terça-feira, 13 de outubro de 2015

De qual lado da força você está?

Garota desbocada é um espaço esteticamente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
Assisti a uma palestra deliciosa do professor Clóvis de Barros Filho sobre alguns conceitos fundamentais para entender o pensamento de Nietzsche.
 
Como o Garota desbocada não é espaço para blá blá blá acadêmico, como o Garota desbocada é o meu cantinho profano e dos prazeres irreverentes, me restringirei a falar sobre uma ideia que me fez rir sozinha num  múltiplo orgasmo intelectual.
 
Nietzsche defendeu que havia dois tipos de forças: as ativas e as reativas. Colocando num Português bem claro e ao gosto do professor Clóvis , quem tem forças ativas são os fodões, são os caras e as caras que fazem e acontecem. Para Nietzsche os artistas apresentavam o máximo da potência! Porém, arte vai além de pintura, literatura , música e o cacete a quatro. Uma aula dada com tesão , um trabalho qualquer feito apaixonadamente é uma espécie de arte para Nietzsche.
 
Já os que apresentam forças reativas , são, como o próprio professor Clóvis falou e eu amei de paixão: os empata foda. Os cuzões de plantão que ficam regulando o gozo alheio. O mundo burocrático para Nietzsche é o mundo dos reativos.  Eu era nietzschiana e nem sabia...me dá calafrios e vontade de delirar até a morte só de pensar em resolver qualquer procedimento burocrático.
 
Peça meu coração numa bandeja de prata, me peça fidelidade , amor eterno, me peça para relacionar Bauman, Aldous Huxley , Nietzsche, Deleuze, Foucault , Teoria da Comunicação com artes em geral e tragédias da vida , mas não me peça para ler um edital ou preencher um formulário...eu não sei, eu não entendo, eu começo a suar e a tremer como um neurótico de guerra!
 
Mas voltando aos reativos, é aquele tipo de colega que nunca gosta de nenhum projeto novo porque as coisas estão funcionando mais ou menos do jeito que estão. Não são grande coisa, mas pelo menos é um ruim familiar.
 
É o chefe que só lembra que você existe quando você faz cagada para dar uma enquadrada gostosa em você.
 
É o amigo broxante que se sente um merda e faz de tudo para você se sentir uma bosta.
 
É o professor mais preocupado em anotar falta. É o aluno mais preocupado em responder chamada. É todo merdinha que gosta de jogar água quente no chope alheio. É todo merdinha mais preocupado em alfinetar e ferrar e vigiar os outros do que desenvolver a própria energia vital.
 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Prazeres plebeus

Garota desbocada é um espaço esteticamente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
O imaginário coletivo gira em torno das coisas nobres da vida, mas o que satisfaz mesmo são os prazeres plebeus. Sem falar que na intimidade ninguém é nobre de fato.  O espaço do lar é o reduto da plebe e não importa o quanto educado seja você na rua. Não importa que você ganhe bem pra cacete e tenha lido todos os livros da Gloria Kalil e saiba exatamente como se comportar elegantemente em cada situação da vida.
 
 
Chegando em casa depois de um dia de cão, você será um plebeu. Quando você vir alguém que enchouriçou a sua vida até não poder mais escorregar numa casca de banana, você será um plebeu. Quando você se apaixonar a ponto de perder o caminho de casa, você será um plebeu. Quando o sapato apertar uma unha encravada , quando uma pergunta idiota fizer o sangue ferver, quando um móvel sair do lugar e esbarrar  em você ( os móveis aqui de casa vivem me atropelando) você será um plebeu.
 
Mas vamos aos meus prazeres plebeus???????????
 
Não sei exatamente o porquê, mas o costume de tomar café em copo está me cativando cada vez mais. Café em copo de requeijão e vinho tinto em taças maravilhosas. Como um leitor me apelidou, sinto-me uma camaleoa saindo de um polo ao outro em poucas horas.
 
Comer salgadinho de boteco ou prato feito em restaurantes com mesinhas nas calçadas. Amo comida elaborada , sofisticada, enfeitada, mas quando bate aquela fome mesmo, um bom bife acebolado com arroz , farofa e fritas parece uma opção espetacular.
 
