sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Sócrates e as ovelhas

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Acabei de assistir a um vídeo FANTÁSTICO indicado pela minha querida amiga Fernanda Moura. Ela é filósofa clínica e tem me ajudado muito a adentrar cada vez mais neste fabuloso mundo do pensamento lógico e consciente.

 
O vídeo que vi, elaborado por Alain de Botton, fala sobre Sócrates, considerado o mais importante filósofo da Antiguidade grega.
 
Sócrates dizia que tudo que ele sabia era que ele nada sabia. Num mundo como o nosso, cheio de mesmices e frases feitas , este pensamento é no mínimo desconcertante.
 
Apesar de viver em uma sociedade democrática , Sócrates achava que nem sempre a maioria tem razão e que todos os argumentos devem ser refutados até alcançarmos todas as exceções possíveis para cada regra.
 
Acreditava também que qualquer pessoa poderia ser um filósofo se se propusesse a pensar. Mas na prática, a minoria realiza esta atividade , que na opinião do filósofo, é o que diferencia seres pensantes de ovelhas.
 
Para Sócrates , quem não reflete , quem aceita tudo com conformismo era uma espécie de ovelha pois vive no meio das massas , passivamente.
 
O método de ensino socrático pode ser muito doloroso porque ele desconstrói as verdades do seu interlocutor. Atualmente , chamamos de método socrático algo mais light.
 
Quando um professor , por exemplo, permite o fluxo de ideias entre os alunos , questionando-os e fazendo-os pensar sobre conceitos e valores , podemos dizer que de certa forma este docente já está se inspirando em Sócrates.
 
Diferentemente daqueles que cospem todo o conteúdo formal sobre os estudantes sem dar nenhum tipo de margem de manobra para negociações intelectuais.
 
Infelizmente , muitas de nossas escolas e universidades ainda estão impregnadas por este pensamento autoritário, em que se acredita que o professor é o detentor do saber. O professor é um inspirador , um provocador que seduz os alunos rumo à construção do conhecimento.
 
Nenhum saber que não seja elaborado vale realmente a pena. O saber precisa penetrar a alma e transformar o mundo interior . Caso contrário, não passou de decoreba.

Não adianta , por exemplo, defender uma postura libertária e na prática agir como um reacionário. Não adianta se definir como alguém sensível, se na prática , trata-se as pessoas como objetos. Não adianta demonstrar erudição, se na prática leva-se a uma vida medíocre. Não adianta se auto intitular uma pessoa ética , se na prática , mente-se e difama-se terceiros para defender os próprios interesses.
 
 



Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 














quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

À Camila

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS


 É com muito orgulho que recebo em minha vida uma linda jovem de mente palpitante, disposta a mergulhar no mundo acadêmico.

Surpreendeu-me ouvir daquele garota tão jovem que se interessara pelo filme A bela tarde. Arrisco a dizer que é o mais complexo de Buñuel , que por sua vez realizou obras extremamente complexas com raras exceções. Até os mestres às vezes pisam na bola...

Hoje , minha nova orientanda se debruçou sobre um artigo de cinema com aparato filosófico, mais especificamente deleuziano.

Depois , partiremos para um livro mais denso e assim por diante , até ela poder escolher com firmeza seu tema.

Como professora é sempre um enorme deleite deparar-me com mentes curiosas , inteligentes , ávidas pelo saber. 

Escrevo este texto em homenagem à linda e doce Camila Quedas Ramos. Que seja muito bem vinda ao fabuloso, mas às vezes, doloroso mundo da intelectualidade.




Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 














quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Amor

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Um ato sexual realizado com e por amor é sempre um ato sagrado. Ofertar-se inteiramente e integralmente a quem se ama , talvez , seja o único motivo pelo qual se vale a pena nascer e viver.

Um ato sexual realizado com e por amor é muito mais do que o encontro frenético de corpos que se debatem. Que se buscam e se fundem numa espécie de comunhão pagã.

Um ato sexual realizado com e por amor  é uma comunhão de almas. É experimentar e provar e saborear  a essência do outro por meio do encaixe dos corpos, do gosto das bocas, do suor das peles.

Um ato sexual realizado por e com amor é deixar-se viver e morrer dentro do outro. É consagrar-se como alimento sagrado que fortalece a alma de quem ama.

Nos ensinaram que o amor carnal é pecado...pecado é viver sem amor.  Pecado é viver sem o toque e sem o olhar do ente amado. Pecado é atravessar este mundo árido como quem caminha por um deserto.

