sábado, 24 de outubro de 2015

Ah????!

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Sinto uma profunda desconfiança por gente que se define equilibrada, controlada demais.

Uma vez, em mais um dos esquetes de horror da minha vida, me deparei com uma frase que quase me paralisou. Alguém me disse que nunca tinha passado por uma grande dor porque controlava bem a sua vida.

Estávamos em uma estrada e senti vontade de abrir a porta do carro só para fugir daquela conversa completamente organizada. Como alguém com mais de 30 anos nunca havia passado por uma grande dor?

Ele falou com um jeito todo fodão, macho alfa, garoto esperto. Na cabeça dele, eu devia ter ficado excitadíssima.

Não! Não fiquei! Digo e repito: quis abrir a porta do carro. Eu me lixo pra gente sem uma pontinha de tristeza no olhar. Eu me dano pra gente que tem tudo sobre controle.

A gente tem mais que ralar o cu nas pedras, se foder bastante antes de criar esta postura blasé diante da vida.  Alguém que se endurece depois de ter se ferrado bastante é um tesão.

Gente que já nasce endurecida e seca como pão velho, me causa gana de perguntar: "Cara, por que você tá me falando uma merda dessas? Guarde seu autocontrole ultra magnético e sexy para quem se impressiona com esta bosta toda?"

Como alguém imagina uma mulher  escritora, cinéfila, especialista em erotismo no cinema espanhol como alguém que curte autocontrole absoluto??????? Falta de feeling total!

Sei lá, mas acho que tenho alergia a gente normal demais.

 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas

Não basta ser bom, ter que ser foda

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

É isso mesmo, caro leitor que curte esta garota desbocada de 37 anos, com libido de 15 anos e traumas de 507. Não basta ser bom, ter que ser foda.

Não basta gostar. Tem que adorar. Não basta querer. Tem que desejar com toda a força das nossas entranhas.

Não basta sorrir amigavelmente. Tem que invadir a vida do outro. Não basta dizer bom dia ou boa noite. Tem que beber junto, chorar junto, rir junto.

Não basta comer. Tem que devorar. Não basta beber. Tem que se embriagar com as emoções.

Não basta tocar. Tem que penetrar. Não basta sentir. Tem que estremecer. Não basta existir. Tem que viver.

Não basta dizer: "Eu quero ou Eu gostaria". Tem que tomar para si com as duas mãos.  Não basta sonhar, imaginar. Tem que mergulhar no mais profundo delírio.

Não basta sofrer. Tem que se desintegrar em partículas de desespero.

 
 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas

Agonia

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Tomo uma taça de vinho branco que é o meu preferido e olho pela janela e vejo um dia cinzento que normalmente me enche de inspiração.

Mas, mais uma vez, sinto-me lançada ao abismo da crise criativa. As palavras me fogem por completo. A alma esvazia-se de paixão e se bato o dedo no teclado do computador é por pura compulsão. É por pura inércia. É por pura incapacidade de reinventar-me de forma mais criativa.

Qualquer coisa dentro de mim resiste a entregar-me a um estado permanente de letargia.

Qualquer coisa histérica dentro de mim me empurra para a vida. E mesmo sabendo que no final das contas, tudo se resume a merda e desejo não satisfeito, insisto pateticamente a oferecer o melhor dos meus sorrisos ao mundo. Flerto com as possibilidades, me embriago com pequenas mentiras, me deixo levar pelo brilho falso das bijuterias, mas lá no fundo, sei que os tesouros verdadeiros estão apartados de mim.

Ok.Ok.Ok. Se os tesouros fossem meus, talvez eu não os quisesse mais. Talvez deixassem de ser tesouros...ou não...não sei...nunca saberei...não tenho como saber. E esta impotência diante da falta de desejo do outro me põe louca. Quero gritar! Mas me atenho a bater insistentemente o dedo nervoso no teclado.

Sinto uma fera me devorar o coração. E se não conseguem ver o sangue injetar meus olhos, é por puro medo ou falsa ingenuidade.