Jogar um molhinho de pimenta em cima da comida. Tem coisa mais prosaica do que jogar molho de pimenta em cima do arroz com feijão e ficar olhando para o pote com as pimentinhas boiando no óleo como se estivesse tendo um orgasmo?
 
Entrar no metrô rindo de alguma piada tosca, acompanhada por amigos zoados e sentindo mais vontade de rir ainda ao ver a cara de desaprovação de alguém muito distinto.
 
Comer fast-food vendo um filme trash como Sexta-feira 13. É como voltar para a adolescência. Para a parte boa da adolescência que não inclui aquelas provas diabólicas com 309 perguntas. Nem as espinhas bem no meio do rosto. Nem  a timidez patológica.  Nem alguns colegas babacas que devem estar hoje fingindo orgasmos e tocando carreiras medianas. 

Me refiro à adolescência dos amigos do peito, das confidências calorosas, das idas ao cinema, das poesias escritas no meio das aulas, das peças teatrais montadas na escola, dos finais de semana com a primaiada, das idas ao Mac , dos planos para o futuro, das horas ouvindo música...se bem que isso eu ainda faço. Mas talvez com um pouco menos de paixão.
 
Pegar no sono na frente da TV.  Ver filme de terror no escuro. Tomar banho de chuva. Tomar um banho bem quente num dia frio. Tomar café da manhã na cama. Ficar largada na cama sonhando acordada. Dizer o quanto as pessoas são importantes para a gente olhando nos olhos. Ninguém é nobre quando olha nos olhos. Ninguém é nobre quando se confessa, quando se declara, quando se revela. Somos todos plebeus e sofisticadamente simples quando amamos, quando sentimos prazer, quando odiamos, quando sofremos, quando somos nós mesmos.
 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.











Sobre sabores e personalidades

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS



Sou apaixonada por gastronomia. Adoro comer bem e cozinhar. Em minha opinião, quando cozinhamos para alguém, oferecemos um pouco do nosso coração, dos nossos sentimentos. Acredito  no pensamento de Tita do filme  Como água para chocolate. O ingrediente secreto das melhores receitas é fazê-las com amor. Sinceramente, acho que o amor é o ingrediente secreto para fazer qualquer porra nesta vida. Até besteira. Já notaram a diferença de uma besteira feita por idiotice e outra feita com arte,  com savoir faire?
 
 
 
Pato ao molho de suco de laranja com batatas sauté na gordura da carne e salada crocante. Fica perfeita com um bom vinho tanto tinto ou branco ( o que você preferir) e uma boa companhia com gosto e textura de mousse de chocolate
 

Acredito na cozinha como um laboratório de experimentos malucos. Um ateliê de arte ultra pessoal. Raramente sigo alguma receita à risca. Me arrisco a errar. Quando nos arriscamos ao pior podemos nos deparar com o melhor.  Brinco na gangorra desgovernada dos pratos com final feliz e  dos outros desastrosos. Para mim não há nada mais desastroso ou trágico do que o lugar comum. Salada de alface e peito de frango sem gosto de nada. Molho lavado, sem tempo suficiente para apurar. Nem ruim. Nem bom. Quero gritar e chorar! É quase o mesmo que passar de ano por bom comportamento ou ser definida como boazinha. Uma pessoa pode ser tantas coisas nesta vida insana...e no final das contas se torna a boazinha...quero gritar de novo!
 
 
Gostinho de irreverência. Esta turminha fica deliciosa com uma caipirinha de vodca debaixo do sol do meio-dia RS
 
 

Comer para mim é muito mais que repor vitaminas , proteínas e mais uma série de nutrientes essenciais à manutenção da vida.  Comer para mim é uma fonte de prazer, de aconchego , de alegria. É tesão puro, na veia.