O encontro amoroso é a maior e mais fervorosa das preces. É mais renovador do que o vinho consagrado. É tudo aquilo que existe de mais sagrado e etéreo. Ninguém deveria deixar este mundo sem conhecer este momento de profundo êxtase...

Mais vale um dia de amor verdadeiro do que uma vida inteira ao lado de um "amor" banal. Mais vale viver a vida inteira das lembranças de um amor verdadeiro do que se submeter ao sexo puro e simples, o mesmo praticado por animais no cio.
 
 


 



Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 














 

Divagações sobre dias de chuva...

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
 
Não pretendo negar os inúmeros benefícios proporcionados pelo sol. Não discordo da teoria de que em países frios os índices de depressão são maiores. Quero apenas dizer que faço parte de uma minoria incompreendida que se sente feliz em dias de chuva.

Os dias cinzentos e frios, com uma chuvinha fina, podem nos obrigar a uma postura mais reflexiva diante da vida e diante de nós mesmos. Um dia frio pede um bom livro, um filme mais introspectivo, uma conversa intimista.

Os dias cinzentos e frios podem ser uma boa oportunidade para olharmos para dentro de nós mesmos. Podem ser uma oportunidade para fazer uma leitura mais complexa, estudar um assunto qualquer, escrever, transformar pensamentos vagos em palavras consistentes.

Os dias cinzentos e frios facilitam a intelectualidade, o gosto por uma música clássica, um filme antigo. Ver um suspense de Hitchcock numa tarde cinzenta pode ser bem inspirador . Assistir a um épico enrolado em um cobertor pode ser bem aconchegante. Um filminho de terror, mais assustador. E se olharmos pela janela do metrô num dia frio, ouvindo uma música instrumental, as pessoas se movimentando na plataforma com seus casacos e guarda- chuvas nos parecerão dançarinos executando uma espécie de coreografia.

Tomar um café fumegante ou um chocolate quente num dia frio é saboroso. Se num dia ou noite fria não é possível tagarelar ao redor de uma mesinha ao ar livre com um copo de cerveja gelada na mão, é delicioso tomar um chocolate com rum num barzinho alternativo ou uma taça de vinho barato ao som de um jazz ou de um blues. Os dias frios e cinzentos me trazem um gosto de boemia à boca e na alma tudo parece fazer mais sentido.

O frio nos convida ao romance, ao olho no olho. Não existe tanta pele à mostra. Somos obrigados a focar no essencial: no movimento labial, no leve rubor do rosto depois de uma lufada de vento frio ou do falso constrangimento após uma piada picante. Temos que nos concentrar no brilho dos olhos, no arquear das sobrancelhas, uma mecha de cabelo escorregando pelo rosto.

O frio nos pede para ler a pilha de jornais do canto da sala sob a tépida luz do abajur do quarto. O frio acalma o corpo e agita a alma. E tudo o que acontecia do lado de fora, nas praias , nos bares, nas piscinas públicas, começa a se desenrolar dentro de nós.

Em dias frios testamos novas receitas, temos mais apetite, uma boa desculpa para uns dois ou três copos de vinho a mais. Podemos beber sem transpirar, andar na rua nos sentindo frescos. Podemos andar no metrô nos sentindo protegidos . O contato do outro não irrita tanto.

Em dias frios, podemos sentir uma paixão melancólica por tudo aquilo que mais queremos e nos lembrar com uma doce pontada de dor dos amores perdidos. Nenhum sentimento parece vão ou tolo num dia de chuva. Tudo é revivido na alma ao som das lembranças tépidas.

Em dias frios e de chuva, as tolices de amor viram atos heroicos e não nos arrependemos de ter ofertado nosso coração numa bandeja de prata junto com o chá e as torradas. Num dia de chuva é possível tomar uma caneca fumegante de chá inglês , lendo Jane Austen e se sentindo Lizzy Bennet. Num dia de chuva é possível ler Jane Eyre e sentir o frio doer nos ossos como as pobres meninas do orfanato.

Em um dia frio e de chuva, ninguém diz "eu sou mais eu". Todo mundo relembra o passado e chora as suas lágrimas. Todo mundo sente saudade de algo. Tudo mundo fica mais sensível, mais romântico, mais dolorido, mais humano. A alegria pura sem uma pitada de melancolia me parece um pouco fútil. Sim, amo a delicadeza de alma que os dias frios e de chuva trazem.

Não, este post não é triste. Este post foi escrito por alguém que realmente ama baixas temperaturas e dias cinzentos. Olho pela janela com uma xícara de café fumegante nas mãos. Sinto possibilidades infinitas brilharem em meu coração.


 


Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 














 

O amor e o sexto sentido feminino

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS



Sim, caro leitor. Mulheres são mais intuitivas do que os homens. Obviamente , existem alguns homens extremamente sensíveis e algumas mulheres bastante céticas, que só conseguem ver o óbvio. Mas de um modo geral, viemos com este dom, que de vez em quando, parece mais um fardo bem pesado para se carregar.

Uma vez , vi num lindo filme intitulado "Uma estranha entre nós" uma frase que me paralisou. Os judeus ortodoxos do filme quebravam a cabeça para entender um pensamento que foi decifrado por uma jovem mulher. Não citarei palavra por palavra , mas o sentido geral é o seguinte: Deus conta as lágrimas das mulheres. Por quê?

Porque nós entendemos melhor o mundo. Porque nós entendemos o mundo com o coração. Nós captamos nuances , silêncios , meias palavras. Nós compreendemos a alma e tudo aquilo que vai além da pele , das micagens , sorrisos estudados e frases prontas. Nós entendemos tudo aquilo que vai além dos jogos , das encenações típicas de quem quer parecer uma boa moça. Nós compreendemos a beleza vigorosa da autenticidade. Nós compreendemos que pessoas perfeitas demais são hipócritas.

Parecemos muito mais loucas , instáveis e estridentes porque realmente o somos. Por mais intelectual e racional que seja uma mulher, por mais que ela dedique anos e anos da sua vida debruçada sobre os livros, uma mulher é o grito de amor do mundo. É o sorriso cálido depois do amor. É a mão macia e quente que afaga quem sente dor. É a bofetada ardida que lança na face de quem não a ama.

Sim, caro leitor, mulheres choram à toa na opinião dos homens. Para nós ou pelo menos para a maioria , a traição vai muito além do ato sexual. Para nós ou para quase todas , o amor é praticamente tudo. Mesmo que muitas neguem por orgulho e afirmem que bom mesmo é sexo casual, uma mulher se desenvolve plenamente apenas no amor. Sem amor, nossas vidas são estéreis. Nem deveriam ser consideradas vida. E uma mulher sabe quando outra mulher está amando. Não é preciso dizer nada. Basta uma olhar nos olhos da outra.


Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 


 
 


























 
 
 

sábado, 2 de janeiro de 2016

A utopia do amor

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Como diria Buñuel, Sade era um grande amoroso porque ele era capaz de odiar. Para Buñuel, os que odeiam são os únicos capazes de amar. Concordo.
Amor e ódio são faces da mesma moeda.

Mas fico triste por perceber que muitas vezes o ódio fala mais alto do que o amor e o orgulho ferido sobressai em relação ao desejo de ser feliz.

Não sabemos ser felizes. Pelo menos, muitos de nós. Estamos acostumados à infelicidade. De certa forma , a infelicidade é mais confortável. Quando somos infelizes, não temos nada a perder. Não tememos.

Ser feliz é estar diante da beira de um abismo...é sentir o coração na mão o tempo todo. É sentir o coração esmagado por uma alegria insuportável e um medo igualmente proporcional de voltar para as sombras, de voltar para o escuro.

Sim, preferimos a infelicidade à felicidade. Preferimos o hábito ao amor. Preferimos uma vida conveniente à uma vida intensa, verdadeira, em que podemos ser nós mesmos. Preferimos a modorra de um dia a dia cômodo a uma existência autêntica, plena.

Lutamos e investimos mais nos simulacros e nos amores inventados do que nos amores verdadeiros. Talvez este amor pleno, em que corpos e almas se fundam só existam e funcionem na mente dos poetas.


Talvez tudo se resuma à tédio e à conveniência mesmo. Talvez este amor capaz de pintar o mundo com cores novas e vivazes seja apenas uma imaginação, um sonho, um delírio , uma utopia da mente daqueles que insistem em acreditar que a vida pode ser mais do que protocolo e cumprimento social.

Mas sinto que nunca me submeterei à este asqueroso jogo social. Fui feita para o amor e se não puder vive-lo em sua beleza e horror, prefiro atravessar este longo deserto que é o mundo, sozinha, mas digna , inteira , limpa.

Estou cheia de incertezas. Meu coração saltita com pontos de interrogação. Mas tenho uma certeza: nunca hei de me submeter a um homem sem amor. Mesmo que para isso o preço a pagar seja passar a minha vida inteira sozinha, que é o pior dos castigos para uma mulher como eu, feita de afetividade e êxtase.  

Não creio que Deus tenha um plano para mim. Não acredito no destemor dos homens. Só posso me alicerçar na certeza de que um dia tudo acabará. Esta seja talvez a minha única verdadeira alegria, meu único consolo. Como diria a peça "Noite de desamor" , talvez seja o único momento em que darei certo. Talvez só a morte me fará encontrar o que procuro ou simplesmente me afundará num sono eterno, libertando-me desta vida sem sentido.

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 









sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Um novo ano?

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS


Começa hoje um ano novo? Depende daquilo que você , caro leitor, considera novo. Se você come lentilhas e romãs com fé e não abre mão de uma lingerie nova e faz questão de usar uma determinada cor de roupa, provavelmente hoje é um ano novo com a mesma cara do ano velho.

Provavelmente você espera coisas novas e acredita que elas acontecerão. Provavelmente você se desapontará muitas vezes no decorrer do ano.

Já fui uma fã destas datas festivas. Nunca comi lentilhas nem romãs. Nunca fiz questão de calcinha nova. Por muitos anos usei o mesmo vestidinho branco. Não por desejar paz acima de tudo. Até mesmo porque eu gosto mesmo de um bom embate, de um bom corpo a corpo, de um bom caos emocional.  Eu o usei porque era bonitinho e inadequado para usar em outras ocasiões.

Nunca acreditei nas velhas superstições porque gosto de criar as minhas. Ou gostava. Um ano , cheguei a acender uma vela para "abençoar" uma caixinha em formato de coração, cheia de papeizinhos com pedidos para o novo ano. 

Coincidência ou não , foi um ano de merda. Tive suspeita de câncer de mama , levei um pé na bunda homérico, tive apendicite , um grupo de teatro dissolvido, sem falar que estava sem emprego. 

Coincidência ou não, 2007 foi um ano cheio de ótimas experiências. Um ano difícil. Mas bom. Na época , achava que existia um sistema de compensação no RH do céu. Depois de um ano de merda , boas meninas precisavam ser recompensadas. Foi o mesmo de 1992 para 1993. 

Hoje , acredito acima de tudo na força do momento e do acaso. Acredito que escorregamos, sofremos, adoecemos, piramos , não porque era preciso escorregar, sofrer, adoecer ou pirar. As coisas simplesmente acontecem.  Podemos aprender A ou B com as quedas. Podemos nos tornar mais sábios ou não. Podemos continuar os mesmos. Não acredito que ao perdermos algo importante para nós, algo melhor virá necessariamente. Pode ser que venha ...ou não. 

Enfim, quero dizer que apesar de crer em Deus e amar Jesus e respeitar as religiões, não consigo mais acreditar nesta lógica certinha e bonitinha de causa e efeito. 

Pode soar falso da minha parte , mas tal crença me torna mais leve ,  mais livre de qualquer sentimento de dívida ou obrigação. Fui colocada neste mundo sem ser consultada. Só posso contar comigo mesma.  E não importa o quanto seja bondosa. A vida bate na cara mesmo. 

Não existe a menor relação entre ser bom e ser feliz ou ser amado. Temos que ser bons porque é o certo. Mas não espere nenhum pote de ouro no fim do arco-íris. Felicidade e amor não são questões de mérito. 

Tal crença me liberta para eu ser eu mesma, com meu quinhão de bálsamo e veneno, em toda a plenitude da minha humanidade. Não me importo mais em ter pés de barro e malícia nos olhos, na boca e na alma.  Não me importo mais se me contradigo ou se me atiro no meu caos estridente de forma despudorada, me sentindo em um templo sagrado. 

Não me importo mais se reconheço em mim mesma o que odeio nos outros. Não preciso estar certa o tempo todo. Posso andar descalça pelo mundo, sem grandes certezas. 

Posso me assumir como uma mulher que apenas aprendeu o que eu não quero para mim. Tenho muitas portas em aberto. E saio por aí, meio perdida, meio extasiada , com um vestido de dia de festa, sem sapatos e uma cara de menina arteira. 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.