Queria sair por aí, com a alma nua, louca, tomando para mim com minhas unhas curtas e sem esmalte o que desejo, independente de ser merecedora ou não.

Queria lançar um olhar para tua alma e te perguntar: "Por que não?"

 
 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Sobre os mitos que criamos sobre nós mesmos

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Sim, chega uma fase da vida em que não dá mais para mentir para a gente mesmo e tentar nos convencer de que gostamos disso ou daquilo.

Sim, chega um momento em que não dá mais para negar o que se deseja. Não dá mais dizer que somos isso ou aquilo, lá no fundo, sabendo que somos algo bem diferente do que nos ensinaram.

Sim, chega um momento em que é preciso admitir-se complicada, cheia de mas e poréns. É preciso aceitar que temos as nossas manias sim e que não nos satisfazemos com qualquer coisa.

Sim, chega um momento em que a gente começa a ter brio e confessar o nosso lado sombrio, que muitas vezes, é muito mais magnético do que o certinho.

Sim, é preciso dizer a si mesmo, com todas as letras, alto e em bom som, que somos implicantes, exigentes, somos sedentos por amor , mas não basta qualquer tipo de amor. Queremos afeto, mas não pode vir de qualquer pessoa para nos saciar.

Sim, sou complicada, exigente, quero tudo aqui e agora, profundo e intenso.  A minha cara de vítima não me impressiona mais. Também não me impressiono com duas ou três palavras carinhosas.

Não, não quero dar a vida por você. Não quero viver para amá-lo e fazê-lo feliz. Não quero me especializar no seu prazer. Quero sorver o sangue de seu coração com um canudinho, rejuvenescendo minha própria alma esgarçada.

Quero saciar a minha sede de vida com a tua boca, com a tua saliva. Quero matar a minha fome de prazer no teu corpo que deseja se rebelar.

Quero usá-lo como o meu brinquedinho particular, joguete manipulável. Quero fazer de você o que eu bem entender, adorando-o como um prolongamento do meu próprio gozo.

Quero te escravizar ao meu desejo, fazendo-o pedir mais e cada vez mais um pouco de tudo aquilo que jorra de dentro de mim.

Quero este amor menor e vital. Este amor que dilata as pupilas e aperta o coração. Este amor menor e vital, que me faz odiá-lo. Que me lança em tua direção furiosa.


 
 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas

O manual do cuzão

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Se você é um cuzão e pretende aprimorar o seu jeito de viver na retranca, este post poderá ser bastante útil.

Como adoro a diversidade, não quero deixar este tipo que anda por aí aos montes necessitando de orientação e luz para viver.

Cuzões em geral não definem nada. Esperam para ver que bicho que vai dar, para cair do lado do muro que parece mais fofinho. Enfim, cuzões não tem atitude. Portanto se você quiser continuar sendo um cuzão, continue sem decidir porra nenhuma. Continue em cima do muro, deixando a vida te levar.

Cuzões que se sentem constrangidos por serem cuzões, tentam disfarçar a própria cuzice com discursos bonitinhos sobre uma vida mais alternativa, mais livre, mais isso, mais aquilo, mas na prática são tão conservadores quanto aqueles que se colocam como a patrulha da moral e dos bons costumes.

Cuzões pensam que o mundo é como é e que o melhor é se adequar, mesmo uivando de ódio por dentro. Cuzões se cagam de medo das emoções e se fecham por não saberem lidar com elas. Para se sentirem menos fracos, usam o discurso que analisam bem o território antes. Enfim, querem conferir um academicismo para a falta de ousadia.

Boa desculpa! As meninas e meninos incautos vão acreditar com certeza. E o melhor de tudo: te acharão uma pessoa profunda e complexa. Não conseguirão ver o penico imaginário que anda ao seu lado.

Cuzões são o que são. Só se entregam se tiverem todas as garantias de sucesso. Mas se "entregar" com todas as garantias não é entrega. Não é sucesso. É nada. 