 


 
Gosto de antigas civilizações ( Pirâmides no México) Só faltou um mojito ou margarita RS

Compartilhar uma refeição é um sinal de comunhão. Dividir um sanduíche ou uma fatia de bolo com quem não levou nada para beliscar durante um passeio é para mim uma das cenas mais tocantes vivenciadas pela raça humana.

Comer é coisa séria. Comer junto é um caso de amor. Fortalece laços, aprofunda a intimidade. Comer em família é sagrado e pode ser o segredo de alguns amores felizes.
 
 
Coxa de peru refogada com batata e molho de tomate acompanhada por fettuccine na manteiga. Prato delicioso com vinho, cerveja e um papo excelente.

Como toda apaixonada por qualquer tema , amo fazer associações malucas entre sabores e personalidades.

Não curto muito os sabores azedos. Ok. Amo sucos cítricos e um molho de tomate bem azedinho.  Picles também me parecem ótimos , mas se comidos com moderação. A não ser que sejam aqueles cortados em tiras bem fininhas...Aí a moderação vai dar uma voltinha em PQP.  Mas não curto frutas muito ácidas nem doces feitos com frutas azedas como limão e maracujá. Não gosto da combinação entre doce e azedo. Vinagre no tempero do bife nem pensar!  Também não curto pessoas azedas , amores azedos.  Prefiro os amargos. Tanto as comidas como as pessoas. Gosto de cerveja , de chocolate meio amargo , uma boa xícara de café.  Vejo uma diferença essencial entre uma pessoa azeda e outra amarga.
 
 
Gosto de turismo cômico ( Buenos Aires num calor típico do Saara)
 
Acho que as pessoas se tornam amargas. Por outro lado, as pessoas nascem azedas.  O excesso de experiências negativas mal processadas pode tornar alguém amargo. O azedo já me parece algo inato. Nasce-se azedo ou não. O azedo pode ter uma vida bem organizada e mesmo assim ser azedo. É o temperamento da pessoa , como timidez , extroversão, eloquência. Azedo é naturalmente cáustico.  E naturalmente, sinto um impulso feroz de rejeitá-los.
 
 
Gosto de traquinagem em típico restaurante de Puebla. Gosto de mole pueblano com Besa me mucho dos mariacchi.
 

Gosto de doces. Mas nada excessivamente doce. Tanto as comidas como as pessoas. Doce é gostoso. Doce deixa a gente mais feliz. Recupera as nossas energias. Nos consola depois de um dia triste. Doce nos pega em seus braços. Doces propriamente ditos e pessoas com gosto de calda de chocolate quente ou bananada caseira. 
 
 
 
Esta turminha é mais gostosa do que calda de chocolate quente e bombom recheado de cherry. Jogaria todos numa grande piscina de sorvete de creme RS
 
 
Mas doce com excesso de açúcar e pessoa com mel demais pode enjoar. Neste sentido, adoro pessoas e doces que tem uma pitada de amargo. O amargo corta um pouco do doce e o doce suaviza o amargo. Pessoas doces , mas que sofreram muito na vida , costumam ser profundas e deliciosas como uma bom bolo de chocolate meio amargo ou uma torta  gelada de café. Pessoas doces e amargas podem ser inspiradoras como um café fumegante com um pouco de açúcar ao fundo.
 
Yakisoba italiano RSRS Penne, pedacinhos de frango, legumes, amendoim e tomate of course RS

Quanto penso em sal, penso em batatinhas fritas , um bom churrasco e em gente que dá sabor à vida.  Penso em gente que se torna indispensável com pouco tempo de convivência. Gente que nos tira da zona de conforto e nos faz lutar na linha de frente da vida. Penso em gente que faz a diferença. Mas se tiver sal demais nas fritas , na carne ou nas pessoas, o estômago pode se revoltar e a pressão subir.  E viver no limite das emoções é para poucos: para os loucos, os poetas e os apaixonados.
 
 
Neste dia rolaram todos os sabores misturados RS a pimenta da conversa com o amargo da cerveja ficaram perfeitos como queijo com goiaba e macarronada com muito parmesão

Quando penso no ardido, penso no sabor irreverente da mostarda,  no paradoxo que existe nas asinhas de frango ultra apimentadas e banhadas em mel. O que queima , machuca e incomoda , nos enche de um prazer sofisticado e inenarrável. As lágrimas escorrem pelo rosto  durante o ápice do prazer. Pessoas ardidas são intensas , passionais , batem com uma mão, acarinham com a outra. Nos fazem descobrir o mais belo e horrendo em nós. São reveladoras.

E você? Quais sabores e personalidades te apetecem?
 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

 

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Uma vida sem vícios é uma vida insuportável

Garota desbocada é um espaço esteticamente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
 
Sou mulher de muitos vícios. Ouço música todos os dias. Enquanto escrevo este texto escuto um sucesso dos anos 1980 bebendo água mineral para fingir que cuido da saúde. Por mais lúcido e sincero que alguém seja, algumas mentirinhas apimentam a vida.
 
Sou viciada em ver filmes, comer coisas gostosas, escrever, tomar cerveja com os alunos e suspirar desfalecida de prazer diante de um dia cinzento.
 
Sou viciada na sensação lasciva do chocolate derretendo devagar na boca. Sou viciada em abraçar forte e falar besteira, fazer filosofia e rir de mim mesma.
 
Sou viciada em emoção. Então, quando tudo fica muito calmo e organizado e eu finalmente acho que "amadureci" ( leia-se: virei uma chata conformada bunda mole) algo acontece para bagunçar tudo de novo.
 
Sou viciada em pegar no sono vendo filme de terror e acreditar que sou importante para as pessoas que amo. Sou viciada em vasculhar os labirintos da minha alma em busca de mim mesma.  E não há nada mais bonito e verdadeiro do que se encontrar no porão ou no esgoto ou no submundo do inconsciente.
 
Atualmente, estou me viciando também nos textos da Tati Bernardi e do Gregório Duvivier. E foi inspirada no último texto da Tati Bernardi que me deu uma vontade louca, quase incontrolável e histérica de fazer um texto bem maldoso.
 
Resolvi fazer uma listinha bem escrota no formato paródia de autoajuda para tirar um sarro e quebrar a monotonia de uma segunda-feira em que não dou aula.
 
Os maiores lemas e erros da mulher idiota
 
1. Colocar o homem no centro da sua vida como uma espécie de Messias que vai te salvar do tédio da vida ( fiz isso por 37 anos)
 
2. Acreditar que uma bunda dura e uns peitinhos siliconados são determinantes para te tornar uma pessoa interessante e desejável.  Corpo bem cuidado e gostosinho é bom demais, mas não é tudo. Não é nem a metade.
 
3. Acreditar que por ser malhada e bonita, pode ser uma fresca na cama.
 
4. Ser levada a um restaurante maravilhoso e pedir uma saladinha de endívia e depois de comer duas folhas, dizer que está satisfeita com aquela cara de anêmica anoréxica.
 
5. Pesquisar mais sobre grifes do que sobre Humanidades, restringindo às suas conversas à compras e dietas.  Se você optar por este vasto e magnético repertório intelectual, procure apenas amigas alienadas para compartilhar da sua futilidade. Caso contrário, você corre o risco de ver alguém cortando os pulsos na sua frente.
 
6. Achar que a sua melhor  amiga nunca chamará a atenção do seu namorado porque na sua opinião é menos atraente do que você.
 
7.  Fazer cara de nojo como se estivesse sentindo cheiro de pum ao ouvir a palavra cocô ou uma piadinha quente. Ninguém precisa falar palavrão ou contar piada suja, mas também não precisa fazer cara de quem está sendo estuprada.
 
8.  Achar desaforo rachar a conta com o namorado. Desaforo por quê? O cara está comendo sozinho? O cara está fazendo sexo sozinho? Nos primeiros encontros, confesso que é bem gostoso ser um pouco mimada. Faz parte da corte. Quando vira hábito mesmo é cara de pau.
 
9. Ir para a faculdade para procurar namorado em vez de se fazer o que se deve fazer em uma faculdade: ESTUDAR!
 
10. Deixar de tomar um banho de piscina porque engordou 100 gramas.
 
11. Achar que o homem precisa amar mais do que a mulher. Homem precisa amar pra caramba e mulher precisa amar pra cacete.
 
12. Ficar com vergonha de falar para o parceiro o que lhe agrada na cama.
 
13. Ficar perdoando grosserias e esquisitices por medo de ficar sozinha ( já fiz muito disso também e não me orgulho nem um pouco!)
 
14. Acreditar que encorajando e estimulando cagonildos, eles se tornarão homens destemidos. Cagonildo é cagonildo e no final das contas vai fazer sempre o que ele sabe fazer melhor: cagar de medo. ( Outro vício antigo meu...)
 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.
 
 

domingo, 11 de outubro de 2015

Pelo o amor de Deus: vamos parar de formar robôs!

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
Pelo o amor de Deus: vamos parar de formar robôs. Professor não é dono da verdade. Professor não comprou os direitos autorais da verdade e do saber. Professor não sabe tudo! Fazer doutorado não oferece super poderes como a espada mágica do He-Man e da She-ra. Ninguém sai voando como o  Super Homem nem é capaz de quebrar a ignorância humana com um golpe certeiro.
 
Ok.Ok.Ok. Mestrado e doutorado reformulam totalmente a forma de pensar, de argumentar, de ver o mundo. Se a pessoa não fica intelectualmente mais interessante depois do doutorado , alguma coisa ocorreu de errado. Como se diria na linguagem do dia a dia....deu bosta.
 
Mas apesar dos horizontes ampliados do professor, ele não faz a aula sozinho. Se os alunos não participarem , não se envolverem , a coisa fica no esquema estupro. Precisa haver um jogo de sedução entre ambas as partes, um vai e vem de ideias e reflexões. Sem este canal aberto com fluxo intenso, a aula vira uma chatice para quem assiste e para quem a dá. A vida é dialética...ou deveria ser. Se a sua vida não é dialética, lamento informar: deu bosta.
 
Se o professor não abre este canal, se o professor não convida os alunos a entrar no seu jogo, a arriscar passos novos, se o professor não inspira os alunos a serem eles mesmos, tudo se reduz a slides e tédio.
 
Por outro lado, os alunos também precisam estar receptivos a entrar no jogo. Sem um pouco de destemor , haja sedução por parte do docente.  E mais uma vez dá bosta.
 
Que o nosso sistema educacional é precário, caquético e está caindo aos pedaços, creio que a maioria sabe. Quem não sabe ainda deve sofrer com alguma psicose muito grave, pois está desconectado da realidade e vivendo num mundo paralelo.
 
O problema é encontrar forças e estratégias para mudar a realidade educacional. Insistimos em métodos arcaicos e artificiais de avaliação. O aluno deveria ser avaliado no dia a dia, no decorrer do ano letivo, no embate criativo com o professor e com a classe . Deveria ser avaliado pela capacidade de responder ao canto da sereia do professor e de vez em quando seduzir também o professor por meio dos seus saberes e principalmente por meio das suas dúvidas. Não há nada mais instigante do que uma bela dúvida. Apenas os tolos têm certeza de tudo o tempo todo. Apenas os tolos não se questionam e vomitam verdades prontas como pacotes de miojo.
 
Deveríamos enterrar a escola das chamadas, dos sinais, das avaliações formais, do professor como detentor do saber, do professor à frente como um líder. Sim, o professor é um líder. Mas um líder intelectual, um líder afetivo, não um chefezinho rabugento de alguma repartição qualquer.
 
Deveríamos fazer aulas sentados no chão ou em um jardim ou andando pela rua.  Não deveríamos nos preocupar tanto com a presença dos corpos e sim com a presença das almas. Sem chamada,  aluno FDP não ficaria em sala. Sem chamada, aluno FDP iria encher o saco em outra freguesia e o professor poderia entrar numa sintonia totalmente fina com os alunos interessantes e interessados. Com os alunos que fazem tudo valer a pena.
 
Enquanto professores e alunos não entenderem que o principal na sala de aula não são os professores nem os alunos e sim a relação entre eles, continuaremos formando robôs.
 
Enquanto professores e alunos não entenderem que a construção do saber é um processo dinâmico,  vivo, feroz, em que cada um oferece o seu melhor e o seu pior, continuará dando bosta.
 
Abaixo segue vídeo com entrevista que concedi ao programa Papo aberto sobre o meu livro Sociologia da Educação ( dezembro de 2014).



Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.







Gosto de pão na chapa e café com leite

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
As melhores coisas da vida tem gosto de pão na chapa acompanhado por café com leite ou chocolate bem quente. As melhores coisas da vida são comidas com apetite no balcão de um bar, são pegas com as mãos sem medo de engordurá-las.  As melhores coisas da vida são devoradas a dois, a três, a quatro, no meio de olhares brilhantes, sorrisos espontâneos e palavras soltas.
 
As melhores coisas da vida tem gosto de improviso, de imprevisto. As melhores coisas da vida acontecem de repente, sem estarmos devidamente preparados para elas como aquele convite de última hora para uma cerveja e uma conversa gostosa.
 
As melhores coisas da vida tem gosto de brincadeira, de peraltice. As melhores coisas da vida tem gosto de beijo roubado, abraço apertado, olhos nos olhos, calor na alma. As melhores coisas da vida são as que nos transformam.
 
As melhores coisas da vida tem gosto de descoberta, perplexidade. As melhores coisas da vida tem gosto de primeiro amor,  embora o segundo, o terceiro e todos os outros sejam inebriantes.
 
As melhores coisas da vida tem gosto de pastel de feira ou salgadinho de boteco, comidos sem culpa, num clima alegre. As melhores coisas da vida tem gosto de piquenique no cinema, amor nos lugares mais improváveis. 
 
As melhores coisas da vida tem mãos quentes, olhos eloquentes. As melhores coisas da vida nos fazem rir e chorar e querer tudo intensamente e brandamente ao mesmo tempo.
 
As melhores coisas da vida nos levam para um passeio no meio do expediente. As melhores coisas da vida tem o jeito louco de quem não para de rir no metrô. As melhores coisas da vida não usam grifes e fazem tatoos laváveis na alma.
 
As melhores coisas da vida tem calorias ilimitadas, glúten e gordura trans e excesso indecente de emoção. As melhores coisas da vida tem gosto de quero mais , eu não deveria e por que não?
 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

sábado, 10 de outubro de 2015

Nojo

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
Não há nada mais broxante ou desestimulante para mim quando digo algo que considero transgressor e alguém me olha como se estivesse falando sobre o sexo dos anjos.
 
Não há nada mais broxante do que questionar uma convenção boba como dizer tudo bem sem querer ouvir a resposta e alguém achar que isso é normal porque todo mundo faz.
 
Descobri que é muito mais simples responder à uma pergunta complexa do que a um pensamento simplório. O que se dizer para alguém que acha determinado comportamento normal porque a maioria o pratica?  Ok. Por esta linha de raciocínio, teríamos que considerar normal a corrupção no Brasil.
 
E se de repente algum grupo de poder da sociedade decidisse instaurar a moda de enfiar a cara no vaso sanitário para comer toda a bosta contida nele? Se revistas da moda e atores sarados e badalados que provocam gritinhos eróticos nas meninas declarassem em talks shows que comem toda a merda que produzem e ainda fazem selfies?
 
Algum incauto de plantão que só abre a boca para perolar ( perolar é um neologismo. Termo que acabei de inventar para me referir a quem fala pérolas) poderia argumentar dizendo que nenhuma celebridade diria isso. Que ninguém inventaria alguma moda nociva ou nojenta.
 
Algum desbocado de plantão também poderia responder o quanto é nojenta e nociva esta moda que faz adolescentes se tornarem bulímicas ou anoréxicas. Por acaso é bonitinho e fashion alguém enfiando os dedos goela abaixo depois de devorar comida insanamente? Não vejo muita diferença entre provocar o próprio vômito por medo de engordar e comer merda.
 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.