texto assim, uma confissão rasgada pode confortar muito mais a alma do que textos melosos.  Tô cansada de autoajuda. Tô precisando de gente que jogue  merda no ventilador, que jogue merda na nossa cara. Que faça a gente encarar a merda, sentir o cheiro. A vida não é um conto de fadas.  Não existem príncipes nem princesas. E sim garotos que fazem bosta e garotas desbocadas.



 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 

Se tardou , já falhou

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Hoje, de manhã, me deparei com mais um belo post do Facebook. Era uma citação da poeta Cecília Meireles, em que ela afirmava não deixar portas entreabertas. Ou ela as escancara ou as fecha de vez.

Tal citação me fez lembrar de uma fala atribuída a Jesus, em que ele afirmou gostar do quente e do frio e desprezar o morno.

Nunca gostei de dúvidas, de pontos de interrogação. Talvez é a pior palavra que existe. O não por mais doloroso que seja é mais administrável.

Sempre lembro de uma propaganda de TV que me punha apavorada. Era da cerveja Skincariol. Eles queriam fazer um suspense a respeito de uma nova marca de cerveja e  apresentavam um rótulo amarelo vazio. Ai, meu Deus! Eu ficava apavorada quando via esta propaganda. Depois que experimentei a cerveja o pavor aumentou ...piadinhas à parte. Gosto de cerveja forte, encorpada.  No dia que quero tomar algo leve , suave, peço uma Coca light com gelo e limão ou guaraná com gelo e laranja.

Mas voltando à questão do talvez e das portas entreabertas, concordo com a poeta. E não é para fazer média não. Concordo porque concordo mesmo.  Se quem está ao nosso redor não é capaz de dizer sim nem não, que sejamos nós os capazes de dizer não, porque sim fora de hora, tarde demais, perde a graça.

Desde criança a gente escuta as pessoas falarem  que a justiça tarda, mas não falha. Para mim, se tardou , já falhou.  Certas coisas acontecem numa determinada hora ou não precisam mais acontecer.

Sempre lembro de uma moça que conheci e que contou uma história meio triste. Quando criança, ela queria muito ganhar uma boneca Barbie, mas a mãe não tinha dinheiro para comprar. Quando ela se tornou adolescente , a mãe arranjou dinheiro para comprar uma e perguntou à filha se ela ainda queria uma Barbie. Ela respondeu que sim. Fim do relato.

Fiquei com esta história na minha cabeça durante os últimos 10 ou 11 anos... será que a Barbie foi verdadeiramente desfrutada por uma adolescente?

Sim, acho que sonhos tem data de validade sim. Acho que já escrevi sobre isso em outro artigo. Pode ser que esta moça tenha curtido muito a Barbie dela, muito mais do que eu que tive inúmeras quando era criança. 

Minhas Barbies maltratadas, de cabelo duro e pés decepados. Sim, eu  mastigava os pés das minhas Barbies até eles caírem. A cada Barbie nova, prometia para mim mesma me controlar nesta mania horrível.  Não me perguntem por que eu fazia isso. Realmente não sei. A única poupada foi a última , uma que entreguei intacta a uma prima mais nova. Um tempo mais tarde, vi que minha priminha também havia mastigado o pé da boneca...será que é um mal de família???????? Ai, meu Deus...lá vem o talvez de novo!



 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 













terça-feira, 1 de março de 2016

Sobre o medo e a coragem

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Quando estudava teatro, uma colega disse algo que não compreendi muito bem na época. Ela disse que não acreditava na divisão entre bem e mal , mas sim na divisão entre coragem e medo.

Sim, para a minha colega as pessoas praticavam o mal por medo. E o que consideramos o bem eram manifestações de coragem.

Anos mais tarde , degusto este pensamento como quem mastiga lentamente um bombom recheado de licor de cerejas. Deixo-o impregnar a minha alma. Resisto a engoli-lo completamente antes de captar cada nuance.

Creio no bem e no mal sim. Embolados dentro da alma. Mas faz todo o sentido esta história do medo.

Pessoas extremamente maldosas, que machucam os outros gratuitamente são pessoas apavoradas. São pessoas dominadas pelo medo.

Onde falta espontaneidade, coloca-se máscaras sociais. Onde falta  destemor , coloca-se couraças. Onde falta capacidade de amar, coloca-se a necessidade de ter poder e dominar. Onde falta capacidade de perdoar, coloca-se a necessidade de se vingar.

Sim, talvez minha colega estivesse certa. Talvez todo "mau" seja um medroso que destrói aquilo que não pode sentir, entender , ter e ser.


Talvez por isso pessoas doces e afetuosas sejam as  vítimas escolhidas por aqueles menos capazes de sentir amor. Talvez por isso, as pessoas mais intensas , inteiras e verdadeiras sejam as vítimas escolhidas por aqueles mais quebrados. Talvez por isso as pessoas mais luminosas sejam as escolhidas por aqueles mais sombrios e opacos.

O grande gozo do medroso "mau" consiste em destruir toda forma de beleza e bondade. Qual seria a graça de corromper o que já está corrompido?

Pode soar muito cruel e pesado, mas infelizmente , algumas pessoas se comprazem sim tornando pessoas doces , amargas. Pessoas intensas, sem vitalidade. Pessoas luminosas, apagadas.

Todo gesto de bondade e coragem é um lembrete amargo de que todos nós podemos ter uma vida muito mais plena do que aquela que temos. E o medroso não quer aceitar o convite do amor, da coragem, da felicidade...é mais simples destruir quem o aceita do que criar coragem para aceitá-lo.


Sim, talvez minha colega estivesse certa. Talvez todo manipulador, sádico, perverso seja um grande medroso que não consegue viver com coragem. Isto é, que não consegue viver com o coração. 



 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.