 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Uma dose cavalar de acaso

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Em uma época de tanta liberalidade em relação a drogas lícitas e ilícitas, não consigo deixar de pensar que o acaso amoroso dá um barato danado. É bem melhor do que uma margarita alucinógena que meu pai preparou aqui em casa por engano. Colocou tequila demais e ficamos como dois bobos rindo e olhando um para a cara do outro e dizendo : "Ficou muito forte!" e bebendo-a mesmo assim.

Sei que atualmente as pessoas se conhecem pelo Tinder. Racionalmente falando, entendo as vantagens do sistema. Mas como excesso de racionalidade não é o meu forte quando o assunto é relacionamento, acho que parte fundamental do processo vai para PQP.

Quando alguém acessa um troço destes, está a procura de romance. E quando este alguém recebe uma mensagem, também já sabe que este outro alguém quer romance com ele ou ela. Tudo muito previsível...me sinto contratando uma secretária. Olhando e analisando currículos. Ninguém cabe na descrição de um site. E se couber...ai, Meu Deus. Prefiro ficar sem conhecer esta pessoa.

Em meus momentos de fraqueza, chego a recorrer a estes meios , mas 3 minutos e meio depois bate uma fossa danada e sinto vontade de entrar para a ordem das carmelitas descalças só não para não correr o risco de entrar novamente nestes sites e ver um bando de gente carente. Carente ou prática demais, o que pode ser bem pior...

Sempre gostei do imprevisto de me apaixonar por alguém num lugar inusitado, do nada, sem dar muita conta. 

Gosto de situações anticonvencionais. Gosto quando as coisas acontecem no momento que menos espero, do jeito mais torto possível. 

Gosto quando as coisas fogem do controle, me atropelam, me arrastam pelos cabelos, me trucidam, me jogam contra a parede.  Gosto de enfiar os pés pelas mãos, pisar na bola, cair de bunda no chão e me espatifar com a força do acidental.

Mas talvez seja utopia esperar por uma energia tão natural e brutal num mundo como o nosso em que as pessoas terminam namoros por WhatsApp.

 
 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas

Me perdoem os pacifistas, mas ter inimigos é fundamental

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Sim, ter inimigos é fundamental. Alguém de alma pura e bons valores poderia me mandar uma mensagem, me alertando para o equívoco do título: "Você não quis dizer que ter amigos é fundamental"?

Dizer que ter amigos é fundamental é o mesmo que dizer que levar um pé no traseiro dói pacas e que tem dias que a gente quer mandar pelo menos uns três à merda. Enfim, é o óbvio dançando balé clássico à nossa frente, com um sorriso insosso.

Sim, ter inimigos é fundamental. Não digo muitos. Ter muitos inimigos vira um problema. Na verdade , dois. Um de ordem prática e outro de ordem psicológica, que de certa forma, acaba se tornando prático também.

Problema 1: Alguém com muitos inimigos tem muitas portas fechadas. Problema 2: Se você tem muitos inimigos , de duas uma: ou você é muito Zé Encrenca ou é fodão demais. Se você é Zé Encrenca as pessoas se afastam com receio. Se você é o fodão se afastam também por receio.

Agora, ter uns dois ou três inimigos dá um chilli para a vida. Afinal de contas, para quem você vai exibir uma grande conquista? Para os amigos? Não! Não! Não! Não tem a menor graça contar conquistas para amigos. Amigo que é amigo gosta da gente de qualquer jeito. Amigo que é amigo quando vê a gente na sarjeta , na rua da amargura, nos compra uma coxinha e diz o quanto somos incríveis. O barato é arrumar um jeito para os inimigos ficarem sabendo.

Sim, um inimigo e um pontapé no traseiro são duas coisas horríveis que levam a algo bom: somos arremessados para a frente!

Os pacifistas que me perdoem, mas ter inimigos é fundamental. Nada mais perfidamente saboroso que olhar para a cara verde de inveja da oposição enquanto degustamos o nosso Martini Bianco mega gelado.







 

Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas